quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um Elogio a Prudência!

Alan Rocha


Louvou aquele senhor o injusto administrador por haver procedido prudentemente. Pois os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. (Lc 16:8)

A parábola do mordomo infiel (Lc 16:1-13) é bem diferente das que Jesus costumava contar, a ponto de causar estranheza aos que procuram interpretá-la. O Mestre conta a história de um homem desonesto, para ensinar uma lição. Mas cabe, aqui, um questionamento: Podemos aprender alguma coisa com um homem totalmente desonesto? Jesus nos mostrará que sim. Veremos que, neste mundo, ninguém é tão perverso que não tenha nada a ensinar e que ninguém é tão perfeito que não tenha nada a aprender. Examinando esta parábola, entendemos que Jesus desejava ensinar a importância da prudência, fazendo a constatação de que, muitas vezes, os filhos deste mundo são mais prudentes com as suas coisas, do que os filhos de luz são em relação às coisas espirituais. Aprendemos, ainda, que devemos ter cuidado quanto ao uso de nosso dinheiro e dos bens materiais, pois devemos usá-los com honestidade, fidelidade e prudência.

É possível que a parábola do mordomo infiel não seja apenas uma história imaginária, mas um fato ocorrido nos dias de Jesus e conhecido das pessoas a quem ele estava falando. Se assim é, Jesus simplesmente tomou um assunto corrente da conversação deles e usou-o para dar-lhes um importante ensinamento, [Comentário Bíblico Broadman (1987:156)]. O Mestre se dirigiu aos discípulos; entretanto, os fariseus, a quem as parábolas do capítulo anterior haviam sido destinadas, continuavam presentes e seriam também atingidos pela parábola que ele passava a contar. A leitura do contexto dá-nos algumas pistas de qual era o propósito de Jesus ao contar esta história. O dinheiro é o elemento presente em todas as parábolas dos capítulos 15 e 16 de Lucas. Observe estes títulos: A dracma perdida, O filho esbanjador e O rico e Lázaro. No meio destas, está a parábola do mordomo infiel, através da qual Jesus desejava ensinar a seus discípulos sobre a importância da prudência, a atitude correta para com a riqueza e o seu uso acertado.

O Mestre contava que um homem rico contratou um oikonomon, que significa administrador ou mordomo, de total confiança, para cuidar de seus negócios. No entanto, logo que ouviu boatos de que este desperdiçava seus bens, chamou-o e exigiu uma explicação. Ao ficar claro que o administrador não tinha como se justificar, o proprietário despediu-o, solicitando antes, que trouxesse os livros da contabilidade e que prestasse conta. Diante das terríveis perspectivas do desemprego, o mordomo infiel previu uma verdadeira crise, em um futuro imediato. Assim, muito preocupado, pensou consigo mesmo: Meu Senhor está me despedindo. Que farei agora? Para trabalhar não tenho força, e tenho vergonha de mendigar (Lc 16:3). Então, pensativo, enquanto ainda preparava os livros para entregar ao patrão, teve uma idéia súbita: Eu sei o que farei! Decidiu manipular os negócios de maneira que os devedores de seu senhor ficassem lhe devendo favores, para que, após a sua demissão, o recebessem, em suas casas, e o ajudassem. Chamou um a um dos devedores, que, possivelmente, eram arrendatários das terras de seu patrão. A parábola apresenta apenas dois exemplos; todavia, é certo que negociou com todos os demais devedores. Ao chegar o primeiro homem, ele lhe perguntou: Quanto deves ao meu senhor? Observe que a expressão meu senhor indica que ele fala como se não estivesse perdido o seu emprego, dando a entender que estava fazendo aquilo a mando do patrão. A resposta é a seguinte: Cem batos de azeite. Era um grande débito, cerca de três mil e trezentos litros [Morris (1987:223)]. Então, o administrador diminuiu a dívida pela metade. Agiu de forma semelhante, com um segundo devedor que tinha uma dívida de Cem coros de trigo, isto é, próximo a quarenta mil litros deste produto [Morris (1987:223)]. O administrador reduziu, também, as obrigações deste, com um desconto de 20%. Assim, com os livros agora “em ordem”, entregou-os ao proprietário. Quando o proprietário entendeu o que havia ocorrido, ficou sem poder agir, pois todos estavam elogiando tanto o administrador quanto o proprietário por aquele ato de tamanha generosidade. Se ele contasse a verdade e voltasse a cobrar os valores originais, sua reputação iria à zero. Então, não tendo o que fazer, decidiu tirar proveito daquela situação de grande prestígio. É possível que ele tenha dito: Que esperteza deste vigarista! De fato, o texto informa-nos que o ex-patrão elogiou o mordomo infiel, não por sua trapaça ou por ser tão desonesto, mas por sua esperteza, sua sagacidade e prudência; em outras palavras, por preparar “sua cama” e encontrar um meio pelo qual suas necessidades materiais fossem supridas por longo tempo; talvez, pelo restante de sua vida.

