quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Para Quem Pensa Estar em Pé (II)

Um comentário:
Por Augustus Nicodemus Lopes

Aqui vai o novo post desta série "Para quem pensa estar em pé". O primeiro abordou vários princípios sobre santificação. Aqui trato de outros igualmente importantes.

Embora eu tenha sido criado num lar presbiteriano e numa igreja presbiteriana onde as doutrinas características do presbiterianismo reformado eram pregadas com certa regularidade, revoltei-me contra essas doutrinas quando retornei ao Evangelho em 1977, depois de vários anos afastado de Deus e da Igreja. Influenciado pela leitura das obras de Charles Finney e João Wesley, combati a ferro e fogo, com zelo de novo convertido, não somente os cinco, mas todos os pontos do calvinismo.

Foi um batista reformado, Charles Spurgeon, com sua exposição bíblica da doutrina da eleição, quem abriu meus olhos para que eu passasse a aceitar com regozijo a fé reformada. Faminto, passei a devorar a literatura reformada disponível. Mais tarde, fazendo meu mestrado na África do Sul, conheci a obra de Martyn Lloyd-Jones e dela para a literatura puritana, foi um breve salto.
Amo a literatura produzida pelos antigos puritanos. Sólida, bíblica, profunda, muito pastoral e prática. A santidade defendida e pregada pelos puritanos aqueceu meu coração e se tornou o ideal que eu decidi perseguir até hoje. Um breve resumo do pensamento puritano sobre a santidade está na Confissão de Fé de Westminster, no capítulo SANTIFICAÇÃO:
I. Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus.

II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.

III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam, contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.
Era esse conceito de santificação que eu gostaria de ver difundido como sendo o conceito reformado. Contudo, recentes influências dentro do campo reformado, algumas delas chamadas de “neopuritanismo”, têm criado alguma confusão sobre o assunto.

Conforme escrevi num post anterior, o termo “neopuritanos” tem sido usado para designar os adeptos de um movimento recente no Brasil que inicialmente visava apenas resgatar a literatura dos puritanos e difundir seus ensinamentos em nosso país. Com o tempo, o movimento passou a usar determinadas doutrinas e práticas como identificadoras dos verdadeiros reformados, tais quais o cântico exclusivo de salmos sem instrumentos musicais no culto, o silêncio total das mulheres no culto, a interpretação de “o perfeito” em 1Coríntios 13.8 como se referindo ao cânon do Novo Testamento (posição contrária à de Calvino), uma aplicação rigorosa e inflexível do princípio regulador do culto e outros distintivos semelhantes. Nem todos os que adotam alguns destes pontos podem ser considerados neopuritanos, para ser justo. Mas, sempre há o grande risco de que se caia na tentação de associar a santidade com esses pontos. Sinto que os seguintes comentários poderiam ajudar a esclarecer o assunto.

1. A santidade deve ser buscada ardorosamente sem, contudo, perder-se de vista que a salvação é pela fé, e não pela santidade – Muitos seguidores modernos dos puritanos tendem à introspecção e a buscar a certeza da salvação dentro de si próprios, analisando as evidências da obra da graça em si para certificar-se que são eleitos. Não estou dizendo que isso está errado. A salvação é pela fé e, no meu entendimento, a certeza dela está ligada ao processo de santificação. Contudo, puritanos de todas as épocas correm o risco de confundir as duas coisas. Se a busca contínua pela santidade não for feita à luz da doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, levará ao desespero, às trevas e à confusão. Quanto mais olhamos para dentro de nós, mais confusos ficaremos. “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas; e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9) Não estou descartando o exame próprio e a análise interior de nossos motivos. Apenas estou insistindo que devemos fazer isso olhando para Cristo crucificado e morto pelos nossos pecados. Somente conscientes da graça de Deus é que podemos prosseguir na santificação, reconhecendo que esse processo é evidência da salvação.

2. A santidade não se expressa sempre da mesma forma; ela tem elementos culturais, temporais e regionais – Sei que não é fácil distinguir entre a forma e a essência da santidade. Para mim, adultério é pecado aqui e na China, independentemente da visão cultural que os chineses tenham da infidelidade conjugal. Contudo, coisas como o uso do véu pelas mulheres me parecem claramente culturais. Quero insistir nesse ponto. A santidade pode se expressar de maneira contemporânea e cultural, não está presa a uma época ou a um local – Sei que muitos modernos puritanos negarão que desejam recuperar o estilo dos antigos puritanos da Inglaterra, Escócia, Holanda e Estados Unidos. Contudo, pontos como a insistência no uso do véu, no silêncio absoluto das mulheres no culto, no cântico de salmos à capela, na extrema seriedade dos cultos e do comportamento, a aversão ao humor, me parecem muito mais traços de uma época já passada do que essenciais teológicos. Especialmente quando a argumentação exegética para defendê-los carece de melhor fundamentação.

3. A santidade pessoal pode existir mesmo em um ambiente não totalmente puro – Eu acredito que chega um momento em que devemos nos separar daqueles que se professam irmãos, mas que vivem na prática da iniqüidade (1Coríntios 5). Não creio que devamos sacrificar a verdade no altar da pretensa unidade da Igreja. Se queremos a santidade, devemos estar prontos para arrancar de nós o olho, a mão e o pé que nos fazem tropeçar. Contudo, creio que há um caminho a ser percorrido antes de empregarmos a separação como meio de preservar a santidade bíblica. Sei que os santos são chamados a se separar de todo mal, inclusive dos pecadores (Salmo 1). Mas a separação bíblica é bem diferente daquela defendida por alguns puritanos modernos, que têm dificuldade de conviver inclusive com outros reformados dos quais discordam em questões que considero absolutamente secundárias. Podemos ser santos dentro de uma denominação ou de uma igreja local que não sejam, de acordo com as marcas da Igreja, uma igreja completamente pura. Sei que não é fácil, mas teoricamente posso ser santo dentro de Sodoma e Gomorra. Posso ser santo na minha denominação, mesmo que ela abrigue gente de pensamento divergente do meu. Não preciso necessariamente me separar como indivíduo para poder ser santo, especialmente se as alternativas de associação forem raras ou inexistentes.

4. A santidade pode ocorrer mesmo onde não haja plena ortodoxia – Sei que esse ponto é difícil para alguns puritanos modernos. Por incrível que pareça, a tolerância e a misericórdia marcaram os puritanos ingleses do século XVII. Foi somente a fase posterior do puritanismo que lhe deu a fama de intolerância. John Owen, o famoso puritano, pregou em 1648 um extenso sermão no Parlamento Britânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Intolerância”, no qual defendeu, mais uma vez, a demonstração do amor cristão e a não-intervenção dos poderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas (Works, VIII, 163-206). O neo-puritanismo tende a ver com desconfiança a genuinidade da experiência cristã de arminianos e pentecostais. Para mim, a graça de Deus é muito maior do que imaginamos e o Senhor tem eleitos onde menos pensamos. Assim, creio que exista santidade genuína além do arraial puritano. Não estou negando a relação entre doutrina correta e santidade. O Cristianismo bíblico enfatiza as duas coisas como necessárias e existe uma relação entre elas. Contudo, por causa da incoerência que nos aflige a todos, é possível vivermos mais santamente do que a lógica das nossas convicções teológicas permitiria. Cito Owen mais uma vez:
A consciência de nossos próprios males, falhas, incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos que estão com a verdade (Works, VIII, 61).
Acredito que a teologia reformada é a que tem melhores condições de oferecer suporte doutrinário para a espiritualidade, a santidade e o andar com Deus. Os reformados brasileiros são responsáveis por mostrar que a teologia reformada é prática, plena de bom senso, brasileira e cheia de misericórdia.
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Fonte: O Tempora, O Mores

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Novo Retrato da Fé no Brasil

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Pesquisas indicam o aumento da migração religiosa entre os brasileiros, o surgimento dos evangélicos não praticantes e o crescimento dos adeptos ao islã

Por Rodrigo Cardoso na ISTOÉIndependente

Acaba de nascer no País uma nova categoria religiosa, a dos evangélicos não praticantes. São os fiéis que creem, mas não pertencem a nenhuma denominação. O surgimento dela já era aguardado, uma vez que os católicos, ainda maioria, perdem espaço a cada ano para o conglomerado formado por protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Sendo assim, é cada vez maior o número de brasileiros que nascem em berço evangélico – e, como muitos católicos, não praticam sua fé. Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram, na semana passada, que evangélicos de origem que não mantêm vínculos com a crença saltaram, em seis anos, de insignificantes 0,7% para 2,9%. Em números absolutos, são quatro milhões de brasileiros a mais nessa condição. Essa é uma das constatações que estatísticos e pesquisadores estão produzindo recentemente, às quais ISTOÉ teve acesso, formando um novo panorama religioso no País.

Isso só é possível porque o universo espiritual está tomado por gente que constrói a sua fé sem seguir a cartilha de uma denominação. Se outrora o padre ou o pastor produziam sentido à vida das pessoas de muitas comunidades, atualmente celebridades, empresários e esportistas, só para citar três exemplos, dividem esse espaço com essas lideranças. Assim, muitas vezes, os fiéis interpretam a sua trajetória e o mundo que os cerca de uma maneira pessoal, sem se valer da orientação religiosa. Esse fenômeno, conhecido como secularização, revelou o enfraquecimento da transmissão das tradições, implicou a proliferação de igrejas e fez nascer a migração religiosa, uma prática presente até mesmo entre os que se dizem sem religião (ateus, agnósticos e os que creem em algo, mas não participam de nenhum grupo religioso). É muito provável, portanto, que os evangélicos pesquisados pelo IBGE que se disseram desvinculados da sua instituição estejam, como muitos brasileiros, experimentando outras crenças.

É cada vez maior a circulação de um fiel por diferentes denominações – ao mesmo tempo que decresce a lealdade a uma única instituição religiosa. Em 2006, um levantamento feito pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) e organizado pela especialista em sociologia da religião Sílvia Fernandes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), verificou que cerca de um quarto dos 2.870 entrevistados já havia trocado de crença. Outro estudo, do ano passado, produzido pela professora Sandra Duarte de Souza, de ciências sociais e religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), para seu trabalho de pós-doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp), revelou que 53% das pessoas (o universo pesquisado foi de 433 evangélicos) já haviam participado de outros grupos religiosos.

