quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Teologia é do Capeta (!?!)

Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Mas evita os falatórios profanos, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses roerá como gangrena; entre os quais são Himeneu e Fileto; Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns. Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade”. (II Timóteo 2:15-19) - ACF

Artigo publicado originalmente em Hermeneutica Particular

Por Vinicius O. S. Guimarães

O título deste artigo é propositalmente polêmico a fim de atrair para uma inquietante conversa dois grupos incomunicáveis que coexistem na Lavoura de Deus. De um lado, os que entendem que o estudo teológico prejudica a fé das pessoas e as tornam mais frias na igreja, para estes “teologia é do Capeta”; do outro lado do ringue estão os teólogos, que defendem ter na teologia a cura para o câncer eclesiástico que corrói as doutrinas bíblicas, para estes “teologia é de Deus”. Esta tentativa de dialética que se desdobrará nas linhas que se seguirão pode ser útil para entender as razões e os porquês de a teologia ser objeto de ódio para alguns e de esperança para outros. O simplista fato de rotular “do Capeta” ou “de Deus” não é suficiente para saciar a dúvida dos muitos evangélicos que povoam as igrejas tupiniquins. É preciso ir além, é necessário por um lado, sair da superficialidade determinista e do legalismo autocrático; e é necessário por outro lado sair do tecnicismo teórico e do superego do saber.

Teologia é do Capeta! Esta exclamação é pertinente quando se senta ao lado de pastores que tiveram suas igrejas dilaceradas por grupos de teólogos (e/ou seminaristas) que, no ímpeto de propagar as novas descobertas acerca do Evangelho em suas comunidades locais, se esqueceram de que enfiar guéla abaixo alimento sólido em quem só comia papinha é provocar reações tipo: rejeição, indigestão, quando não engasga e sufoca. Estes teólogos da indigestão se esquecem de que há tempo para tudo nesta terra (cf. Ec. 3), tempo inclusive para desconstruir heresias e tempo para construir o alicerce para o entendimento da verdade. É, portanto, passivo de compreensão quando se escuta pastores afirmarem serem contra o estudo teológico, pois uma teologia que não é capaz de produzir edificação aos cristãos e nem responder aos anseios sociais dos que os rodeiam não poderia ser chamada de teologia.

Teologia é do Capeta! É mais real para alguns líderes eclesiásticos acreditarem nesta proposição do que admitirem ser a teologia algo de Deus, pois alguns estudiosos da Bíblia se esquecem de que mais importante que saber o que é certo, é fazer o que é certo. Tristemente, há aqueles que são amantes do discurso, são estes os que têm solução para todos os problemas da igreja na pós-modernidade, mas nunca fazem nada em suas igrejas locais; são estes os que se sentam em suas cátedras teológicas e dali desmerece o esforço dos missionários/evangelistas que foram para as periferias, mas jamais ousaram sujar seus sapatos anunciando o evangelho aos pobres; são estes os que apontam o dedo, mas encolhem a mão. Por isto, não é mais tão estranho quando se ouve alguns grupos cristãos se posicionarem contra os teólogos afirmando serem estes os precursores da Besta, pois afinal de contas, as pessoas escutam mais o que fazemos do que o que falamos.

Teologia é do Capeta! Enfim, há alguns que preferem acreditar em tal alínea não por causa dos maus exemplos de alguns teólogos ou seminaristas, mas sim porque historicamente um povo sem instrução é mais fácil de ser manipulado. Para alguns mercenários da fé o fato de proibir os membros de estudar teologia é a maneira ideal de fazê-los não conhecerem a Verdade e viverem assim dependentes das pregações dominicais e da (des)orientação pastoral. Neste ambiente alienado uma afirmação do tipo, “teologia é do Capeta”, proferido pelo ditador eclesiástico é absorvida de forma plena, irrevogável e irracional pelas massas evangelicais. Para estes donos de igrejas a demonização dos cursos de teologia é a fuga perfeita para evitar pessoas críticas que não tolerarão a barganha espiritual e nem cederão ao canto da sereia dos que usam a igreja como meio de corrupção sacerdotal. A assombrosa realidade é que algumas igrejas se tornaram o ponto de encontro de pessoas que rejeitam suas faculdades intelectuais por erroneamente julgarem isto contrário ao pressuposto da fé, estes se tornam presas vulneráveis aos abutres da fé que se deliciam com o cheiro fétido da carniça eclesiástica.