Ao terminar de contar a parábola, Jesus não apenas concordou com o elogio que homem rico faz àquele administrador desonesto, mas acrescentou uma aplicação:
Pois os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz. Eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas de injustiça, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. (Lc 16:8b-9)
Essa afirmação de Jesus é, sem dúvida, um dos textos mais difíceis a serem interpretados na Palavra de Deus, e, por isso, é submetido a diversas explicações e interpretações fantasiosas. O problema é, exatamente, usar um homem tão desonesto como exemplo. Como Jesus, que é personificação de tudo que é correto, pode concordar com um elogio a um sujeito de atos tão reprováveis? Para entendermos isso, precisamos conhecer o ensino que há por detrás da narrativa que estamos analisando.

De fato, o principal personagem da parábola do mordomo infiel é um homem de péssimo caráter, sem escrúpulos morais, e completamente dedicado ao seu próprio bem-estar. Logo, não devemos pensar que Jesus o estava considerando como um homem que deva ser imitado ou admirado, mas devemos entender que se trata de uma parábola, no seu sentido mais restrito. Há uma lição que podemos aprender com um velhaco como esse. Portanto, a nossa tarefa é descobrir o ponto específico que Jesus queria ensinar com essa história. O que Jesus está fazendo é usar exemplo de astúcia do mundo para ensinar uma lição de prudência espiritual. O Senhor Jesus não está elogiando aquele mordomo infiel por sua falta de honestidade, mas apenas por sua prudência, pelo fato de ele olhar para frente e fazer provisão para as suas necessidades materiais no futuro. Jesus não está dizendo que devemos ter a mente mundana ou ser desonestos. Entretanto, está dizendo uma verdade obvia de que, muitas vezes, os mundanos têm mais zelo, sagacidade e prudência com coisas do mundo do que os filhos de Deus, com as coisas relacionadas ao reino de Deus e à vida eterna. De acordo com o dicionário, a pessoa prudente é aquela que age com moderação e busca evitar tudo o que acredita ser fonte de erro ou dano; é uma pessoa cautelosa, sensata, que age de forma preventiva. O nosso Senhor deseja que sejamos assim, porque, conforme a sua Palavra, quando agimos com prudência: agimos com cautela (Pv 14:15); temos discernimento espiritual (Os 14.9); conseguimos prever o problema (PV 22:3); construímos nossa casa sobre a rocha (Mt 7:24); temos as nossas lâmpadas sempre preparadas (Mt 24:4) e estamos sempre em alerta para a volta de Jesus (Mt 24:42-44).

Vamos, então, para Lucas 16.9: A expressão as riquezas [mamom] da injustiça, à luz do contexto da passagem em análise, deve ser entendida como as riquezas deste mundo passageiro, possessões materiais, riquezas falsas e ilusórias. A riqueza é amoral, ou seja, não é boa nem má em si mesma; mas pode tornar-se moral ou imoral, dependendo do valor que lhe é dado e do uso que lhe é empregado. Aqui, Jesus está ensinando o bom uso do dinheiro e dos bens materiais. Ele quer que seus discípulos aprendam a usar os seus recursos materiais para ajudar as pessoas que ele veio libertar. Usar o dinheiro para “fazer amigos”, como diz o texto, não significa comprá-los, como fez o administrador desonesto, mas usar os bens materiais nesta vida de tal maneira, honrada e fiel, que conquistemos amigos e não inimigos. Devemos estar cientes de que o dinheiro é limitado e temporário; todavia, quando o usamos para um bem maior, como fazer amigos, por exemplo, damos-lhe um significado perene e transcendente a esta vida. Quando lemos a expressão tabernáculos eternos, devemos ter em mente que a vida dos filhos da luz não se limita a este mundo, pois aguardam a vinda de Cristo e crêem na ressurreição. Portanto, eles devem viver, neste mundo, com prudência, lembrando sempre das palavras do Senhor Jesus: Não ajunteis tesouro na terra (...) Mas ajuntais tesouros nos céus (Mt 6:19- 20). “As riquezas, a influência, a posição, o conforto ou as oportunidades deve ser usadas aqui na terra de maneira que nunca sejam esquecidas na eternidade” [Lockyer (2001:336)]. Na realidade, há muitos cristãos que andam desatentos pela vida, como se Cristo nunca fosse voltar, vivem como as virgens imprudentes, que não prepararam suas lâmpadas para a chegada do noivo (Mt 25:1-13). Em Lucas 16:10-13, Jesus faz algumas considerações sobre esta história que acabara de contar. Ele deixa claro que não aprova, nem sequer justifica a desonestidade e a infidelidade; mostra que o caráter do mordomo de Deus deve ser totalmente diferenciado do mordomo infiel. Sobre isso, o Mestre afirma: Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito (Lc 16:10). Ele mesmo explica que, se não somos capazes de usar as riquezas deste mundo com prudência, fidelidade e honestidade, não conseguiremos lidar com as verdadeiras riquezas, que são as celestiais. Jesus conclui mostrando que é necessário fazer uma escolha quanto às prioridades de nossa vida: ou devotamos nosso coração a Deus ou a Mamom (riquezas), pois, nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lc 16:13).

