domingo, 28 de março de 2010

A graça é para todos

Assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos. (Mt 20:16)


Por Alan Rocha
O reino dos céus é um reinado de generosidade, em que o mais importante não é o que a pessoa faz por merecer, mas o que recebe sem mérito algum. Na parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20:1-16), vemos a atitude do senhor da vinha em relação aos que nela trabalharam por um dia; podemos observar como Deus manifesta sua misericórdia para conosco. Com essa parábola, que é encontrada apenas no evangelho narrado por Mateus, aprendemos que o recebimento das bênçãos divinas e a salvação não são motivados por nosso merecimento, nem por tempo de serviço ou condição moral, condição financeira, mas, única e exclusivamente, pela graça de Deus.

Para se interpretar uma parábola corretamente, alguns princípios devem ser observados; um deles é este: examinar o contexto no qual a parábola está inserida, isto é, o lugar, as circunstâncias, as pessoas para quem ela foi contada e o problema em questão. Sendo assim, para captarmos a mensagem da parábola dos trabalhadores na vinha, precisamos perguntar: O que levou Jesus a contar esta parábola? Examinando o contexto anterior, isto é, os versículos que a antecedem, encontramos a narrativa do encontro de Jesus com o jovem rico (Mt 19:16-22). Este, embora fosse escravo da cobiça e adorador da riqueza, considerava-se um observador dos mandamentos estabelecidos por Deus.

Diante da proposta feita pelo Mestre, de renegar ou renunciar a sua riqueza, ele se abateu e desistiu de segui-lo. Enquanto aquele jovem se afastava, entristecido, Jesus deixou os seus discípulos espantados, ao declarar o seguinte: “Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no Reino dos céus” (Mt 19:23). Assombrados com a declaração do Mestre, os discípulos perguntaram: “Quem poderá, pois, salvar-se?” (Mt 19:25). Eis a animadora resposta do Senhor: “Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19:26). Tão poderoso é o domínio das riquezas sobre o coração humano que apenas o poder de Deus pode libertá-lo da tirania do materialismo. Foi, então, que, o sempre impulsivo Pedro, que se sentia cheio de méritos, aproveitou a ocasião para saber o que seria dele e dos outros onze que, ao contrário do jovem rico, foram capazes de atender ao chamado, abandonar tudo para se tornarem discípulos de Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos; que receberemos?” (Mt 19:27). Em resposta, Jesus não repreendeu o discípulo, mas, bondosamente, explicou-lhe que, embora os doze apóstolos tivessem lugar de destaque no reino de Deus, não eram, em nada, melhores aos tantos outros, que também haviam sido alcançados pelo evangelho salvador.

Todos teriam o mesmo galardão: “... cem vezes tanto nesta vida e por fim a vida eterna“ (Mt 19:29). Entretanto, Jesus os alertou sobre o perigo de entenderem que o galardão poderia ser conquistado por meio de critérios humanos. O Mestre desejava mostrar-lhes que essa recompensa prometida não seria dada por merecimento da parte deles, mas por causa da generosidade do Pai. Para os discípulos, não era fácil aceitar que a graça de Deus era para todos, pois, desde muito cedo, haviam sido, criteriosamente, instruídos pelos fariseus na doutrina da salvação pelo mérito ou pelo esforço próprio. Se não mudassem seus conceitos de salvação, teriam dificuldade, não somente para apreciar, mas, também, para anunciar inteiramente a maravilhosa manifestação da graça de Deus. Sendo assim, ao contar a parábola dos trabalhadores na vinha, Jesus quis mostrar, especialmente aos doze, como a salvação se processa no reino de Deus. Qual a verdade principal ensinada por Jesus, na parábola dos trabalhadores na vinha?
Jesus compara o reino dos céus a um dono de terras que contrata homens para trabalharem em sua vinha. Ao longo do dia, cinco grupos de trabalhadores foram contratados (Mt 20:1b-7). O 1º grupo trabalhou das 06 às 18 horas; o 2º grupo, das 09 às 18; o 3º grupo, das 12 às 18 horas; o 4º grupo, das 15 às 18h, e o 5º grupo, das 17 às 18h. Ao fim do dia, o dono da vinha orientou o administrador a pagar seus salários, começando pelo último contratado, até o primeiro (Mt 20:8). Cada trabalhador recebeu um salário idêntico: um denário. Os trabalhadores que começaram a trabalhar às seis horas alegam que deveriam receber mais do que os demais, que começaram a trabalhar mais tarde. O dono da vinha lembrou aos murmuradores duas coisas:

