sábado, 28 de abril de 2012

A Parábola do Rico e do Mendigo

"Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos." (Lc 16:25)


Por Valdeci Nunes De Oliveira

A parábola do rico e do mendigo, já foi, e continua sendo, objeto de muitos comentários, ao longo do tempo. Os que acreditam na imortalidade já interpretaram essa parábola como se favorecesse a idéia de retribuição imediata para aqueles que morrem. Outros, com base na mesma parábola, admitem a possibilidade de diálogo entre pessoas que já morreram, como se isso fosse possível. A parábola aqui descrita envolve dois personagens, um rico e outro pobre, e a ênfase, no ensinamento de Jesus, através dela, é dada ao contraste entre a riqueza de um e à pobreza do outro, assim como à sorte final de cada um, ao morrer (Cf. Lc 16:19-31). Qual o verdadeiro propósito de Jesus ao proferir esta parábola? Precisamos não perder de vista o fato de que as parábolas têm caráter simbólico. Normalmente, dizem uma coisa para significar outra.

O relato da parábola começa assim: “Ora, havia um homem rico (...). Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro” (Lc 16:19-20). Ao mencionar esses dois personagens, Jesus enfatiza o contraste existente nas condições sociais de ambos, pois são extremamente opostas. Um deles era rico, e o outro, pobre. O rico vestia-se de púrpura e de linho finíssimo e todos os dias regalava-se esplendidamente. A situação do pobre, que era também doente, era oposta à do rico: ele mendigava à porta deste, desejando alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico, enquanto os cães lhe lambiam as chagas (Lc 16:21). Antes de abordar o propósito principal desse ensinamento, julgamos oportuno tecer algumas considerações gerais em torno desses personagens mencionados na parábola. O rico e o pobre são figuras representativas. O rico representa os judeus e o pobre, os gentios. A afirmação de que o rico representa os judeus está fortalecida no tratamento que ele dá a Abraão, chamando-o de pai, por nada menos que três vezes no texto (vv. 24,27,30). O próprio Abraão também o reconhece como filho (v. 25). Como a riqueza e a pobreza nem sempre são formadas por valores materiais, a riqueza do rico pode significar apenas a condição religiosa privilegiada dos judeus, comparada à dos outros povos (Rm 9:4-5), assim como a pobreza do pobre pode significar a condição de distanciamento de Deus, como viviam os gentios, do ponto de vista dos judeus (Ef 2:11-12).

Em razão da diferença de condições entre essas duas pessoas e da ênfase que lhe é dada por Jesus, é de se supor que, na riqueza de um e na pobreza de outro, resida o aspecto mais importante e mais significativo a ser considerado nessa parábola. No texto, não há indicações sobre se o rico foi punido apenas por ter sido rico e se o pobre foi premiado apenas por ter sido pobre. O que o texto efetivamente diz é que, em vida, viveram realidades sociais e financeiras diferentes e que, depois da morte, a situação de cada um deles foi invertida. Cada um teve o seu tempo de glória: o rico, antes da morte; o pobre, depois dela. Nisto ficou manifesta a justiça de Deus. O texto procura enfatizar, principalmente, a vez dos gentios, representados pelo “pobre”, a respeito dos quais está escrito:
“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e derribando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistiam em ordenanças, para criar em si mesmo um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades”. (Ef 2:13-16)

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gl 3:26-29)
Os personagens morrem e, ao morrerem, o pobre é conduzido ao seio de Abraão, enquanto o rico é levado para a sepultura. Achando-se em tormento, o rico, erguendo os olhos, “viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio e, clamando, diz: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nessa chama.” A este pedido, Abraão responde: “Filho, lembra-te de que recebestes os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.” Na declaração feita por Abraão, depreende-se que havia chegado a vez do pobre que, ao contrário da situação antes ostentada pelo rico, vivera na mais absoluta pobreza.

