quinta-feira, 8 de março de 2012

Galardão: prêmio ou presente?

Publicado originalmente no blog Poeira de Ouro

Por Eudoxiana Canto Melo

Prêmio não é presente. Ninguém precisa conquistar nada para ser presenteado; mas, para ser premiado, sim. Presente é graça, e o que Deus nos promete é sempre graça, não prêmio. Neste sentido, precisamos entender melhor a ideia de galardão garantido por Jesus aos seus discípulos, entendido por muitos como uma recompensa ou um prêmio pelas boas obras.[1]

Galardão é presente de Deus pelo qual ninguém precisa pagar e que todo o esforço humano não pode merecer. Isso implica a anulação da ideia de recompensa. Mas, se insistirmos em entender galardão como prêmio, teremos de admitir que nosso esforço e nossas obras é que o garantem, o que se constitui uma negação da graça.

Por mais que, em alguns textos do Novo Testamento [2], as palavras traduzidas por galardão ou recompensa signifiquem pagamento, retribuição a alguém que fez por merecer, a mensagem do evangelho é que o ser humano jamais poderá merecer qualquer benefício divino, tanto no presente quanto no futuro, pois até mesmo a obediência sincera a Deus é graça que provém dele. Sendo assim, o que Jesus promete é uma dádiva, não um prêmio que conquistamos pelas nossas obras.

Deus nunca dará a qualquer de seus filhos menos que o melhor. E não há nada melhor e mais excelente que o próprio Deus. Ele apenas se doa; jamais se negocia. Sua presença é o nosso galardão presente, e vê-lo face a face será nosso galardão futuro. Nenhum discípulo receberá algo menor. Logo, quando Jesus se refere ao galardão de seus discípulos, está se referindo a si próprio, não a um pagamento ou um prêmio que depende do tipo de trabalho que fazemos ou do quanto nos esforçamos. É por isso que, na parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-15), todos recebem o mesmo valor, independentemente do tempo ou da intensidade do seu trabalho. Com isso, Jesus nos ensina que seu galardão não é recompensa, mas, sim, graça.

Entender galardão como presente liberta-nos para um relacionamento com Deus baseado no amor, não no desejo de uma recompensa; liberta-nos para um relacionamento com os semelhantes também baseado no amor, não numa pretensa superioridade em relação a eles, pois passamos a entender que somos igualmente amados por Deus, a despeito das nossas imperfeições e inadequações.

Galardão é presente porque graça é sempre graça, jamais recompensa. Não nos foi requerido mérito algum para que fôssemos salvos. Da mesma forma, não nos é requerido mérito algum para recebermos de Deus o que ele nos tem reservado, tanto no presente quanto no futuro, pois o Cristo que pagou a nossa dívida diante do Pai e garantiu que fôssemos aceitos gratuitamente como filhos de Deus é o mesmo que se constitui nosso galardão, nossa maior herança, hoje e sempre. Não há nada mais desejável que isso. Só precisamos aceitar sua generosidade.


[1] Galardão também é entendido como a paga que Deus dará aos injustos pelas suas obras más.
[2]Cf. Mt 5.12, 6.1; Mc 9.41; Lc 6.23,35; Hb 10.35; 2 Jo 8; Ap 22.12; etc.

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Fonte: Poeira de Ouro

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