(1) Ele lhes pagou o que fora combinado (Mt 20:13). E qual fora o combinado? Um denário. Ao serem chamados para trabalhar, esses homens consentiram em ganhar esse valor.

(2) Ele paga o que quiser a quem quiser (Mt 20:14-15).
Agora, vamos à pergunta levantada no início: Qual a verdade principal ensinada nesta parábola? Jesus não a narrou para ensinar lições sobre economia ou negócios. Ele não narrou essa história para mostrar como devem ser as relações entre empregador e empregado. A verdade principal ensinada na parábola é: a graça de Deus é para todos! Ao ensinar a parábola, Jesus mostrou que Deus não trata os homens de acordo com o princípio do mérito, da justiça ou da economia. Deus não está interessado em lucros. Deus não trata o homem na base do “toma lá dá cá”, ou “uma boa ação merece recompensa”. A graça de Deus não pode, simplesmente, ser dividida em quantidades proporcionais ao mérito acumulado pelo homem. Havia em circulação, na época, uma moeda chamada pondion, que valia a duodécima parte de um denário. Na graça de Deus, no entanto, não circulam porcentagens, porque “todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (Jo 1.16). O senhor da parábola, que convida trabalhadores para a sua vinha, representa o próprio Deus. Pela graça divina, fomos salvos, perdoados de nossos pecados e libertos da condenação da morte, para vivermos em novidade de vida. Além disso, através da mesma graça que agiu para a nossa salvação, também fomos chamados para trabalharmos no reino de Deus.

Poderíamos trabalhar inteiramente de graça, apenas por gratidão, pelo tanto que ele nos fez. No entanto, o Pai decidiu recompensar-nos, ainda que não merecêssemos coisa alguma. Deste modo, a graça é o critério usado por Deus para recompensar-nos. Mas o que é graça? “É ação imerecida de Deus para com o homem. É um fluir único da bondade e generosidade de Deus”. É a resposta divina à necessidade humana. No passado, não éramos dignos de coisa alguma. Andávamos pela vida, sem propósito, éramos insignificantes, tristes e perdidos; mas, agora, por sua graça, além de a nossa vida encher-se de significado especial, fomos também chamados para servir-lhe em seu reino, com a promessa de uma grande recompensa; isso porque Deus simplesmente nos ama. O autor Philip Yancey diz a seguinte frase: Não há nada que eu possa fazer para que Deus me ame mais. Não há nada que eu possa fazer para que Deus me ame menos.

Logo, é necessário entendermos que não existe, de nossa parte, merecimento algum e não há o que possamos fazer que nos coloque em condição de merecimento (Ef 2:1-9; Rm 5:1-11). Em Rm 8:32, lemos: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?”. Então, até as bênçãos que recebemos não vêm por nossos esforços, mas, sim, pela misericórdia de nosso Senhor. Afirmamos, com base na palavra de Deus, que não é necessário nem um tipo de sacrifício ou oferenda, nem um tipo de ritual, para que Deus nos dê algo. Então, o que significa a expressão os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos? De fato, toda a parábola está sintetizada nessa frase, que aparece tanto no início quanto no final dela (Mt 19.30, 20:16). De acordo com Tasker, [Tasker (1999:151)], ela expressa a idéia de igualdade e, neste contexto, significa que os que chegarem por último no reino de Deus serão tratados em iguais condições, como os que chegarem primeiro. No reino de Deus, não há discriminação, nem favoritismo. Os judeus não terão nenhuma vantagem sobre os gentios. Logo, em sua essência, a parábola mostra que a graça é para todos, pois todo aquele que se aproximar de Jesus, mediante a fé, tornando-se filho de Deus, terá os mesmos direitos assegurados pela Cruz.