Não podemos deixar de reconhecer, também, um outro ensinamento de Cristo contido nessa parábola: A advertência aos seus ouvintes a viverem a vida presente certos de que, um dia, terão de prestar contas dela. A vida futura vai depender da escolha que o indivíduo fizer, enquanto vive a vida presente; e isto independentemente de ser rico ou pobre, judeu, grego, ou de qualquer outra nacionalidade. A advertência é feita, principalmente, àqueles que levam uma vida de extravagância, acumulando riquezas e bens, sem pensarem nas demais pessoas. A riqueza não é má, desde que seja bem administrada. Portanto, ninguém deixará de ser salvo por ser rico, assim como também ninguém se salvará por ser pobre. A retribuição de Deus independe dessas condições, mas o pobre crente tem de Deus a promessa de um dia ser feliz.

A VERDADE DA PARÁBOLA

Através dessa parábola, Jesus queria mostrar aos judeus que o simples fato de serem descendentes de Abraão não lhes garantia o acesso à bem aventurança eterna. Só por Jesus Cristo esse direito pode ser assegurado. Jesus os chamou à atenção também para o fato de que chegara aos gentios a oportunidade de se converterem e serem salvos pela fé em Jesus Cristo (Ef 3:1-6). Agora, a perspectiva para os judeus que rejeitaram a Cristo era a expressa no evangelho:
“Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: Ali haverá pranto e ranger de dentes.” (Lc 8:11-12)
Quando isso acontecer, no dizer de Cristo, “derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros” (Lc 13:29).

Como já foi dito anteriormente, os judeus desfrutavam de uma posição altamente privilegiada no cenário religioso mundial, começando por serem depositários dos oráculos divinos. Paulo, que também era judeu, afirma:
“deles é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto e as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém.” (Rm 9:4-5)
Em outra parte, o mesmo Paulo afirma: “Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas.” (Rm 3:1-2). Tudo isso era para eles uma grande riqueza. O próprio Jesus reconheceu o grande privilégio que tinham, ao afirmar que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4:22).

Os judeus formavam um povo diferente de todos os demais povos. Suas leis, seus costumes e suas tradições acabaram por fazer deles um povo diferente. Porém, muitos se prevaleceram dessa condição privilegiada e foram levados a discriminar os outros povos, criando, contra eles, um grande preconceito. Nos dias de Cristo, por exemplo, reinava, entre os judeus, um forte sentimento nacionalista. O fato de serem, biologicamente, descendentes de Abraão, era entendido por eles como uma espécie de reserva de domínio sobre as bênçãos de Deus. Assim pensando, consideravam todos os outros povos como “separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2:12).

Mas Deus planejava pôr fim a esse tipo de separação. De acordo com o concerto que fez com Abraão, era propósito seu abençoar todas as famílias da terra:
“E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn 12:2-3)
Cumprindo-se o tempo determinado por Deus, essa antiga promessa feita a Abraão deveria cumprir-se em toda a sua plenitude. Portanto, ao enviar seu Filho ao mundo, Deus fez dele o instrumento de conciliação, capaz de unir todos os homens entre si, fazendo deles um só povo (Ef 2:13-18).

1. Precisamos fazer distinção entre o literal e o alegórico - Com base no diálogo aqui descrito entre o rico e Abraão, muitas pessoas, esquecendo-se de que as parábolas têm sentido figurado, acreditam na possibilidade de comunicação entre os mortos, e entre os mortos e os vivos. A propósito disto, o que as Escrituras dizem é o seguinte: “... os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ec 9:5-6). Se tanto o rico quanto o próprio Abraão já tinham morrido, quando a parábola foi proferida, como seria possível conversarem entre si, considerando-se que os mortos não falam? Às pessoas que pensam assim, lembramos que, nos poucos casos em que a Escritura menciona pessoas mortas falando, como nos textos de Hb 11:4 e Ap 6:9-10, a linguagem usada é simbólica. Para entendermos certos textos da Escritura é importante que saibamos fazer distinção entre o que é literal e o que é alegórico (Gl 4:22-31). No diálogo contido na parábola, Abraão não desconhece a condição de pai, em relação ao rico, pois o chama de filho. Essa é mais uma prova de que o rico representava os judeus.