1. O cristão prudente observa a prudência dos filhos deste mundo - A parábola do mordomo infiel convida-nos a observamos o quanto os filhos deste mundo são prudentes, dedicados e zelosos com as suas coisas, embora sejam fúteis e passageiras; também nos desafia a agirmos de forma melhor, no que diz respeito a nossa vivência cristã. Observe, por exemplo, o atleta que se dedica ao máximo, apenas para ganhar um prêmio corruptível (I Co 9:24-25), ou um soldado que é capaz de sacrificar sua própria vida por sua pátria (II Tm 2:4); ou os foliões das escolas de samba, que se dedicam totalmente e se preparam o ano inteiro para carnaval. Não deveríamos nós, que somos servos de Deus, agir com mais dedicação e entrega com as coisas do reino? Sejamos, então, fervorosos no espírito servindo ao Senhor (Rm 12:11).

2. O cristão prudente prepara-se para o futuro - Na parábola, o homem rico elogiou o mordomo infiel por sua astúcia em preparar-se para o futuro. Este mordomo, com base em seus valores, necessidades e condições, agiu com sagacidade. A pessoa sagaz é alguém cujas ações presentes visam ao futuro. É evidente que aquele homem tinha um conceito de futuro bastante limitado e, por isso, agiu como o rico insensato (Lc 12:13-21), preparando-se apenas para esta vida. Não devemos usar as mesmas armas ou métodos; entretanto, baseados nos princípios e valores da palavra de Deus, devemos, também, planejar o futuro. O apóstolo Paulo afirma que os filhos de Deus devem ser prudentes em toda maneira de viver (Ef 5:15). O Pai celestial quer que seus filhos apliquem a prudência em todos os aspectos de suas vidas e, muito mais, no que diz respeito ao reino de Deus e à vida eterna.

3. O cristão prudente usa seus bens materiais para a glória de Deus - O Senhor Jesus encerra as aplicações sobre a parábola com a seguinte afirmação: Não podeis servir a Deus e as riquezas. É necessária uma escolha. Logo, se escolhemos servir a Deus, devemos usar tudo que temos nesta vida para a glória dele, inclusive, os bens materiais; em primeiro lugar, porque tudo o que temos pertence a Deus e é um presente que ele nos concede para administrarmos (Ec 5:19); em segundo lugar, porque as riquezas são passageiras, e, por isso, não podem dar-nos segurança e garantir-nos a eternidade (Mt 16.26b). Portanto, o cristão deve usar suas riquezas e seus bens com sabedoria, prudência e fidelidade ao Senhor.

CONCLUSÃO:

Aprendemos que Jesus, ao contar a parábola do mordomo infiel, não estava enaltecendo a personagem por sua falta de honradez, mas, simplesmente, pela sua prudência, por ter olhado para o futuro e se planejado. O Senhor Jesus deseja que vivamos, neste mundo, com prudência e sabedoria, que nos preparemos para o futuro, com base nos princípios bíblicos. Aprendemos, também, que as riquezas deste mundo são falsas; por isso, o cristão prudente é aquele que usa seu dinheiro e bens materiais para glória de Deus, pois, o uso honesto, fiel e prudente desses bens nos capacitará a lidarmos com as riquezas espirituais.

***

Fonte: Autor: Pr. Alan K. Pereira Rocha - divulgado no PC@maral

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todos os comentários serão moderados. Me reservo ao direito de não publicá-los caso o conteúdo esteja fora do contexto, ou do assunto, ou seja ofensivo ao autor do texto.