ALÁ
Nogueira, muçulmano há um ano: no Rio, os convertidos
saltaram de 15% da comunidade para 85% em 12 anos
“Os indivíduos estão numa fase de experimentação do religioso, seja ele institucionalizado ou não, e, nesse sentido, o desafio das igrejas estabelecidas é maior porque a pessoa pode escolher uma religião hoje e outra amanhã”, afirma Sílvia, da UFRRJ. “Os vínculos são mais frouxos, o que exige das instituições maior oferta de sentido para o fiel aderir a elas e permanecer. É tempo de mobilidade religiosa e pouca permanência.” Transitar por diferentes crenças é algo que já ocorre há algum tempo. A intensificação dessa prática, porém, tem produzido novos retratos. Denominadores comuns do mapa da circulação da fé pregam que católicos se tornam evangélicos ou espíritas, assim como pentecostais e neopentecostais recebem fiéis de religiões afro-brasileiras e do protestantismo histórico. Estudos recentes revelam também que o caminho contrário a essas peregrinações já é uma realidade.

Em sua dissertação de mestrado sobre as motivações de gênero para o trânsito de pentecostais para igrejas metodistas, defendida na Umesp, a psicóloga Patrícia Cristina da Silva Souza Alves verificou, depois de entrevistar 193 protestantes históricos, que 16,5% eram oriundos de igrejas pentecostais. Essa proporção era de 0,6% (27 vezes menor) em 1998, como consta no artigo “Trânsito religioso no Brasil”, produzido pelos pesquisadores Paula Montero e Ronaldo de Almeida, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Patrícia, o momento econômico do Brasil, que registra baixos índices de desemprego e ascensão socioeconômica da população, reduz a necessidade da bênção material, um dos principais chamarizes de uma parcela do pentecostalismo. “Por outro lado, desperta o olhar para valores inerentes ao cristianismo, como a ética e a moral cristã, bastante difundidas entre os protestantes históricos”, afirma.

Em busca desses valores, o serralheiro paraibano Marcos Aurélio Barbosa, 37 anos, passou a frequentar a Igreja Metodista há um ano e meio. Segundo ele, nela o culto é ofertado a Deus e não aos fiéis, como acontecia na pentecostal Assembleia de Deus, a instituição da qual Barbosa foi devoto por 16 anos, sendo sete como presbítero. O serralheiro cumpria à risca os rígidos usos e costumes impostos pela denominação. “Eu não vestia bermuda nem dormia sem camisa, não tinha tevê em casa, não bebia vinho, não ia ao cinema nem à praia porque era pecado”, conta. Com o tempo, o paraibano passou a questionar essas proibições e acabou migrando. “Na Metodista encontrei um Deus que perdoa, não um justiceiro.”
AMÉM
É cada vez mais comum ex-pentecostais, como o atual metodista Barbosa, que foi pastor
da Assembleia de Deus (acima), aderirem às protestantes históricas
A teóloga Lídia Maria de Lima irá defender até o final do ano uma dissertação de mestrado sobre o trânsito de evangélicos para religiões afro-brasileiras. A pesquisadora já entrevistou 60 umbandistas e candomblecistas e verificou que 35% deles eram evangélicos antes de entrar para os cultos afros. Preterir as denominações cristãs por religiões de origem africana é outro tipo de migração até então pouco comum. Não é, porém, uma movimentação tão traumática, uma vez que o currículo religioso dos ex-evangélicos convertidos à umbanda ou ao candomblé revela, quase sempre, passagens por grupos de matriz africana em algum momento de suas vidas. Pai de santo há dois anos, o contador Silvio Garcia, 52 anos, tem a ficha religiosa marcada por cinco denominações distintas – e a umbanda é uma delas. Foi aos 14 anos, frequentando reuniões na casa de uma vizinha, que Garcia, batizado na Igreja Católica, aprendeu as magias da umbanda. Nessa época, também era assíduo frequentador de centros espíritas. Aos 30, ele passou a cursar uma faculdade de teologia cristã e, com o diploma a tiracolo, tornou-se presbítero de uma igreja protestante. Um ano depois, migrou para uma pentecostal, onde pastoreou fiéis por seis anos. “Mas essas igrejas comercializam a figura de Cristo e eu não me sentia feliz com a minha fé”, diz. Conheça em vídeo a história de Silvio Garcia, que era pastor da igreja evangélica e hoje é pai de santo.

A teóloga Lídia sugere que os sistemas simbólicos das religiões evangélica e afro-brasileira têm favorecido a circulação de fiéis da primeira para a segunda. “Há uma singularidade de ritos, como o fenômeno do transe. Um dos entrevistados me disse que muito do que presenciava na Igreja Universal (do Reino de Deus) ele encontrou na umbanda”, diz. Em suas pesquisas, fiéis do sexo feminino foram as que mais cometeram infidelidade religiosa (67%). Os motivos que levam homens e mulheres a migrar de religião (veja os quadros desta migração no final deste artigo) foram investigados pela professora Sandra, da Umesp. Em outubro, suas conclusões serão publicadas em “Filosofia do Gênero em Face da Teologia: Espelho do Passado e do Presente em Perspectiva do Amanhã” (Editora Champanhat).
SALVAÇÃO
Homens pensam em si quando buscam uma nova crença:
Higuti, pastor da Bola de Neve, queria se livrar das droga.
Uma diferença básica entre os sexos é que as mulheres mudam de religião em busca de graça para quem está a sua volta (a cura para filhos e maridos doentes ou a recuperação do casamento, por exemplo). Já os homens são motivados por problemas de fundo individual. Assim ocorreu com o empresário paulista Roberto Higuti, 45 anos, que se tornou evangélico para afastar o consumo e o tráfico de drogas de sua vida. Católico na infância, budista e adepto da Igreja Messiânica e da Seicho-No-Ie na adolescência, Higuti saiu de casa aos 15 anos e se tornou um fiel seguidor do mundo do crime. Sua relação com as drogas foi pontuada por internação em hospital psiquiátrico, prisão e duas tentativas de suicídio. Certo dia, cansado da falta de perspectivas, viu uma marca de cruz na parede, ajoelhou-se e disse: “Jesus, se tu existes mesmo, me tira dessa vida maldita.” Há cinco anos, o empresário é pastor da neopentecostal Igreja Bola de Neve, onde ministra dois cultos por semana. “Quero, agora, ganhar almas para o Senhor”, diz.

Antes de se fixar na Bola de Neve, Higuti experimentou outras quatro denominações evangélicas. Mobilidades intraevangélicas como as dele ocorrem com aproximadamente 40% dos adeptos de igrejas pentecostais e neopentecostais, segundo a especialista em sociologia da religião Sílvia, da UFRRJ. Os neopentecostais, porém, possuem uma particularidade. Seus fiéis trocam de igreja como quem descarta uma roupa velha: porque ela não serve mais. São a homogeneização da oferta religiosa e a maior visibilidade de algumas denominações que produzem esse efeito. “Esse grupo, antigamente, era o tal receptor universal de fiéis, para onde iam todas as religiões. Hoje, a singularidade dele é o fato de receber membros de outras neopentecostais”, diz Sandra, da Umesp. “Quanto mais acirrada a concorrência, maior a migração.” A exposição na mídia, fundamentalmente na tevê, é a principal estratégia dos neopentecostais para roubar adeptos da concorrente direta. E cada vez mais as pessoas estabelecem uma relação utilitária com a religião. De acordo com a pesquisadora Sandra, se não há o retorno (material, na maioria das vezes), o fiel procura outra prestadora de serviço religioso. Estima-se, por exemplo, que 70% dos atuais adeptos da Igreja Mundial – uma dissidente da Universal – tenham migrado para lá vindos da denominação de Edir Macedo. “Entre os neopentecostais não se busca mais um líder religioso, mas um mago que resolva tudo num estalar de dedos”, diz Sandra. “Essa magia faz sucesso, mas tem vida curta, uma vez que o fiel se afasta, caso não encontre logo o que quer.”
SEM LAÇOS
Lucina não segue nenhum credo, mas quando quer alcançar uma graça
procura algum serviço religioso: 30% fazem o mesmo anualmente
Cansada de pular de uma crença para outra, a artesã paulista Lucina Alves, 57 anos, não sente mais necessidade de pertencer a uma igreja. Há oito anos, ela diz ser do grupo dos sem-religião. No entanto, recorre a ritos de fé, principalmente católicos, espíritas e da Seicho-No-Ie, sempre que sente vontade de zelar pelo bem-estar de alguém. “Há um mês, fui até uma benzedeira ligada ao espiritismo para ajudar meu filho que passava por problemas conjugais”, diz. Dados do artigo “Trânsito religioso no Brasil” revelaram que 30,7% das pessoas que se encontram na categoria dos sem-religião frequentam algum serviço religioso anualmente e 20,3% fazem o mesmo mais de uma vez por mês. “Já participei de reuniões evangélicas de orações em casa de familiares”, conta Lucina.

A artesã não cultua santos, crê em Deus, Jesus Cristo e acende vela para anjos. No campo das ciências da religião, manifestações espirituais como as dela são recentes e vêm sendo tema de novos estudos. A migração de brasileiros para o islã é outro fenômeno que cresce no País. O número de convertidos na comunidade muçulmana do Rio de Janeiro, por exemplo, saltou de 15% em 1997 para 85% em 2009. Ex-umbandista que hoje atende por Ahmad Abdul-Haqq, o policial militar paulista Mario Alves da Silva Filho tem um inventário religioso de dar inveja. Batizado no catolicismo, aos 9 anos estreou na umbanda em uma gira de caboclo e baianos. Um ano depois, juntando moedas que ganhava dos pais, comprou seu primeiro livro, sobre bruxaria. Aos 14, passou a frequentar a Federação Espírita paulista, onde fez cursos para trabalhar com incorporações e psicografia. Aos 17 anos, trabalhou em ordens esotéricas ao mesmo tempo que dava expediente na umbanda. O policial, mestrando em sociologia da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), decidiu se converter ao islã quando fazia um retiro de padres jesuítas. Em uma noite, sonhou com um árabe que o indicava o islã como resposta para suas dúvidas. Aos 29 anos, ele entrou em uma mesquita e disse que queria ser muçulmano. Saiu dela batizado e, desde então, faz cinco orações e repete frases do “Alcorão” diariamente. “Descobri que sou uma criatura de Deus e voltarei ao seio do Criador.”
MECA
Migração atípica: o policial Filho, de currículo
religioso extenso, trocou a umbanda pelo islã
Faz dez anos que o número de convertidos ao islã no País aumentou. E não são os atentados às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, que marcam esse novo fluxo, mas a novela “O Clone”, da Globo. Foi ela que “introduziu no imaginário cultural brasileiro imagens bastante positivas dos muçulmanos como pessoas alegres e devotadas à família”, como defende Paulo Hilu da Rocha Pinto em “Islã: Religião e Civilização – Uma Abordagem Antropológica” (Editora Santuário), de 2010. “De lá para cá, a conversão de brasileiros cresceu 25%. Em Salvador, 70% da comunidade é de convertidos”, diz a antropóloga Francirosy Ferreira, pesquisadora de comunidades muçulmanas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto.