No reino de Deus, não há filho preferido. Os trabalhadores da undécima hora são tão importantes quanto os da primeira, pois Deus não faz distinção de pessoas (At 10:34). Sendo assim, a igreja, como a maior expressão do reino, deve viver esse princípio em seus relacionamentos; deve combater todo preconceito racial e toda distinção das pessoas, seja pela condição econômica, pelo grau de escolaridade, pelo sexo ou pela idade. Não podemos medir as pessoas pela quantia de seus dízimos, nem pelo tempo em que elas estão na igreja, pois todos são iguais diante do Senhor (Rm 2:11, 10:12; Gl 3:28). O apóstolo Tiago exorta a igreja a não fazer diferença entre as pessoas, a não as tratar com parcialidade (Tg 2:1-4).

Os trabalhadores da primeira hora sentiram-se injustiçados, pelo excesso de bondade do dono da vinha para com os outros. Eles foram incapazes de celebrar a manifestação da generosidade. Não houve celebração, mas murmuração. Assim, somos desafiados a nos alegrar com o que Deus tem feito na vida de outras pessoas, ou através delas. Devemos eliminar todas as possíveis raízes de insatisfação ou inveja em relação ao outro. Peçamos ao Senhor que nos dê um coração generoso, para sempre buscar o crescimento de outras pessoas, e humilde, para nunca se julgar mais merecedor do que elas. Que o Senhor nos ajude a evitar a inveja para com as bênçãos espirituais dos outros.

A vida eterna e as bênçãos que recebemos não são comércio com Deus, como pensavam os fariseus. Eles esperavam que Deus os recompensasse por suas obras e se recusasse a abençoar os pecadores indignos. Diziam, também, que o homem, por seus atos, faz que Deus seja o seu devedor. Esse pensamento, sorrateiramente, tem invadido as igrejas evangélicas, em nossos dias. Temos ouvido que, se fizermos o sacrifício, a corrente, o ritual, ou se participarmos da “fogueira santa”, podemos exigir e Deus tem que nos dá, porque é nosso direito. Deus nunca será nosso devedor. Nós é que lhe devemos tudo. Fomos graciosamente resgatados da miserável servidão do pecado, por preço incalculável (I Pe 1:18-19). Somos para sempre devedores a Deus.

Na parábola dos trabalhadores na vinha, o Mestre mostra como, rapidamente, podemos esquecer que não merecemos sequer o denário prometido. Facilmente esquecemos que éramos perdidos pecadores, que, pela graça, fomos elevados a uma posição de servos, e nos tornamos amigos do Rei (Jo 15:15). Com facilidade, somos tentados a olhar para o que os outros receberam ou têm recebido e a achar que merecíamos também. Pior, ainda, é quando nos imaginamos melhores, superiores, mais santos que os outros, e passamos a menosprezar e a julgar as pessoas, esquecendo que tudo o que temos e somos é pela misericórdia de Deus. Todavia, o Senhor nos ensina que nenhum cristão é desprovido do amor de Deus. Jamais conseguiríamos pagar-lhe todo o bem que ele nos concede. Por isso, ao invés de murmurar, devemos celebrar sua maravilhosa graça.

Que Deus nos ajude e abençoe!


Fonte: Autor Pr Alan Rocha - Estudo divulgado no PC@maral

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todos os comentários serão moderados. Me reservo ao direito de não publicá-los caso o conteúdo esteja fora do contexto, ou do assunto, ou seja ofensivo ao autor do texto.