sábado, 2 de abril de 2011

Uma sociedade insensível

Choramos pela viagem de lazer que não deu certo ou pela lataria arranhada do carro, mas não nos comovemos com as mortes pela TV
Por Romi Campos Schneider de Aquino

Nos últimos tempos, assistimos com muita frequência notícias sobre enchentes, desmoronamentos e terremotos. Mais recentemente, vimos um dos países mais ricos e desenvolvidos do planeta, o Japão, sucumbir diante de três catástrofes concomitantes: terremoto, tsunami e desastre nuclear. Diante disso, sentimo-nos aliviados por morarmos em regiões onde tais riscos não são aparentes.

As estatísticas de mortes nas estradas ao final de cada feriado são alarmantes, porém, ficamos felizes porque voltamos para casa sãos e salvos. Evitamos notícias sobre a violência, para não aumentar o nosso medo e a insegurança.

Com o tempo, esses acontecimentos, de tão frequentes, tornam-se banais, sendo apenas “mais” uma enchente, “mais” uma morte violenta, “mais” um acidente grave. Muitas vezes, a solução para esses dramas parece estar ao alcance de nossa mão, ao desligarmos o botão da TV ou mudarmos de canal.

É certo que nos alimentarmos de tragédias e violência não faz bem, mas tentar fugir faz? Será que uma vez que tais situações somem de nossos olhos, somem também de nossas vidas? Com atitudes assim, sem darmos conta, vamos nos tornando, aos poucos, cada vez menos sensíveis ao sofrimento alheio.

Recentemente, perdi um amigo de forma trágica. Ele não era apenas um nome, um rosto no noticiário. Era um belo e talentoso rapaz que eu vi crescer e com quem compartilhei muitos momentos de minha jornada pessoal e cristã. Dói muito quando passamos por uma situação assim. No entanto, quando não conhecemos as vítimas, elas apenas fazem parte das estatísticas.

Choramos pela viagem de lazer que não deu certo, pela lataria arranhada do carro, pela frustrada aquisição de um bem, enquanto muitos choram porque perderam vidas numa enchente, numa boca de fumo, numa curva de estrada, num hospital mal equipado. Perda de tudo: bens, vida e esperança.

Sei que parece impossível colocar-se no lugar do próximo, compreender seus sentimentos e enxergar suas necessidades. E, ainda que fosse possível, surge a pergunta: “de que adiantaria, o que eu poderia fazer?” Não quero imaginar qual seria o fim do homem ferido no caminho se o samaritano tivesse feito para si esta pergunta e continuado indiferente pelo seu caminho (Lc 10:30-37).

Quando agimos com frieza, fugimos ou somos indiferentes ao sofrimento alheio, estamos abrindo caminho para o distanciamento e a banalização dos vínculos emocionais com o próximo. Então, deixamos de ajudar uma pessoa que está passando por um problema material ou por uma dor emocional, porque entendemos que a responsabilidade de ajudar não é nossa. Da mesma maneira, não nos envolvemos com problemas espirituais que as pessoas enfrentam, porque “já temos tantos problemas, afinal”.

Ainda que não compreendamos como o “chorar com os que choram” (Rm 12:15) possa diminuir o sofrimento de alguém, isso pode despertar a nossa sensibilidade, levando-nos a sentir a dor outro como nossa também e a perceber que sempre há algo que podemos fazer.

Certamente, há alguém em nossa comunidade, em nossa igreja, em nossa família precisando de ajuda material, de apoio emocional, de conforto ou de carinho. Quando nos tornamos emocionalmente sensíveis para com os que estão longe, começamos a entender que somos também responsáveis pelas necessidades dos que estão perto.

Romi Campos Schneider de Aquino, é psicóloga, e diaconisa em Curitiba (PR). Compartilhado no PC@maral

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