Assistente financeiro, o paulista Luan Nogueira, 23 anos, tornou-se muçulmano há um ano. Por indicação de um amigo, passou a pesquisar o islã e descobriu que o discurso estigmatizado criado após o 11 de setembro, que relacionava a religião à intolerância e à violência, não era verdadeiro. “Encontrei na mesquita e no “Alcorão” a ética da boa conduta”, diz. “Me sinto mais próximo de Deus no islã.” Para o professor Frank Usarski, do Centro de Estudo de Religiões Alternativas de Origem Oriental, da PUC-SP, o atrativo do islã é o fato de não ter perdido, diferentemente de outras religiões, a competência da interpretação completa da vida. “Ele oferece um guarda-chuva de referências para esferas como economia e ciência”, diz Usarski.

ORIXÁS
Ex-liderança evangélica, Garcia largou os cultos cristãos (abaixo) para se tornar pai de santo
Segundo o escritor Pinto, que também é professor de antropologia da religião na Universidade Federal Fluminense, o islã permite aos adeptos uma inserção e compreensão sobre questões atuais, como, por exemplo, a Palestina, a Guerra do Iraque e segurança internacional, para as quais outros sistemas religiosos talvez não deem respostas. “Se a adoção do cristianismo em contextos não europeus do século XIX pôde ser definida com uma conversão à modernidade, a entrada de brasileiros no islã pode ser vista como uma conversão à globalização”, escreve ele, em seu livro.

É cada vez mais comum, no País, fiéis rezando com a cartilha da autonomia religiosa. Esse chega para lá na fé institucionalizada tem conferido características mutantes na relação do brasileiro com o sagrado, defende a professora Sandra, de ciências sociais e religião da Umesp. “Deus é constituído de multiplicidade simbólica, é híbrido, pouco ortodoxo, redesenhado a lápis, cujos contornos podem ser apagados e refeitos de acordo com a novidade da próxima experiência.” Agora é o fiel quem quer empunhar a escrita de sua própria fé.



Fonte: ISTOÉIndependente N° Edição: 2180

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Para Quem Pensa Estar em Pé (I)

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Por Augustus Nicodemus Lopes

Faz alguns anos fui convidado para ser o preletor de uma conferência sobre santidade promovida por uma conhecida organização carismática no Brasil. O convite, bastante gentil, dizia em linhas gerais que o povo de Deus no Brasil havia experimentado nas últimas décadas ondas sobre ondas de avivamento. “O vento do Senhor tem soprado renovação sobre nós”, dizia o convite, mencionando em seguida o que considerava como evidências: o movimento brasileiro de missões, crescimento na área da ação social, seminários e institutos bíblicos cheios, o surgimento de uma nova onda de louvor e adoração, com bandas diferentes que “conseguem aquecer os nossos ambientes de culto”. O convite reconhecia, porém, que ainda havia muito que alcançar. Existia especialmente um assunto que não tinha recebido muita ênfase, dizia o convite, que era a santidade. E acrescentava: “Sentimos que precisamos batalhar por santidade. Por isto, estamos marcando uma conferência sobre Santidade...”

Dei graças a Deus pelo desejo daqueles irmãos em buscar mais santidade. Entretanto, por detrás dessa busca havia o conceito de que se pode ter um “avivamento” espiritual sem que haja ênfase em santidade! Parece que para estes irmãos — e muitos outros no Brasil — a prática dos chamados dons sobrenaturais (visões, sonhos, revelações, milagres, curas, línguas, profecias), “louvorzão”, ajuntamento de massas em eventos especiais, e coisas assim, são sinais de um verdadeiro avivamento. É esse o conceito de avivamento e plenitude do Espírito que permeia o evangelicalismo brasileiro em nossos dias. Parece que a atuação do Espírito, ou um avivamento, identifica-se mais com essas manifestações externas e com a chamada liberdade litúrgica, do que propriamente com o controle do Espírito Santo na vida de alguém, na vida da igreja, na vida de uma comunidade.

Lamentavelmente, os escândalos ocorridos nas igrejas vêm confirmar nosso entendimento de que em muitos ambientes evangélicos, a santidade de vida, a ética e a moralidade estão completamente desconectados da vida cristã, dos cultos, dos milagres, da prosperidade em geral.

Uma análise do conceito bíblico de santidade destacaria uma série de princípios cruciais, dos quais destaco alguns aqui (outros princípios serão mencionados num próximo post):

1) A santidade não tem nada a ver com usos e costumes. Ser santo não é guardar uma série de regras e normas concernentes ao vestuário e tamanho do cabelo. Não é ser contra piercing, tatuagem, filmes da Disney, a Bíblia na Linguagem de Hoje. Não é só ouvir música evangélica, nunca ir à praia ou ao campo de futebol e nunca tomar um copo de vinho ou uma cerveja. Não é viver jejuando e orando, isolado dos outros, andar de paletó e gravata. Para muitos, santidade está ligada a esse tipo de coisas. Duvido que estas coisas funcionem. Elas não mortificam a inveja, a cobiça, a ganância, os pensamentos impuros, a raiva, a incredulidade, o temor dos homens, a preguiça, a mentira. Nenhuma dessas abstinências e regras conseguem, de fato, crucificar o velho homem com seus feitos. Elas têm aparência de piedade, mas não tem poder algum contra a carne. Foi o que Paulo tentou explicar aos colossenses, muito tempo atrás: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23). 

2) A santidade existe sem manifestações carismáticas e as manifestações carismáticas existem sem ela. Isso fica muito claro na primeira carta de Paulo aos Coríntios. Provavelmente, a igreja de Corinto foi a igreja onde os dons espirituais, especialmente línguas, profecias, curas, visões e revelações, mais se manifestaram durante o período apostólico. Todavia, não existe uma igreja onde houve uma maior falta de santidade do que aquela. Ali, os seus membros estavam divididos por questões secundárias, havia a prática da imoralidade, culto à personalidade, suspeitas, heresias e a mais completa falta de amor e pureza, até mesmo na hora da celebração da Ceia do Senhor. Eles pensavam que eram espirituais, mas Paulo os chama de carnais (1Coríntios 3.1-3). As manifestações espirituais podem ocorrer até mesmo através de pessoas como Judas, que juntamente com os demais apóstolos, curou enfermos e ressuscitou mortos (Mateus 10.1-8). No dia do juízo, o Senhor Jesus irá expulsar de sua presença aqueles que praticam a iniqüidade, mesmo que eles tenham expelido demônios e curado enfermos (Mateus 7.22-23). 

3) A santidade implica principalmente na mortificação do pecado que habita em nós. Apesar de regenerados e de possuirmos uma nova natureza, o velho homem permanece em nós e carece de ser mortificado diariamente, pelo poder do Espírito Santo. É necessário mais poder espiritual para dominar as paixões carnais do que para expelir demônios. E, a julgar pelo que estamos vendo, estamos muito longe de estar vivendo uma grande efusão do Espírito. Onde as paixões carnais se manifestam, não há santidade, mesmo que doentes sejam curados, línguas “estranhas” sejam faladas e demônios sejam expulsos. Não há nenhuma passagem em toda a Bíblia que faça a conexão direta entre santidade e manifestações carismáticas. Ao contrário, a Bíblia nos adverte constantemente contra falsos profetas, Satanás e seus emissários, cujo sinal característico é a operação de sinais e prodígios, ver Mateus 24.24; Marcos 13.22; 2Tessalonicenses 2.9; Apocalipse 13.13; Apocalipse 16.14. 

4) O poder da santidade provém da união com Cristo. Ninguém é santo pela força de vontade, por mais que deseje. Não há poder em nós mesmos para mortificarmos as paixões carnais. Somente mediante a união com o Cristo crucificado e ressurreto é que teremos o poder necessário para subjugar a velha natureza e nos revestirmos da nova natureza, do novo homem, que é Cristo. O legalismo não consegue obter o poder espiritual necessário para vencer Adão. Somente Cristo pode vencer Adão. É somente mediante nossa união mística com o Cristo vivo que recebemos poder espiritual para vivermos uma vida santa, pura e limpa aqui nesse mundo. É mais difícil vencer o domínio de hábitos pecaminosos do que quebrar maldições, libertar enfermos, e receber prosperidade. O poder da ressurreição, contudo, triunfa sobre o pecado e sobre a morte. Quando “sabemos” que fomos crucificados com Cristo (Romanos 6.6), nos “consideramos” mortos para o pecado e vivos para Deus (Romanos 6.11), não permitimos que o pecado “reine” sobre nós (Romanos 6.12) e nem nos “oferecemos” a ele como escravos (Romanos 6.13), experimentamos a vitória sobre o pecado (Romanos 6.14). Aleluia! 

5) A santidade é progressiva. Ela não se obtém instantaneamente, por meio de alguma intervenção sobrenatural. Deus nunca prometeu que nos santificaria inteiramente e instantaneamente. Na verdade, os apóstolos escreveram as cartas do Novo Testamento exatamente para instruir os crentes no processo de santificação. Infelizmente, influenciados pelo pensamento de João Wesley – que noutros pontos tem sido inspiração para minha vida e de muitos outros –, alguns buscam a santificação instantânea, ou a experiência do amor perfeito, esquecidos que a pureza de vida e a santidade de coração são advindas de um processo diário, progressivo e incompleto aqui nesse mundo. 

6) A santificação é um processo irresistível na vida do verdadeiro salvo. Deus escolheu um povo para que fosse santo. O alvo da escolha de Deus é que sejamos santos e irrepreensíveis diante dele (Efésios 1.4). Deus nos escolheu para a salvação mediante a santificação do Espírito (2Tessalonicenses 2.13). Fomos predestinados para sermoas conformes à imagem de Jesus Cristo (Romanos 8.29). Muito embora o verdadeiro crente tropece, caia, falhe miseravelmente, ele não permanecerá caído. Será levantado por força do propósito de Deus, mediante o Espírito. Sua consciência não vai deixá-lo em paz. Ele não conseguirá amar o pecado, viver no pecado, viver na prática do pecado. Ele vai fazer como o filho pródigo, “Levantar-me-ei e irei ter com o meu Pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti” (Lucas 15.18). Ninguém que vive na prática do pecado, da corrupção, da imoralidade, da impiedade, – e gosta disso – pode dizer que é salvo, filho de Deus, por mais próspero que seja financeiramente, por mais milagres que tenha realizado e por mais experiências sobrenaturais que tenha tido.