Teologia é do Capeta? É no mínimo antagônico e completamente contrário admitir que o estudo teológico seja obra do Diabo, pois em linhas gerais a teologia é a ciência que se ocupa do estudo acerca de Deus e da sua relação com a criatura (i.e. homem). Como, então, poderia ser isto fruto do Maligno? O estudante da bíblia é por essência alguém com profunda sede de Deus e com demasiado interesse de melhor servi-lO na fraternidade da Igreja; estes são pessoas que escolheram atender o chamado de Deus e sendo assim intencionalmente optaram em se oporem ao mundo e seus prazeres a fim de honrar o Criador com suas vidas de forma racional e espiritual; estes são aqueles que sentiram tamanho constrangimento frente à obra salvífica de Cristo no Gólgota que não lhes restou outra resposta a não ser ofertar suas próprias vidas a fim de conhecer (leia-se interagir, imergir) mais dEle com o propósito único de agradá-lO, honrá-lO e reverenciá-lO.

Teologia é do Capeta? Como poderia ser, se a figura do teólogo é algo análogo à figura do apologista (defensor da fé) tão fortemente destacado no contexto do Novo Testamento. Ser teólogo é engrossar a fileira dos que lutam pela fé evangélica (Fp. 1:27) e fazem de seus discursos uma afronta aos que querem usar do Evangelho como fonte de enriquecimento em detrimento da boa fé dos fiéis; ser teólogo é ter a coragem de criticar os movimentos megalomaníacos que engorduram as estratégias de liderança para o crescimento de igrejas sem levar em consideração a genuína conversão como fator primordial para o ingresso destes na comunidade batismal. Ser teólogo é ousar não se calar frente às injustiças sociais provocadas pela sociedade capitalista, bem como pelas igrejas capitalistas, que insistem em usar do Evangelho como fonte de discriminação, racismo, preconceitos e demonização das classes sociais menos favorecidas.

Teologia é do Capeta? Definitivamente não é! Contudo, alguns por falta de conhecimento de causa são tendenciosamente levados a acreditar nesta mentira do Capeta. Alguns preferem endiabrar os teólogos, pois na verdade querem rejeitar o estudo (i.e. pensar), pois acreditam em uma fé subjetiva, mística e empírica, assim, encontram uma irracional religiosidade que configura no caminho perfeito para fugir da responsabilidade, da consciência e do raciocínio. O desafio do cristão é estar “...sempre preparado para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós...” – I Pe. 3:15. O texto é sumariamente importante, pois enfatiza a necessidade de se estar preparado, de ser capaz de responder com temor aos que questionam sobre a fé, e de estar apto a argumentar acerca da razão da esperança que fundamenta a crença. Postulados estes que só serão adquiridos por meio de uma metodologia intencional de estudo, mediante a dedicação acadêmica e de esmero na interpretação bíblica. É exatamente para isto que existem os seminários teológicos, ou seja, para formar cristãos que sejam teólogos, preparando-os para os desafios do presente século.

A igreja brasileira precisa urgentemente voltar a estudar a Palavra de Deus antes que seja tarde demais e cheguem dias em que os tupiniquins serão destruídos pela ira de Deus e os nossos sacerdotes serão rejeitados pelo Dono das Ovelhas (Ez. 34). Algo muito semelhante com o que houve no contexto de Oséias: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” – Os. 4:6. Então, o assustador/temor não é admitir, erroneamente, que teologia é do Capeta, mas sim que teologia é de Deus, pois sendo assim reportaremos nossa consciência, nossos discursos e nossas vidas a Ele, e “horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” – Hb 10:31. Por isto, para ser teólogo é necessário mais que aptidão acadêmica, é imprescindível ter reverência; é necessário mais que boa oratória, é imperativo vivenciar a Palavra; é necessário mais que a crítica, é mister se autocriticar; é necessário mais que discussões sobre Deus, é preciso conhecê-lO.

Então, “teologizai-vos”.

Que Deus nos ajude!

* Vinicius O. S. Guimarães é professor das áreas de teologia e administração, diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br), presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br) e pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br)

Fonte: Hermeneutica Particular compartilhado no PCamaral que é formado Bacharel em teologia e é de Jesus Cristo!

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