terça-feira, 13 de abril de 2010

Aprendendo a esperar.

Por Valdeci Nunes


Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. (Mc 4:26-27)

Uma das principais preocupações de Cristo, ao transmitir suas mensagens, era fazer-se entendido. Para que isso acontecesse, ele costumava lançar mão de técnicas e recursos que facilitavam o entendimento de seus ouvintes. Em sua comunicação com o público, além de usar uma linguagem simples e convencional, não poucas vezes, empregava ilustrações, envolvendo os lírios do campo e as aves do céu. No texto de Marcos 4:26-29, o exemplo usado por ele foi o do semeador e o da semente. Vamos acompanhar o processo de desenvolvimento da semente, desde o momento em que é semeada, até o aparecimento dos frutos, destacando-se, neste particular, o comportamento do semeador, sua paciência e sua capacidade de esperar, até que tudo aconteça conforme o esperado.

A parábola foi uma técnica pedagógica freqüentemente usada por Jesus Cristo em seus ensinos. Os evangelhos registram mais de cinqüenta exemplos nos quais Jesus a utilizou. Ao usá-la, ele tinha como objetivo simplificar o conteúdo de suas mensagens, de modo que pudesse ser entendido por todas as pessoas, independentemente do grau de instrução que tivessem. Ele costumava ilustrar seus ensinamentos com experiências tiradas da vida e das atividades cotidianas das pessoas; daí o sucesso de seu trabalho. No texto em pauta, Jesus aparece proferindo a parábola da semente. Ele diz: “O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente à terra”. O exemplo é extraído da vida do campo, de onde, provavelmente, procedia boa parte das pessoas a quem ele se dirigia, ao ministrar tais ensinamentos. Sendo Jesus a própria sabedoria de Deus em pessoa (I Co 1:24), soube, no entanto, comunicar essa sabedoria aos homens, usando linguagem e conceitos que podiam ser perfeitamente entendidos por eles. Inspirado no mesmo exemplo de Cristo, Paulo diria, mais tarde: “E eu, irmãos, quando foi ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria (...). A minha palavra, e a minha pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de espírito e de poder”. (I Co 2:1,4). Nisso residiu o segredo do sucesso da pedagogia de Jesus Cristo.

Ao contrário do homem da cidade, cujo sustento depende do salário, o homem do campo depende das condições do tempo e da providência divina. Deita na terra a sua semente; ao chegar a noite, deita-se e dorme, na esperança de que Deus proverá as condições de que a semente necessita para nascer, crescer e dar furtos. É um exemplo que precisa ser seguido por todas as pessoas crentes, no exercício de qualquer profissão. É uma prova de confiança em Deus. Para o homem do campo, o importante não é saber “como” as coisas acontecem; e nisto consiste a sua fé e a sua confiança. Para ele, o importante mesmo, não é saber como algumas coisas acontecem, mas a certeza que tem de que vão acontecer, mesmo não estando em condições de explicá-las. Ao semear a semente, ele tem firme a esperança de que esta vai nascer, crescer e dar frutos. E assim acontece. Ele não conhece a ciência e, por isso, não conhece também os caminhos que levam à origem das coisas. Porém, tem fé no resultado do seu trabalho, e espera por ele.

No ensino da semeadura, ministrado por Jesus, por primeiro, a semente é lançada no campo; em seguida, vem o crescimento daquilo que foi semeado; depois disso, vêm os frutos. Depois dos frutos maduros, vem a colheita. Cada uma dessas etapas acontece no seu devido tempo; nem antes, nem depois. Cabe, portanto, ao semeador, esperar e ter paciência. A fé e a confiança do homem do campo serviriam de exemplo para o ensinamento de Cristo, cujo propósito, ao proferir essa parábola, foi incentivar o crente a cultivar a esperança.

A grande verdade da parábola é que o cristão precisa aprender a esperar. Temos demonstrado, com a maioria de nossas atitudes, que somos imediatistas, ou seja, não gostamos de esperar, a não ser que essa espera nos seja, de algum modo, humanamente conveniente. Jesus, porém, nos mostra, por meio dessa parábola, que devemos ser esperançosos. As Escrituras estão cheias de ensinamentos que nos induzem ao dever de esperar. Esperar no Senhor é confiar em suas promessas e crer que, no tempo determinado por ele, se cumprirão em nossas vidas. É confiar a ele nossos cuidados, nossas ansiedades e preocupações. Davi disse de si mesmo: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor” (Sl 40:1). Em outra parte, recomenda o mesmo homem de Deus: “Espera no Senhor, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no Senhor” (Sl 27:14). Essa recomendação de Davi encontra ressonância no que foi dito pelo profeta Isaías: “Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças, subirão com asas de águias; correrão, e não cansarão; caminharão, e não se fatigarão”. (Is 40:31). Sejam quais forem as circunstâncias pelas quais tenhamos de passar, devemos conservar firme a nossa confiança no Senhor, certos de que ele estará sempre vigilante para nos proteger, na saúde ou na doença, quando tudo corre bem ou quando tudo parece difícil e incerto, na bonança ou na adversidade. Em qualquer situação, a paciência ainda é o remédio mais eficiente contra as incertezas da vida. Nenhum mal físico ou espiritual poderá abater o nosso ânimo, se tivermos esperança. Esta esperança precisa estar sempre presente na vida do crente, sobretudo, nas horas mais difíceis.