Estava certo o convite que recebi naquele dia: precisamos de santidade! E como! E a começar em mim. Tenha misericórdia, ó Deus!
***

Fonte: O Tempora, O Mores

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Quando o Povo de Deus se Reúne para Pedir Perdão

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Assiste-nos, ó Deus e Salvador nosso, pela glória do teu nome; livra-nos e perdoa-nos os nossos pecados, por amor do teu nome. (Sl 79:9)


O perdão é a garantia de uma segunda chance. Mas, por que, muitas vezes, precisamos de outra chance? Porque somos pecadores e, como tais, estamos expostos ao erro, dia após dia. E isso não é de agora. Os israelitas, por exemplo, fracassaram inúmeras vezes diante de Deus. Mostraram-se instáveis em sua fé, e a incredulidade os levou à rebelião (Dt 31:27, 32:15- 18), à ingratidão (Êx 15:1-21), à insatisfação (Sl 106:4), à inveja (Nm 16:1-3). Por essa razão, encontramos na Bíblia vários textos em que essa nação confessa a Deus os seus delitos (Ed 9:15; Ne 9:3; Jr 14:20). A confissão é uma prática necessária e não deve ser ignorada no culto.
O texto básico deste estudo é uma oração de confissão, na qual o salmista declara, sem rodeios, a culpa da nação e a urgente necessidade desta de ser perdoada. Ele entende que o primeiro grande passo para uma restauração é a confissão. Esta pode ser tanto coletiva quanto individual. O termo confessar é uma tradução da palavra hebraica yãdhâ e da palavra grega homologein, e tem o sentido tanto de declaração de fé (Rm 10:10) quanto de reconhecimento do pecado (1 Jo 1:9). [1] É exatamente sob o ponto de vista desse último sentido que abordaremos o assunto, levando em consideração o ato do culto, no qual nos reunimos para, dentre outras coisas, pedir perdão.
Reconhecendo a culpa: Atentemos para uma questão importante: Por que reconhecer a culpa e confessá-la? Ninguém vai nos dar uma resposta tão leal a esta pergunta quanto a Bíblia, a palavra de Deus. Observe: Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3:23). Essa é a realidade da qual todos nós fazemos parte. A questão do pecado é bem enfatizada nas Escrituras. Elas não maquiam e nem escondem a verdadeira condição do ser humano. A propósito, a palavra pecado parece estar cada vez mais ultrapassada na sociedade moderna. Ela é, frequentemente, associada apenas a uma transgressão na dieta ou a um delito no trânsito. [2]
Mas o conceito bíblico de pecado é muito mais grave: pecado é sinônimo de morte: ... por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5:12). Julgo necessário frisar essa questão porque muitos se consideram “perfeitos” demais para praticarem a confissão. Não reconhecem o erro. Mas isso não é de hoje. Há cerca de dois mil anos, João escreveu: Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos (1 Jo 1:8). Na época, havia quem afirmasse não ter pecado. Isso é grave porque negar a existência do pecado ou da nossa pecabilidade é ignorar a eficácia do sacrifício de Cristo, por cujo sangue somos purificados (1 Jo 1:7).
Não é fácil para ninguém enxergar as próprias manchas no espelho! Parece mais cômodo combater os pecados alheios. A nossa vontade, na maioria das vezes, é conhecer o pecado dos outros sem reconhecer o nosso. Jogar a culpa no próximo é o atalho mais fácil, pensamos. Todavia, os personagens mais notáveis da Bíblia nos mostraram o contrário. Davi, o homem segundo o coração de Deus, confessou: Eu conheço as minhas transgressões (Sl 51:3). Isaías admitiu: (...) sou um homem de lábios impuros (Is 6:5). Paulo, por sua vez, reconheceu: Miserável homem que eu sou! (Rm 7:24a). O que esses homens de Deus tinham em comum? Eles confessavam a própria culpa e jogavam o peso dela sobre os próprios “ombros”.
Expondo os erros: Uma vez tendo o ser humano se deparado com a sua miséria moral, isto é, com a natureza pecaminosa que nele habita, e tendo, por consequência, reconhecido a própria culpa, ele carece igualmente expor, de forma direta, os seus delitos diante daquele que é santo, santo, santo (Is 6:3). Entenda que o culto é propício para se reconhecer a santidade de Deus e louvá-lo por ela, mas também é a oportunidade para confessarem os erros. João escreve: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1:9). Sabendo disso, perguntamos: Que pecados confessar? Para Deus devemos confessar os pecados cometidos (Lv 5:5). Tendo em vista que tropeçamos em muitas coisas (Tg 3:2), estamos sujeitos a fraquejar e cair. A lista de pecados que uma pessoa pode cometer, ao longo da vida, é enorme: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria etc. (Gl 5:19-21).
Todos eles devem ser confessados, quando cometidos. E não somente esses. É necessário confessarmos também os pecados desejados. Mesmo que não cometamos determinado delito, podemos desejar cometê-lo, o que não nos isenta de culpa (Mt 5:28). Sabendo disso, Paulo fez a seguinte confissão: Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum (Rm 7:18).
Além dos pecados cometidos e desejados, a confissão deve ser feita pelos pecados de cumplicidade. Muitos erram ao tornarem-se cúmplices da transgressão alheia. Contribuir direta ou indiretamente para o pecado dos outros, é, também, iniquidade. Tal cumplicidade nos torna impuros, afirma a Bíblia (1 Tm 5:22). Esse pecado precisa ser confessado e abandonado.
Por fim, devem-se confessar os pecados ocultos. Estes são cometidos corriqueiramente, muitas vezes, sem percebermos. Mas Deus os conhece (Sl 139:23). Pode ser uma palavra “mal” dita, um pensamento promíscuo, uma ação indigna. Em relação a esse tipo de pecado, o salmista pediu: Por favor, Senhor, perdoa estes meus pecados ocultos (Sl 19:12b – BV).
Superando os obstáculos: Por se tratar de uma prática tão essencial à vida cristã, a confissão de pecados tem lá os seus obstáculos. É certo que, por meio dela, a pessoa coloca-se diante do Deus santo, no culto, reconhecendo que está na hora de permitir que ele realize a limpeza e a remoção da sujeira acumuladas durante a semana. [3] Todavia, dispormo-nos a isso não é tão fácil quanto gostaríamos que fosse. Muitos têm enormes dificuldades para confessar os pecados e, por conta disso, retardam em fazê-lo ou, simplesmente, nunca o fazem.
Precisamos, portanto, estar atentos quanto aos empecilhos da confissão. Quais são eles? Em primeiro lugar, a ausência da noção de pecado. Uma pessoa que sofre esse problema julga ser pecado aquilo que, de fato, não é ou vice-versa. Desse modo, vive na hipocrisia (Mt 23:24), porque não atentou para o verdadeiro significado de pecado: ... a transgressão da lei de Deus (1 Jo 3:4). Em segundo lugar, o orgulho. Quando alguém se deixa dominar por esse mal, jamais confessa o pecado. Ele declara que não pecou e não reconhece o erro. Porém, pelo fato de estar com o coração infestado desse fermento, ele já está em falta, pois o orgulho em si é pecado (2 Tm 3:4).
Em terceiro lugar, o medo de retornar ao pecado é outro empecilho à confissão. Este problema é um incômodo para muitas pessoas. Elas pensam: “Por que confessar este pecado se há o risco de eu cometê-lo outra vez?”. Além disso, elas ficam inseguras quanto ao perdão divino, pois têm uma grande dificuldade de aceitar o fato de que Cristo pode perdoá-las de novo pelo mesmo delito (Mt 18:22). Esses obstáculos existem e não podem ser ignorados. Eles retardam a confissão. Se, de algum modo, não os enfrentamos no passado, não estamos isentos de enfrentá-los no presente. Mas podemos superá-los com a ajuda de Deus, e, finalmente, sem impedimentos, praticar a confissão.
Atestando os resultados: Após o reconhecimento da culpa, a exposição do erro e a superação dos obstáculos, estaremos aptos a atestar os resultados da confissão. O perdão é um desses resultados. O texto seguinte esclarece: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados (1 Jo 1:9). Há uma verdade maravilhosa nesse texto: Na primeira frase, pecado é um débito que Deus quita, e, na segunda, uma mancha que ele remove. [4] A confissão não é um peso, mas uma bênção na vida daqueles que se achegam para adorar. Deus perdoa porque é fiel às suas promessas (Jr 31:34), embora não mereçamos tamanha dádiva.
Além do perdão, a confissão proporciona restauração. Enquanto não estiver convicta de que foi perdoada por Deus, a pessoa será incomodada pelo “peso” da própria consciência. Nesse sentido, é possível compreendermos a agonia do salmista, quando clamou: Confesso a minha culpa; em angústia estou por causa do meu pecado (Sl 38:18). Nessa condição, ninguém tem forças para prosseguir a caminhada cristã. Mas esse quadro muda com a certeza do perdão divino. A partir daí, o ser humano entra no processo de restauração, ou seja, de uma reconstrução ou restabelecimento (Pv 28:13). Logo, ele é motivado a abandonar a vida velha e a recomeçar com novos costumes, atitudes e convicções. Por fim, a confissão resulta em cura.
Algumas enfermidades estão ligadas a pecados pessoais (Jo 5:14) e à punição divina. O salmista faz uma declaração surpreendente: Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação; não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado (Sl 38:3b). Nesse caso, a “cura só vem depois que o pecado é confessado”. [5] O escritor do Salmo 41:4 é ciente disso: Disse eu: compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma, porque pequei contra ti. Observe que ele associa o seu pedido de cura à sua confissão: ... pequei contra ti. A cura resultante da confissão pode ser tanto física quanto emocional e espiritual.
PRATICANDO A PALAVRA DE DEUS
No culto, pratiquemos a confissão com arrependimento.
A confissão, por si só, não basta. É necessário arrependimento de quem almeja, de fato, receber o perdão do Criador. Como sabemos, arrependimento significa transformação de mente ou mudança de opinião. Logo, quem muda de opinião, tende a mudar de atitude. A Bíblia é clara em afirmar que a verdadeira transformação ocorre pela renovação do nosso entendimento, pela qual é possível experimentarmos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2). Esse deve ser o nosso propósito, quando nos prostrarmos diante de Deus, no culto (e fora dele), e confessarmos os nossos pecados. O coração honestamente arrependido não se refugia nas justificativas. Não “atira” para todos os lados, em busca de um culpado para as suas próprias transgressões. Pelo contrário, admite humildemente a sua culpa. Quer um exemplo? Davi. Após tramar a morte de Urias, para possuir a esposa deste, Davi confessou o seu pecado, arrependido, e pediu: Cria em mim um coração puro, ó Deus (Sl 51:10a). Essa deve ser a nossa súplica, diuturnamente. Essa oração não deve ser fruto do hábito, mas do arrependimento. Confessemos os nossos erros a Deus, mas supliquemos-lhe por transformação!
No culto, pratiquemos a confissão com transparência.
A confissão deve ser transparente. Devemos contar para Deus em que pecamos, sem rodeios ou fingimento. Poupemo-nos da insensatez de tentar esconder as nossas misérias dele. O escritor de Provérbios 28:13a é contundente em afirmar: O que encobre as suas transgressões jamais prosperará. Costumamos, geralmente, ser transparentes em nossos pedidos. Quando vamos ao culto, via de regra citamos tudo aquilo que queremos receber de Deus. Pedir algo para ele não é errado. O problema é que nem sempre somos tão transparentes na confissão dos nossos erros. O salmista procurou ser transparente. Ele afirmou: Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei (Sl 32:5). É isso mesmo. Ele confessou o seu pecado. Se quisermos obter êxito em nossa súplica por perdão, confessemos os nossos pecados. Todos eles. Sejamos transparentes diante do Deus santo. Isso significa dizer que, ao nos reunirmos no culto para pedir perdão, é nosso dever confessar para ele os pecados cometidos e desejados. De igual modo, confessemos os pecados de cumplicidade e, por fim, os pecados ocultos. Aquele que os confessa e deixa alcançará misericórdia (Pv 28:13).
No culto, pratiquemos a confissão com urgência.
A confissão é um ato urgente. Não deve ser ignorada nem prorrogada. Caso isso aconteça, a comunhão do pecador com o seu Criador ficará comprometida, tendo em vista que as nossas iniquidades fazem divisão entre nós e o nosso Deus (Is 59:2). A demora em se confessar o pecado, automaticamente, culminará na prorrogação do perdão. Veja o que o salmista declara sobre isso, por experiência própria: Eu tentei por algum tempo esconder os meus pecados. Mas fiquei muito fraco, gemendo de dor e aflição o dia inteiro (Sl 32:3, NBV). Quanto mais demoramos a confessar os nossos pecados ao Pai, mais distantes ficamos da cura e da restauração. Mas a história do salmista não termina no lamento, nem na omissão da confissão. Ele, então, prossegue: Pensei comigo mesmo: Confessarei as minhas transgressões ao SENHOR. E o Senhor perdoou a culpa do meu pecado (Sl 32:5b – NBV). Ele demorou a confessar o seu pecado, mas logo caiu em si e percebeu que a demora só o fazia sofrer mais. Após a confissão, encontrou alívio para a sua vida. Sabendo disso, não nos demoremos a confessar os nossos pecados diante daquele é longânimo e grande em beneficência, que perdoa a iniqüidade e a transgressão (Nm 14:18a).
CONCLUSÃO
O tema do texto nos apresenta um retrato do que verdadeiramente somos: pecadores. Só se reúnem para pedir perdão os que reconhecem essa verdade. Reconhecer a culpa, expor os erros, superar os obstáculos e atestar os resultados é fundamental na prática da confissão. Jamais esqueçamos que ela é tão importante quanto os outros aspectos da adoração. Por isso, estejamos prontos a praticar a adoração com arrependimento, transparência e urgência. Assim, receberemos aquilo que tanto almejamos: perdão.