2. Precisamos quebrar a barreira da discriminação - Na conversa com a mulher samaritana, junto ao poço de Jacó, Jesus deixou claro que Deus não reconhece as barreiras sociais que separam as pessoas (Jo 4:23-24), e que, em seu plano redentor, incluiu a todos, sem qualquer distinção. É preciso reconhecer isso. Foi essa a revelação dada a Pedro, na visão do lençol, pois, justificando a atitude que demonstrara ao entrar na casa de um gentio, comer com ele e pousar em sua casa, Pedro declarou:
“Vós bem sabeis que não é lícito a um varão judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum e imundo. Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo.” (At 10:28,34-35).
A conversão de Cornélio e a conseqüente inserção do evangelho no mundo gentio, pôs fim ao período de graça para os judeus como povo privilegiado. Agora era a vez dos gentios.

3. Precisamos acatar o propósito divino, mesmo que ele nos contrarie - Deve ter sido muito difícil para os judeus dos dias de Cristo aceitarem a idéia de que, um dia, os gentios, como eles, desfrutariam os mesmos benefícios espirituais que, antes, eram exclusivamente seus. Mas foi essa a missão de Cristo, ao vir a este mundo. Aqui, ele cumpriu o propósito divino e a bênção de Abraão já pode ser estendida a todas as famílias da terra (Gl 3:8; Ef 2:13). Era de se esperar que a forma como Deus executou essa sua decisão causasse nos judeus um grande impacto, uma vez que estavam arraigados em seu preconceito. Daí a razão pela qual Jesus usou as parábolas (Lc 20:9 18) e até visões (At 10:1-14), para convencê-los dessa nova realidade. A parábola do rico e Lázaro, com certeza, contribuiu muito para que refletíssemos seriamente sobre essa questão. A lição que tiramos deste ensinamento é a seguinte: Precisamos acatar o propósito de Deus em nossas vidas, mesmo que a maneira como o executa nos contrarie.

CONCLUSÃO:

Cumpre-nos reafirmar a idéia de que a parábola do rico e do pobre teve como objetivo, em primeiro lugar, combater a discriminação com que muitos judeus tratavam os não judeus. Foi como se João Batista repetisse, através de Jesus, o que dissera no início de seu ministério:
“Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mt 3:8-9)
Embora, na parábola do rico e do pobre, o resultado final tenha sido favorável ao pobre, isso não significa, de modo algum, que a riqueza, em si mesma, seja condenada perante Deus. As Escrituras Sagradas não condenam a riqueza. O que ela ensina é o seguinte:
“Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; que façam bem, enriqueçam em boas obras, e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna.” (II Tm 6:17 19)


Que Deus nos abençoe!


DEC
PCamaral


Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto! É verdade que existe muitas formas erradas de interpretação de textos bíblicos, principalmente no que se diz respeito às parábolas. Na grande maioria das vezes, os alvos das parábolas são os Judeus, como a parábola do filho pródigo, em que o personagem principal da parábola é o filho mais velho, que representa o povo judeu; assim como na parábola das 10 virgens, que também ilustram o povo de Israel. Quanto a esta parábola do texto, há quem julgue ser um relato de fato ocorrido, e não uma parábola, pelo fato de Jesus não mencionar ser uma parábola, como era costume fazê-lo, e também por ter citado o nome de Lázaro (unica vez que um nome próprio é mencionado em uma parábola).
    Outra coisa que gostaria de comentar, é que já vi pessoas questionarem o fato de parecer haver contradição na palavra, quando comparam o verso 25 do salmo 37 "Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua semente a mendigar o pão", com o mendigo desta parábola. Afinal ele mendigava e foi considerado justo pois alcançou o céu.
    Para terminar, quero dizer que gostei muito do texto, e deixar o meu abraço.

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