Atentemos para a recomendação e o exemplo dados pela Escritura: “Sede pois irmãos, pacientes até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba a chuva temporã e serôdia (...). Ouvistes qual foi a paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu; porque o Senhor é muito misericordioso e piedoso” (Tg 5:7,11). Mais uma vez, a figura do lavrador é usada como exemplo de paciência: “Porque em esperança somos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” (Rm 8:24-25). É a Paulo que devemos as expressões de alento e conforto que reproduzimos a seguir:
“Sendo justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência. E a paciência a experiência e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5:1-5)
Nem sempre o que gostaríamos que acontecesse em nosso favor, acontece no tempo e do modo como desejamos. Há um tempo determinado para cada coisa, debaixo do céu. Portanto, se as nossas orações ainda não foram respondidas e os nossos projetos ainda não foram realizados, é porque o tempo certo para isso ainda não chegou. Cumpre-nos o dever de trabalhar e esperar um pouco mais. Quando Deus demora a nos atender, é como se nos pedisse para esperarmos um pouco mais.

1. Quando temos esperança em Deus, seguimos o exemplo do semeador: semeamos e esperamos que Deus dê o crescimento - A lição da semeadura, quando aplicada à evangelização, por exemplo, tem muitas lições a nos ensinar. A primeira delas é a que nos ensina a esperar. Todos nós gostaríamos, de que a boa semente do evangelho, uma vez lançada no coração das pessoas, nascesse, crescesse e desse frutos o mais rapidamente possível. Mas isso nem sempre acontece assim. Em muitos casos, quem semeia, nem sempre é o mesmo que colhe os frutos. Observemos o que Paulo diz: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (I Co 3:6). O importante mesmo é semear, se possível, “cedo e à tarde, porque nunca se sabe qual das semeaduras prosperará ou se todas, igualmente, prosperarão” (Ec 11:6). Em alguns casos, os frutos resultantes daquilo que foi semeado “só aparecerão depois de muitos dias” (Ec 11:1). Por isso, quem semeia deve ser paciente e perseverante. Nunca devemos desistir de semear e esperar.

2. Quando temos esperança em Deus, podemos dormir seguros - Quando um homem tem esperança em Deus, pode repousar seguro (cf. Jô 11:18). No Salmo 127, atribuído a Salomão, está escrito: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Sl 127:2). Foi isso que aconteceu com Pedro, que, a despeito de estar preso e sentenciado à morte, “dormia tranqüilo, enquanto muitos aguardavam a sua execução” (At 12:5-6). É provável que, na situação em que Pedro se encontrava, bem poucos crentes tivessem condições de dormir, assim como Lutero não dormiu, na noite seguinte ao seu comparecimento à Dieta de Worms, [1], em abril de 1521, quando teria de responder, no dia seguinte, a segunda das duas perguntas que lhe foram feitas, como parte do processo de seu julgamento. Pedro, porém, ciente de que, humanamente, nada podia fazer em sua defesa, decidiu confiar inteiramente em Deus. E, fazendo isso, não perdeu sua noite de sono. Deus se encarregou de prover a sua libertação (At 12:6). Enquanto espera a resposta de Deus, durma em paz irmão.

3. Quando temos esperança em Deus, aceitamos o fato de que há um tempo determinado para cada coisa - A Escritura afirma: “Porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. Essa é uma verdade que não pode ser contestada. Entretanto, entre a semeadura e o fruto daquilo que se espera, como resultado do que foi semeado, há um bom caminho a ser percorrido (cf. Mc 4:28-29). Nem sempre se obtém, imediatamente, o resultado do que se semeou. Daí a razão por que o semeador é considerado um homem de fé, confiante e esperançoso, porque, depois de semear, passa a esperar que venha a chuva e fertilize o solo, a semente germine, cresça, floresça e dê frutos, sem se importar em entender como tudo isso vai acontecer. Nesse sentido, o cristão, que tem esperança em Deus, precisa imitar o semeador. Há um tempo determinado para cada coisa debaixo do céu, e quem nem sempre o tempo do homem coincide com o tempo de Deus. As coisas só acontecem no tempo de Deus. O que você está esperando, irmão, vai chegar, mas no tempo certo.

CONCLUSÃO:

O dever do crente em Jesus Cristo, é o de esperar e ter paciência. Lembre-se das palavras do salmista, que dizem: “Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, e cuja esperança está posta no Senhor seu Deus” (Sl 146:5). Que a oração de cada um seja: “Sustenta-me, conforme a tua palavra, para que viva, e não me deixes envergonhado da minha esperança”. Amém!

Que Deus nos abençoe!

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Fonte: Autor Pastor Valdeci Nunes de Oliveira divulgado no PC@maral


[1] A Dieta de Worms (em Alemão: Wormser Reichstag) foi, como qualquer Reichstag (sessão do governo imperial), uma cimeira oficial, governamental e religiosa. Chefiada pelo imperador Carlos V, teve lugar em Worms, na Alemanha, uma pequena cidade no rio Reno, tendo lugar entre 28 de Janeiro e 25 de Maio de 1521. Apesar de outros assuntos terem sido discutidos, a Dieta de Worms é sobretudo conhecida pelas decisões respeitantes a Martinho Lutero e os efeitos subsequentes na Reforma Protestante. Lutero foi convocado para desmentir as suas teses, no entanto ele defendeu-as e pediu a reforma, entre 16 e 18 de Abril de 1521.

Célebres tornaram-se as suas palavras: "Hier stehe ich. Ich kann nicht anders". (Aqui estou. Não posso renunciar). Ele foi obrigado a deixar Worms em 25 ou 26 de Abril. A 25 de Maio, o Édito de Worms declarava Lutero um fora-da-lei o que significava que ninguém o podia ajudar ou abrigar. Para além disso, não podiam possuir os livros e escritos de Lutero. Caso o fizessem eram também considerados fora-da-lei. Contudo, se alguém o assassinasse não seria culpado nem castigado. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dieta_de_Worms

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