Bibliografia
1. DOUGLAS, J. D. O novo dicionário da Bíblia. Vol. 1. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. 1962. pág.314
2. DOUGLASS, Klaus. Celebrando o amor de Deus: o despertar para um novo culto. Curitiba: Esperança, 2000. pág.73
3. DOUGLASS, Klaus. Celebrando o amor de Deus: o despertar para um novo culto. Curitiba: Esperança, 2000. pág.73
4. STOTT, John. I, II e III João: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1982. pág.67

DEC - PCamaral

Não; Não Quero; Não Posso; Não Sei!

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Por Carlos Moreira

Faz 30 anos que conheci a Jesus Cristo, mas só há 10 atuo como ministro ordenado. Para entrar para o “seleto” grupo dos clérigos da igreja, tive de ir ao seminário teológico onde passei 4 anos estudando.

Quando estava no meio do curso de teologia, achei que aquilo lá não iria ser tão útil quanto eu inicialmente imaginava. Foi aí que comecei, paralelamente, o curso de filosofia. No começo minha cabeça “ferveu” um pouco, pois enquanto o “teólogo” tem sempre respostas para tudo, o “filósofo” persegue implacavelmente as perguntas. Depois de certo tempo, ambos acabaram se harmonizando em mim... Hoje convivem em paz.

Como sempre fui um leitor contumaz das Escrituras, não passei por nenhum tipo de crise, nem num curso nem no outro. Minha fé já estava bastante alicerçada quando parti para aprofundar meus conhecimentos. Sei que muita gente afirma ter entrado “surtado” quando se deparou com certas questões, sobretudo no seminário, mas comigo isso jamais aconteceu. Durante algum tempo pensei que era algum tipo de anormalidade. Depois, descansei...

Eu aprendi muita coisa interessante nestes últimos 5 anos. Li bastante, sobretudo os clássicos de ambas as disciplinas. Mas para você, jovem pastor, ordenado ou não, membro ou não de alguma instituição religiosa, que recebeu sucessão apostólica ou não, que foi ou não ao seminário, mas você, que cuida de gente, abre a sua casa, sacrifica sua agenda, reparte sua vida, esforça-se para servir a outros, tenho 4 coisas a lhe ensinar. Aliás, estas são as 4 coisas mais importantes que eu aprendi até agora no exercício do ministério pastoral.

A primeira é que você precisa aprender a dizer NÃO. E porque digo isto? Porque pastores normalmente são vistos como seres que não possuem suas próprias demandas, ou seja, nós não podemos nos sentir cansados, sobrecarregados, deprimidos, aflitos, desestimulados. O pastor tem sempre de estar sorrindo, ser uma benção, um exemplo de fé, de renúncia, de coragem. A esposa do pastor tem que ser quase uma “virgem santa”, ela tem de agradar a igreja inteirinha, e os filhos do pastor, ai meu Deus, tem de se assemelhar a anjinhos de presépio.

Pois bem, se você aprender a dizer não, você vai mostrar para a igreja que você não irá viver uma farsa, que você não está disposto a “pagar” esse “custo” existencial nem ministerial, que não raro você também enfrenta os mesmos problemas que qualquer um dos membros que lhe procura solicitando ajuda. Sim, se você é alguém normal, e não incorporou ainda o “espírito” do super-pastor, você pode, e deve, em diversas situações, dizer não!

Outra coisa fundamental no seu ministério será você aprender a dizer NÃO QUERO! É muito comum pastores que depende financeiramente da igreja ter de se submeter a tudo que os membros desejam. Desta forma, o pastor torna-se refém da membresia, não tem autonomia nem mesmo para pregar com liberdade e ousadia aquilo que Deus coloca no seu coração.

Isso, convenhamos, é muito triste, pois, com medo de faltar os recursos necessários para manter sua família, os quais podem ser abruptamente cortados pela junta, conselho, presbitério, diocese – isso varia de acordo como o tipo de governo da igreja – o pastor acaba tendo de fazer o que chamo de “pregação cotonete”. Trata-se de um tipo de mensagem que possui grande poder de fazer cócegas nos ouvidos da igreja, mas isso é tudo que ela produz. Se você aprender a dizer NÃO QUERO, ou a igreja vai lhe botar no olho da rua, o que fará com que você viva em paz com sua consciência, ou ela aprenderá a ouvir aquilo que precisa, e não o que deseja.

Em terceiro lugar, quero lhe ensinar algo preciosismo: comece a dizer NÃO POSSO. O ministério pastoral é um dos trabalhos mais desgastantes que existe. Eu sou empresário há 15 anos, estou acostumado com árduas jornadas de trabalho, viagens, reuniões, etc. Mas um pastor não tem vida! Ele tem de visitar, batizar, casar, enterrar, aconselhar, animar, ensinar, pregar, evangelizar, são tantos “....ar”, que não sobra tempo para você ter vida! E não sei se você já percebeu, mas você precisa de uma...

Por isso, querido pastor, aprenda logo a dizer: “infelizmente, eu “NÃO POSSO” fazer isto. Para tal, mantenha uma agenda atualizada, separe tempo para as tarefas do ministério e para as outras coisas também! No meu caso, eu possuo trabalho secular, mulher, filha, necessidade de lazer, de cuidar da saúde, e não poderei fazer essas coisas se tudo o que me pedirem eu tiver de realizar.

Finalmente, mas não menos importante, aprenda a dizer “NÃO SEI”! Todo pastor imagina ser um compendio de informações bíblico-teológicas, uma espécie de Google Evangélico. Ele pensa que tem de ter respostas exatas para todas as questões da vida cristã, que precisa saber decorados todos os versículos, as doutrinas, credos, confissões, a história da igreja, a teologia sistemática, a escatologia, e todas as outras “...gias” que existem no ministério.

Meu querido, simplifique as coisas para você e para a sua congregação: diga a maravilhosa e ungida frase: “NÃO SEI”! Com isto você irá poupar as ovelhas de Jesus Cristo de ouvirem respostas bizarras, interpretações mirabolantes, desculpas esfarrapadas, exegeses de 5ª categoria, uma hermenêutica que beira as bordas do inferno. Experimente ser alcançado pela maravilhosa paz que recai sobre o ministro de Deus quando ele diz: “NÃO SEI”! Aleluia!

Existem muitas outras coisas que são úteis ao ministério, mas estas você deve aprender nos livros de teologia. Elas servirão para muito pouca coisa, mas é bom que você as conheça. Contudo, com estas 4 que eu acabei de lhes ensinar, vocês poderão não ser um grande “sucesso” ministerial, mas terão uma vida para viver com Deus e com o rebanho que a Ele pertence. Sim, vocês viverão com a alma pacificada, o coração agradecido e o espírito quebrantado. O que mais você deseja?

Fonte: Genizah compartilhado no PCamaral na sessão Ministério Prático do Presbitero

domingo, 28 de agosto de 2011

Resistindo às tentações

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Por Pr. Anderson Guarnieri
Como se sabe, a igreja de Corinto era uma igreja que sofria com heresias, meninices e questões de imoralidade. No capítulo dez, Deus inspira o apóstolo Paulo a motivar os coríntios a resistir às tentações. “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (1 Co 10.13)

A palavra grega para “tentação”, utilizada aqui nessa passagem, é “peirasmos” e significa: tribulação, perseguição, teste, sofrimento, incitação ao pecado. As tentações de que Paulo está falando são “humanas”, ou seja, são comuns ao nível do ser humano; está no contexto terrestre. São desafios para a nossa vida, para o nosso dia-a-dia. Deus nos prova, mas não nos tenta para praticarmos o mal; porém, permite que a tentação venha sobre nós. Um exemplo claro está na tentação que Jesus enfrentou no deserto. A Bíblia diz que foi Satanás quem o tentou, porém foi o Espírito Santo quem o conduziu até o deserto.

Ele exerce controle sobre todas as tentações que, como crentes, enfrentamos, permitindo somente aquelas que podemos suportar. Ele provê um meio de escape para cada teste, cada sofrimento, cada perseguição, ou cada incitação à prática do mal (pecado). Por isso que Paulo o chama de “Deus fiel”. Podemos confiar nEle. O autor aos Hebreus, no capítulo quatro diz:
“Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hb 4.15)
O convite é para confiarmos em Jesus Cristo quando estivermos em momentos de necessidade e tentações (peirasmos), porque Ele vencer todo tipo de tentação pó nós. E agora, através dessa graça, podemos encontrar ajuda para escaparmos e vencermos também.

O escape não nos é dado através da ausência de todas as tentações; nem por sermos livres das provações. O escape só aparece através da resistência e da persistência do crente em permanecer e depender do Bom Pastor (Sl 23.1-5). Jesus é o escape que o Deus fiel provê para podermos suportar.

E por que é importante resistir à tentação? É importante primeiramente porque se ela não for vencida destruirá nossa vida moral, social e espiritual. Segundo porque tem promessa para aquele que resiste: a coroa da vida: “Feliz é o homem que persevera na provação, porque depois de aprovado receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam” (Tg 1.12).

E terceiro porque provações e tentações são utilizadas por Deus para promover o nosso amadurecimento espiritual, nos ajudando na caminhada rumo ao Reino de Deus: “fortalecendo os discípulos e encorajando-os a permanecer na fé, dizendo: "É necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus". (At 14.22).

Resista às tentações que aparecem diante de você. Lembre-se que Jesus nos ensinou a orar pedindo ao Pai celestial que não nos deixe cair em tentações, e que nos livre do mal. Isso significa que tentações sempre virão, mas podemos resisti-las com a ajuda daquele que tem “o Reino, o poder e glória para sempre” (Mt 6.13).
***

Fonte: Sou da Promessa

Os mais variados tipos de pregador e seus públicos-alvo

2 comentários:
Por Ciro Sanches Zibordi

Há quase 20 anos, fui convidado pela primeira vez para participar de uma agência nacional de pregadores. Um companheiro de púlpito me ofereceu um cartão e disse: “Seria um prazer tê-lo em nossa agência”. Então, lhe perguntei: “Como funciona essa agência?” E a sua resposta me deixou estarrecido: “As igrejas ligam para nós, especificam que tipo de pregador desejam ter em seu evento, e nós cuidamos de tudo. Negociamos um bom cachê”.

É impressionante como o pregador, nos últimos anos, se transformou em um produto. Há alguns meses, depois de eu ter pregado em uma igreja (não me pergunte onde), certo pastor me disse: “Gostei da sua pregação, mas o irmão conhece algum pregador de vigília?” Achei curiosa essa pergunta, pois eu gosto de oração, já preguei várias vezes em vigílias, porém, segundo aquele irmão sugeriu, eu não serviria para pregar em uma vigília!

Em nossos dias — para tristeza do Espírito Santo — pertencer a uma agência de pregadores tornou-se comum e corriqueiro. E os convites para ingressar nessas agências chegam principalmente pela Internet. Nos sites de relacionamento encontramos comunidades pelas quais os internautas mencionam quem é o seu pregador preferido e por quê. Certa jovem, num tópico denominado “O melhor pregador”, declarou: “Não existe ninguém melhor que ninguém; cada um tem a sua maneira de pregar, e cada pessoa avalia segundo o seu gosto”.

Ela tem razão. Ser pregador, hoje em dia, não basta. Você tem de atender às preferências do povo. Já ouvi irmãos conversando e dizendo: “Fulano é um ótimo pregador, mas não é pregador de congresso” ou “Fulano tem muito conhecimento, mas não gosta do reteté”.

Conheçamos alguns tipos de pregador e seus públicos-alvo:

Pregador humorista. Diverte muito o seu público-alvo. Tem habilidade para contar fatos anedóticos (ou piadas mesmo) e fazer imitações. Ele é como o famoso humorista do gênero stand-up comedy Chris Rock (que aparece na imagem acima). De vez em quando cita versículos. Mas os seus admiradores não estão interessados em ouvir citações bíblicas. Isso, para eles, é secundário.

Pregador “de vigília”. Também é conhecido como pregador do reteté. Aparenta ter muita espiritualidade, mas em geral não gosta da Bíblia, principalmente por causa de 1 Coríntios 14, especialmente os versículos 37 e 40: “Se alguém cuida ser espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor... faça-se tudo decentemente e com ordem”. Quando ele vê alguém manejando bem a Palavra da verdade (2 Tm 2.15), considera-o frio e sem unção. Ignora que o expoente que agrada a Deus precisa crescer na graça e no conhecimento (2 Pe 3.18; Jo 1.14; Mt 22.29). Seu público parece embriagado e é capaz de fazer tudo o que ele mandar.

Pregador “de congresso”. Entre aspas porque existe o pregador de congresso que faz jus ao título. Mas o pregador “de congresso” (note: entre aspas) anda de mãos dadas com o pregador “de vigília”, mas é mais famoso. Segundo os admiradores dessa modalidade, trata-se do pregador que tem presença de palco e muita “unção”. Também conhecido como pregador malabarista ou animador de auditórios, fica o tempo todo mandando o seu público repetir isso e aquilo, apertar a mão do irmão ao lado, beliscá-lo... Se for preciso, gira o paletó sobre a cabeça, joga-o no chão, esgoela-se, sopra o microfone, emite sons de metralhadora, faz gestos que lembram golpes de artes marciais... Exposição bíblica que é bom... quase nada!

Pregador “de congresso” agressivo. É aquele que tem as mesmas características do pregador acima, mas com uma “qualidade” a mais. Quando percebe que há no púlpito alguém que não repete os seus bordões, passa a atacá-lo indiretamente. Suas principais provocações são: “Tem obreiro com cara de delegado”, “Hoje a sua máscara vai cair, fariseu”, “Você tem cara amarrada, mas você é minoria”. Estas frases levam o seu fanático público ao delírio, e ele se satisfaz em humilhar as pessoas que não concordam com a sua postura espalhafatosa.

Pregador popstar. Seu pregador-modelo é o show-man Benny Hinn, e não o Senhor Jesus. É um tipo de pregador admirado por milhares de pessoas. Já superou o pregador de congresso. É um verdadeiro artista. Veste-se como um astro; sua roupa é reluzente. Ele, em si, chama mais a atenção que a sua pregação. É hábil em fazer o seu público a abrir a carteira. Seus admiradores, verdadeiros fãs, são capazes de dar a vida pelo seu pregador-ídolo. Eles não se importam com as heresias e modismos dele. Trata-se de um público que supervaloriza o carisma, em detrimento do caráter.

Pregador milagreiro. Também tem como paradigma Benny Hinn, mas consegue superar o seu ídolo. Sua exegese é sofrível. Baseia-se, por exemplo, em 1 Coríntios 1.25, para pregar sobre “a unção da loucura de Deus”. Cativa e domina o seu público, que, aliás, não está interessado em ouvir uma exposição bíblica. O que mais deseja é ver sinais, como pessoas lançadas ao chão supostamente pelo poder de Deus e fenômenos controversos. Em geral, o pregador milagreiro, além de ilusionista e “poderoso” (Dt 13.1-4), é aético e sem educação. Mesmo assim, ainda que xingue ou ameace os que se opõem às suas sandices e invencionices, o seu público é fiel e sempre diz “aleluia”.


Pregador contador de histórias. Conta histórias como ninguém, mas não respeita as narrativas bíblicas, acrescentando-lhes pormenores que comprometem a sã doutrina. Costuma contextualizar o texto sagrado ao extremo. Ouvi certa vez um famoso pregador dizendo: “Absalão, com os seus longos cabelos, montou na sua motoca e vruuum...” Seu público — diferentemente dos bereanos, que examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (At 17.11) — recebe de bom grado histórias extrabíblicas e antibíblicas.

Pregador cantante. Indeciso quanto à sua chamada. Costuma cantar dois ou três hinos (hinos?) antes da pregação e outro no meio dela. Ao final, canta mais um. Seu público gosta dessa “versatilidade” e comemora: “Esse irmão é uma bênção! Prega e canta”. Na verdade, ele não faz nenhuma das duas coisas bem.

Pregador “massagista”. É hábil em dizer palavras que massageiam os egos e agradam os ouvidos (2 Tm 4.1-5). Procura agradar a todos porque a sua principal motivação é o dinheiro. Ele não tem outra mensagem, a não ser “vitória”, principalmente a financeira. Talvez seja o tipo de pregador com maior público, ao lado dos pregadores humorista, popstar e milagreiro.

Pregador sem graça. É aquele que não tem a graça de Deus (At 4.33). Sua pregação tem bastante conteúdo, mas é como uma espada: comprida e chata (maçante, enfadonha). Mas até esse tipo de pregador tem o seu público, formado pelos irmãos que gostam de dormir ou conversar durante a pregação.

Pregador chamado por Deus (1 Tm 2.7). Prega a Palavra de Deus com verdade. Estuda a Bíblia diariamente. Ora. Jejua. É verdadeiramente espiritual. Tem compromisso com o Deus da Palavra e com a Palavra de Deus. Seu paradigma é o Senhor Jesus Cristo, o maior pregador que já andou na terra. Ele não prega para agradar ou agredir pessoas, e sim para cumprir o seu chamado. Seu público — que não é a maioria, posto que são poucos os fiéis (Sl 12.1; 101.6) — sabe que ele é um profeta de Deus. Esse tipo de pregador está em falta em nossos dias, mas não chama muito a atenção das agências de pregadores. A bem da verdade, estas também sabem que nunca poderão contar com ele...

Qual é a sua modalidade preferida, prezado leitor? Você pertence a qual público? E você, pregador, qual dos perfis apresentados mais lhe agrada?

Fonte: [Blog do Ciro]

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Quando o Povo de Deus se Reúne para Buscar Apoio

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Venham apoiar-me aqueles que te temem, aqueles que entendem dos teus estatutos. (Sl 119:79)
“Buscar apoio” é uma expressão forte, que descreve muito bem o quanto somos limitados e o quanto dependemos uns dos outros. A palavra apoio tem o mesmo significado de sustentação, base, auxílio, proteção, ajuda, encorajamento. O culto é uma excelente oportunidade para, dentre outras coisas, prestarmos e pedirmos ajuda uns aos outros. A igreja é para isso. Afinal, a Bíblia a descreve da seguinte maneira: Pois bem, vocês são o corpo de Cristo, e cada um é uma parte desse corpo (1 Co 12:27 – NTLH).
O salmista não tem vergonha de declarar que precisa de ajuda. Por isso, ele se apressa em recorrer a Deus do seguinte modo: Venha, pois, a tua bondade consolar-me (...). Baixem sobre mim as tuas misericórdias, para que eu viva (Sl 119:76-77). Ele entende que precisa buscar apoio não somente do alto, mas, também, dos que estão ao seu lado, isto é, daqueles que temem ao Senhor (Sl 119:79). Isso faz sentido. Precisamos da ajuda divina, mas devemos admitir que precisamos uns dos outros. Ao angustiado, palavras de conselho e encorajamento são fundamentais. No culto, portanto, precisamos tomar algumas atitudes em relação ao ato de apoiar.
Não precisamos, necessariamente, obter acesso a uma graduação na área de relações humanas ou algo semelhante, para nos relacionarmos afetivamente com as pessoas. A Bíblia, a palavra de Deus, é a nossa base para isso. Ela é a bússola que nos direciona em todas as áreas da vida. O seu autor compreende os seres humanos mais do que qualquer psicanalista conceituado. A Bíblia afirma que com Deus está a sabedoria e a força; ele tem conselho e entendimento (Jó 12:13). É a sua palavra que nos encoraja a encorajar por meio do aconselhamento saudável. Os que se reúnem para cultuar ao Deus santo devem ter em mente que o ato de apoiar é uma responsabilidade cristã, que tem fundamento bíblico. O apóstolo Paulo faz questão de enfatizar isso, ao escrever: Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina (2 Tm 4:2). O termo grego parakaleo, traduzido pelo verbo “exortar”, significa encorajar, fortalecer.
É um grave erro enfatizar a correção e a repreensão, sem praticar o encorajamento. Além de instruir Timóteo à prática do encorajamento, Paulo orienta Tito a seguir o mesmo princípio (Tt 1:9). O encorajamento, portanto, é uma verdade bíblica e deve ser praticada no culto com toda a longanimidade e doutrina. É um princípio bíblico e deve ser encarado como tal. Ele é tanto um direito quanto um dever do cristão. Os irmãos de Tessalônica aprenderam isso. Eles receberam o seguinte tratamento: ... vocês sabem que tratamos cada um de vocês como um pai trata seus próprios filhos, exortando, incentivando (1 Ts 2:11,12a – NBV). Mas receberam também a seguinte ordem: Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos (1 Ts 5:14).
Em algumas circunstâncias, as pessoas dependem exclusivamente da intervenção divina. Mas nem sempre é assim. Às vezes, basta que elas tomem uma iniciativa para que as coisas aconteçam. Em se tratando de apoio, o cristão deve agir de duas maneiras. Em primeiro lugar, precisa se dispor a ajudar. Quem melhor nos ensina isso é o próprio Jesus. Diante do abatimento e incredulidade dos discípulos que seguiam para Emaús, ele tomou a iniciativa de ajudá-los. A cura daqueles corações feridos e tristes pela morte do seu Senhor se deu mediante a um importante diálogo iniciado por Cristo.
Agir como Cristo agiu e imitá-lo é, sem dúvida, o melhor caminho. E como ele agiu? Ele se aproximou daqueles discípulos (Lc 24:15), perguntou o motivo da preocupação deles (Lc 24:17), dispôs-se a ouvi-los (Lc 24:19-24), confrontou-lhes o erro (Lc 24:25-27), ensinou-lhes a verdade (Lc 24:27), tornou-se íntimo deles (Lc 24:29) e, finalmente, não os abandonou, mas incentivou-os a agir (Lc 24:31,33,34). A atitude dos filhos de Deus deve ser a mesma. Todos podem se dispor a dar apoio, assim como Judas e Silas, que eram também profetas, consolaram os irmãos com muitos conselhos e os fortaleceram (At 15:32).
Em segundo lugar, o cristão precisa se dispor a receber ajuda. Quando se precisa de um conselho, a atitude mais sábia é buscá-lo. Mas, para que isso aconteça, é necessário reconhecer a própria necessidade de ajuda. A sabedoria que Salomão recebeu de Deus o impulsionou a afirmar: Quem pensa que pode vencer a vida sozinho vai fracassar totalmente; quem procura ajuda e pede conselhos será bem-sucedido (Pv 15:22 – NBV). Ele trata da importância de se consultar os conselheiros, antes de se tomar uma decisão delicada (Pv 20:18). Nas reuniões de adoração, há conselheiros. Há pessoas que se dispõem a ajudar e a receber ajuda.
Observar a base do apoio, que é a palavra de Deus, e tomar a iniciativa, tanto para ajudar quanto para pedir ajuda, indicam que o indivíduo está no caminho certo. Mas, uma vez que alguém negligencia tudo isso, deve tomar cuidado, pois aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando (Tg 4:17). Esse texto está tratando de um pecado grave: a omissão, a apatia a que muitos crentes se submetem, diante das turbulências que afligem a vida do próximo. O corpo de Cristo é o que mais sofre com os danos desse erro.
É comum vermos pessoas caírem da fé, em razão de lhes faltar apoio para continuar. Há muitos crentes desencorajados; há muitos líderes, inclusive, pastores, na mesma situação. Eles precisam de apoio. Não importa a posição de cada um no reino de Deus; todos podem passar por crises existenciais na vida. Todos são humanos. Qualquer pessoa nesse estado precisa ouvir palavras encorajadoras. Todavia, isso nem sempre acontece. Parece mesmo que alguns cristãos têm o “dom do desencorajamento”. Eles só se achegam às pessoas quando têm algo negativo para dizer, ou, então, nada dizem, o que pode ser mais desencorajador [1].
Mas Deus não quer que sejamos assim. A Bíblia nos mostra bons exemplos, dentre os quais citamos Barnabé, cujo nome significa “filho do encorajamento”. O seu nome caracteriza perfeitamente a sua pessoa. Ele apoiou Paulo, e este foi recebido entre os discípulos, apesar da má fama que tinha entre os cristãos (At 9:26,27). Tempos mais tarde, Barnabé prestou apoio a Marcos, uma vez que Paulo não queria levá-lo em sua viagem missionária. Barnabé, contudo, estendeu-lhe a mão (At 15:37-39). Não sabemos o que seria de Paulo e Marcos, se Barnabé lhes houvesse negligenciado apoio. A sua atitude foi de grande relevância para o ministério de ambos e para a expansão do cristianismo.
O clamor de quem carece urgentemente de apoio assemelha-se ao do salmista: Estou derrotado e caído no chão; de acordo com a tua promessa, dá-me novas forças (Sl 119:25 – NTLH). Dificilmente, alguém nessa situação conseguirá reerguer-se sozinho. Pessoas assim precisam ser percebidas, compreendidas. No culto, há pessoas sofrendo a dor do preconceito, em razão de um pecado cometido no passado. É possível que isso acontecesse na época de Paulo. Por isso, ele foi enfático em afirmar: Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo (Gl 6:2).
Esse texto trata de problemas concernentes ao pecado. Quem é vítima deste precisa de apoio para levantar-se outra vez: Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falha, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura (Gl 6:1). Além das vítimas do pecado, as vítimas da perda, do abandono, do desânimo, da doença merecem ser percebidas (1 Ts 5:14). Jó é exemplo disso (Jó 2:11). Esse é, talvez, o problema de muitos cristãos, que, muitas vezes, têm dificuldade para perceber os problemas que o irmão ao lado esteja atravessando.
A falta de percepção é uma falha grave, mas a indiferença é um erro ainda pior. Saber que uma pessoa está com problemas e fazer “vistas grossas”, como se nada estivesse acontecendo, não é uma atitude cristã. Cantar o amor, sem procurar praticá-lo no culto, é perda de tempo. Não foi à toa que Jesus mencionou a parábola do bom samaritano. Um sacerdote e um levita, pessoas de quem se esperava um bom exemplo, agiram com indiferença, em relação ao homem necessitado (Lc 10:31,32). Mas o samaritano, vendo-o, compadeceu-se dele (Lc 10:33). Muitos dependem de atitudes semelhantes às daquele samaritano.
PRATICANDO A PALAVRA DE DEUS
Para apoiar as pessoas, é preciso escutá-las.
A Bíblia diz que há um tempo para cada coisa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu (Ec 3:1 – NBV). Quando fazemos as coisas “fora do tempo”, podemos prejudicar a nós mesmos e aos outros. Por isso, Deus determinou que há tempo de ficar calado e tempo de falar (Ec 3:7b). Uma pessoa em estado emocional delicado precisa ser ouvida. Muitas vezes, anseia por isso. Ao desabafar, ela expelirá do coração sentimentos que lhe causam angústia. Nesses momentos, os nossos ouvidos são muito úteis. Cristo ouviu o lamento de Marta: Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido (Jo 11:21 – NBV). Ouvir não significa concordar com o que a pessoa diz. Dependendo das circunstâncias, ela pode estar ressentida com alguém, por achar que este é culpado pela situação em que se encontra, mas pode estar equivocada. Nesses momentos, é melhor ser imparcial. Jesus, mais do que qualquer outra pessoa, sabia o que se passava no coração dos discípulos que viajavam para Emaús. Ele conhecia as dúvidas deles. Mas não se apressou a falar coisa alguma. Ele se dispôs a ouvi-los (Lc 24:19-24). Nós temos nos colocado à disposição do caído, do desanimado, do magoado e do desesperado para ouvi-lo? Escutá-los é, por si só, uma excelente maneira de apoiá-los, e o culto, uma oportunidade para isso.
Para apoiar as pessoas, é preciso compreendê-las.
Ouvir quem precisa desabafar é importante, mas não é tudo. Para que haja cura, é necessário, também, haver compreensão. Esse elemento é indispensável no processo de restauração de uma pessoa. Não há melhor modo de compreender alguém do que colocar-se no seu lugar. Caso contrário, a compreensão será suprimida pelo preconceito. Como é lamentável quando as coisas chegam a esse extremo! Não é essa a vontade de Deus, a quem cultuamos. Ele não faz acepção de pessoas (Ef 6:9). O mandamento bíblico para nós é: Levai as cargas uns dos outros (Gl 6:2). A Bíblia diz que devemos corrigir com brandura aqueles que estão caídos (Gl 6:1). Essa é uma característica de quem é, de fato, um cristão espiritual. Aquele que despreza, julga e condena a quem precisa de apoio não é espiritual, mas carnal. Portanto, tenha o cuidado de compreender as pessoas em crise, pois Cristo faz o mesmo por nós. Ele nos compreende e nos perdoa, apesar dos nossos pecados. Ele compreendeu a mulher que fora flagrada em adultério, perdoou a sua culpa e lhe deu outra chance (Jo 8:11). Aproveite o culto para se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12:15).
Para apoiar as pessoas, é preciso aconselhá-las.
Após escutar e compreender as pessoas cabe-nos ainda dar um terceiro passo: devemos aconselhá-las. A sabedoria divina observa que, como o óleo e o perfume alegram o coração, assim, o amigo encontra doçura no conselho cordial (Pv 27:9). Tomar decisões não é nada fácil, principalmente para quem está abalado psicologicamente. Nessas horas, o apoio por meio de um conselho bem pensado e bíblico cai bem. Como já foi mencionado, a palavra de Deus é a bússola que nos direciona em todas as áreas da vida. Por isso, quem seguir os conselhos nela contidos, jamais se arrependerá. Todos precisam de apoio. O diálogo é, sem dúvida, essencial para isso. A pessoa que se sente culpada precisa de conselhos que a estimulem a aceitar o perdão de Deus. Aqueles que sofrem a dor de uma perda carecem de consolo e encorajamento, que podem ser obtidos com a certeza da ressurreição de Cristo. Os que precisam tomar uma decisão importante devem ser incentivados a confiar na direção divina. Não nos esqueçamos: o bom conselheiro precisa saber usar as palavras certas, no tempo certo, para a pessoa certa, pois, como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo (Pv 25:11). No culto, apoiemo-nos uns aos outros com sábios conselhos.
CONCLUSÃO
A igreja de Cristo é um lugar em que buscamos apoio uns dos outros, a fim de superarmos as nossas crises. Para cumprir este propósito, precisamos nos ajudar, com base na palavra, com iniciativa, sem sermos negligentes quanto o problema alheio. Ao nos reunirmos para buscar apoio, devemos ter em mente que precisamos ouvir as pessoas, bem como compreendê-las e aconselhá-las. Cristo espera isso de nós.

Bibliografia
1. GETZ, Gene A. Um por todos, todos por um. Brasília: Palavra, 2006. pág.149


DEC - PCamaral

"Quão Grande é o Meu Deus", de Soraya Morais

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Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; Para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor. (I Corintios 1:26-31)

Gravado na Primeira Igreja Batista de Curitiba em 17/07/11 durante o culto da manhã. Jaqueline faz parte do ministério de Especiais, dirigido pelo Pr.Adoniran Melo, que apresenta essa parte. Canta "Quão Grande é o Meu Deus", de Soraya Morais.



Jaqueline é uma cadeirante muito especial e quem estava lá testemunhou que foi um momento tocante. O verdadeiro louvor vem do sacrificio de lábios que adoram ao Senhor…
Impossível não se emocionar… Mudar nossa visão.. Dando um fim em nossa murmuração.

Sejamos, então… adoradores!

Fonte: PavaBlog

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Teologia é do Capeta (!?!)

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Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Mas evita os falatórios profanos, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses roerá como gangrena; entre os quais são Himeneu e Fileto; Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns. Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade”. (II Timóteo 2:15-19) - ACF

Artigo publicado originalmente em Hermeneutica Particular

Por Vinicius O. S. Guimarães

O título deste artigo é propositalmente polêmico a fim de atrair para uma inquietante conversa dois grupos incomunicáveis que coexistem na Lavoura de Deus. De um lado, os que entendem que o estudo teológico prejudica a fé das pessoas e as tornam mais frias na igreja, para estes “teologia é do Capeta”; do outro lado do ringue estão os teólogos, que defendem ter na teologia a cura para o câncer eclesiástico que corrói as doutrinas bíblicas, para estes “teologia é de Deus”. Esta tentativa de dialética que se desdobrará nas linhas que se seguirão pode ser útil para entender as razões e os porquês de a teologia ser objeto de ódio para alguns e de esperança para outros. O simplista fato de rotular “do Capeta” ou “de Deus” não é suficiente para saciar a dúvida dos muitos evangélicos que povoam as igrejas tupiniquins. É preciso ir além, é necessário por um lado, sair da superficialidade determinista e do legalismo autocrático; e é necessário por outro lado sair do tecnicismo teórico e do superego do saber.

Teologia é do Capeta! Esta exclamação é pertinente quando se senta ao lado de pastores que tiveram suas igrejas dilaceradas por grupos de teólogos (e/ou seminaristas) que, no ímpeto de propagar as novas descobertas acerca do Evangelho em suas comunidades locais, se esqueceram de que enfiar guéla abaixo alimento sólido em quem só comia papinha é provocar reações tipo: rejeição, indigestão, quando não engasga e sufoca. Estes teólogos da indigestão se esquecem de que há tempo para tudo nesta terra (cf. Ec. 3), tempo inclusive para desconstruir heresias e tempo para construir o alicerce para o entendimento da verdade. É, portanto, passivo de compreensão quando se escuta pastores afirmarem serem contra o estudo teológico, pois uma teologia que não é capaz de produzir edificação aos cristãos e nem responder aos anseios sociais dos que os rodeiam não poderia ser chamada de teologia.

Teologia é do Capeta! É mais real para alguns líderes eclesiásticos acreditarem nesta proposição do que admitirem ser a teologia algo de Deus, pois alguns estudiosos da Bíblia se esquecem de que mais importante que saber o que é certo, é fazer o que é certo. Tristemente, há aqueles que são amantes do discurso, são estes os que têm solução para todos os problemas da igreja na pós-modernidade, mas nunca fazem nada em suas igrejas locais; são estes os que se sentam em suas cátedras teológicas e dali desmerece o esforço dos missionários/evangelistas que foram para as periferias, mas jamais ousaram sujar seus sapatos anunciando o evangelho aos pobres; são estes os que apontam o dedo, mas encolhem a mão. Por isto, não é mais tão estranho quando se ouve alguns grupos cristãos se posicionarem contra os teólogos afirmando serem estes os precursores da Besta, pois afinal de contas, as pessoas escutam mais o que fazemos do que o que falamos.

Teologia é do Capeta! Enfim, há alguns que preferem acreditar em tal alínea não por causa dos maus exemplos de alguns teólogos ou seminaristas, mas sim porque historicamente um povo sem instrução é mais fácil de ser manipulado. Para alguns mercenários da fé o fato de proibir os membros de estudar teologia é a maneira ideal de fazê-los não conhecerem a Verdade e viverem assim dependentes das pregações dominicais e da (des)orientação pastoral. Neste ambiente alienado uma afirmação do tipo, “teologia é do Capeta”, proferido pelo ditador eclesiástico é absorvida de forma plena, irrevogável e irracional pelas massas evangelicais. Para estes donos de igrejas a demonização dos cursos de teologia é a fuga perfeita para evitar pessoas críticas que não tolerarão a barganha espiritual e nem cederão ao canto da sereia dos que usam a igreja como meio de corrupção sacerdotal. A assombrosa realidade é que algumas igrejas se tornaram o ponto de encontro de pessoas que rejeitam suas faculdades intelectuais por erroneamente julgarem isto contrário ao pressuposto da fé, estes se tornam presas vulneráveis aos abutres da fé que se deliciam com o cheiro fétido da carniça eclesiástica.

Teologia é do Capeta? É no mínimo antagônico e completamente contrário admitir que o estudo teológico seja obra do Diabo, pois em linhas gerais a teologia é a ciência que se ocupa do estudo acerca de Deus e da sua relação com a criatura (i.e. homem). Como, então, poderia ser isto fruto do Maligno? O estudante da bíblia é por essência alguém com profunda sede de Deus e com demasiado interesse de melhor servi-lO na fraternidade da Igreja; estes são pessoas que escolheram atender o chamado de Deus e sendo assim intencionalmente optaram em se oporem ao mundo e seus prazeres a fim de honrar o Criador com suas vidas de forma racional e espiritual; estes são aqueles que sentiram tamanho constrangimento frente à obra salvífica de Cristo no Gólgota que não lhes restou outra resposta a não ser ofertar suas próprias vidas a fim de conhecer (leia-se interagir, imergir) mais dEle com o propósito único de agradá-lO, honrá-lO e reverenciá-lO.

Teologia é do Capeta? Como poderia ser, se a figura do teólogo é algo análogo à figura do apologista (defensor da fé) tão fortemente destacado no contexto do Novo Testamento. Ser teólogo é engrossar a fileira dos que lutam pela fé evangélica (Fp. 1:27) e fazem de seus discursos uma afronta aos que querem usar do Evangelho como fonte de enriquecimento em detrimento da boa fé dos fiéis; ser teólogo é ter a coragem de criticar os movimentos megalomaníacos que engorduram as estratégias de liderança para o crescimento de igrejas sem levar em consideração a genuína conversão como fator primordial para o ingresso destes na comunidade batismal. Ser teólogo é ousar não se calar frente às injustiças sociais provocadas pela sociedade capitalista, bem como pelas igrejas capitalistas, que insistem em usar do Evangelho como fonte de discriminação, racismo, preconceitos e demonização das classes sociais menos favorecidas.

Teologia é do Capeta? Definitivamente não é! Contudo, alguns por falta de conhecimento de causa são tendenciosamente levados a acreditar nesta mentira do Capeta. Alguns preferem endiabrar os teólogos, pois na verdade querem rejeitar o estudo (i.e. pensar), pois acreditam em uma fé subjetiva, mística e empírica, assim, encontram uma irracional religiosidade que configura no caminho perfeito para fugir da responsabilidade, da consciência e do raciocínio. O desafio do cristão é estar “...sempre preparado para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós...” – I Pe. 3:15. O texto é sumariamente importante, pois enfatiza a necessidade de se estar preparado, de ser capaz de responder com temor aos que questionam sobre a fé, e de estar apto a argumentar acerca da razão da esperança que fundamenta a crença. Postulados estes que só serão adquiridos por meio de uma metodologia intencional de estudo, mediante a dedicação acadêmica e de esmero na interpretação bíblica. É exatamente para isto que existem os seminários teológicos, ou seja, para formar cristãos que sejam teólogos, preparando-os para os desafios do presente século.

A igreja brasileira precisa urgentemente voltar a estudar a Palavra de Deus antes que seja tarde demais e cheguem dias em que os tupiniquins serão destruídos pela ira de Deus e os nossos sacerdotes serão rejeitados pelo Dono das Ovelhas (Ez. 34). Algo muito semelhante com o que houve no contexto de Oséias: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” – Os. 4:6. Então, o assustador/temor não é admitir, erroneamente, que teologia é do Capeta, mas sim que teologia é de Deus, pois sendo assim reportaremos nossa consciência, nossos discursos e nossas vidas a Ele, e “horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” – Hb 10:31. Por isto, para ser teólogo é necessário mais que aptidão acadêmica, é imprescindível ter reverência; é necessário mais que boa oratória, é imperativo vivenciar a Palavra; é necessário mais que a crítica, é mister se autocriticar; é necessário mais que discussões sobre Deus, é preciso conhecê-lO.

Então, “teologizai-vos”.

Que Deus nos ajude!

* Vinicius O. S. Guimarães é professor das áreas de teologia e administração, diretor do Seminário Evangélico de Teologia da América Latina (www.setal.org.br), presidente da Missão Tocando as Nações (www.mtn.org.br) e pastor da Comunidade da Fé – Igreja Cristã (www.cofe.org.br)

Fonte: Hermeneutica Particular compartilhado no PCamaral que é formado Bacharel em teologia e é de Jesus Cristo!