sábado, 2 de junho de 2012

O Mal que Existe em Nós

Os piedosos desapareceram do país; não há um justo sequer. Todos estão à espreita para derramar sangue; cada um caça seu irmão com um laço.(Miquéias 7:2)

Por Alderi Souza de Matos

Em seu livro “Sociedade sem Pecado” (no original, “The Vanishing Conscience”), John MacArthur Jr. argumenta que o mundo moderno vem abandonando conceitos tradicionais como consciência, culpa, responsabilidade e arrependimento. O que antes era chamado pecado agora é tratado como ignorância, desajuste ou simplesmente doença. Tudo isso é acompanhado por uma ênfase na vitimização: indivíduos que cometem os mais graves delitos são considerados vítimas -- do sistema, da sociedade, de injustiças, de circunstâncias pessoais. Da perspectiva cristã, esse afastamento do diagnóstico bíblico sobre a natureza humana e o comportamento humano só pode acarretar consequências funestas para a sociedade, como tem acontecido tristemente em nosso país.

A tragédia da impunidade

Por causa da sua formação histórica, a cultura brasileira sempre foi tolerante, permissiva e pouco rigorosa com o erro. Nestes tempos pós-modernos de relativismo e ausência de absolutos, essa tendência tem se reforçado ainda mais. Isso se manifesta de diversas formas na vida social, a começar pela legislação. Nossas normas criminais são muito suaves em comparação com as de países mais avançados. De acordo com o Código Penal, ninguém pode sofrer pena de reclusão superior a 30 anos. Ao mesmo tempo, as filigranas jurídicas que permitem a redução da pena são tantas que indivíduos culpados de crimes bárbaros podem se livrar da prisão em poucos anos, muitas vezes para cometer novos delitos. Outras vezes, réus confessos ficam impunes por longo tempo, como aconteceu com o jornalista Pimenta Neves.

A própria atitude do Estado em relação ao criminoso minimiza a gravidade das transgressões. Ele é visto não como uma pessoa que de modo consciente e perverso violou o direito alheio à honra, à propriedade e a própria vida, e por isso deve ser punido severamente, mas como alguém que precisa de terapia, de “ressocialização”, de respeito aos seus direitos humanos. Enquanto isso, as vítimas de crimes violentos e suas famílias ficam entregues ao total esquecimento pelo poder público, muitas vezes com suas vidas inteiramente destroçadas. Percebeu-se a mesma síndrome do “brasileiro bonzinho” na impunidade escandalosa e sarcástica de que gozam muitos políticos, juízes e governantes. Essa certeza de que o crime compensa também é responsável pelo aumento desenfreado da criminalidade no Brasil.

Cristãos mimados

O principal objetivo do livro de MacArthur acima mencionado é mostrar como as próprias igrejas têm sucumbido à tendência pós-moderna de subestimar o pecado. Os pregadores pragmatistas, cujo alvo prioritário é atrair multidões para seus templos, já não ousam falar em pecado, culpa e juízo divino, pois isso desagrada e afasta as pessoas. É preciso, dizem eles, concentrar-se em temas positivos, que façam os frequentadores se sentirem bem. Daí o atrativo crescente da teologia da autoestima e a fascinação pela psicologia secular em círculos evangélicos. Em vez de serem exortadas a reconhecerem honestamente seus erros, se arrependerem e buscarem o perdão de Deus, as pessoas aprendem que devem perdoar a si mesmas, abandonar os sentimentos de culpa e cultivar maior amor-próprio.

Essa mentalidade tem produzido uma geração de crentes imaturos, semelhantes a crianças mimadas cujos erros são sempre justificados ou atenuados e cujas vontades são sempre satisfeitas, por mais egoísticas que sejam. O culto à autoestima e a vida cristã entendida primordialmente como satisfação de necessidades destrói a consciência, enfraquece a capacidade de evitar o pecado, impede a santificação e acaba por questionar o evangelho no que tem de mais essencial -- a necessidade de arrependimento genuíno e aceitação da graça perdoadora de Deus, com base no sacrifício de Cristo sobre a cruz, seguida de uma vida de compromisso com os valores espirituais e éticos do reino de Deus.

Escritura e história

Os escritores bíblicos tinham uma percepção realista da condição humana e da assustadora propensão da humanidade para o mal. No início do Gênesis se menciona a multiplicação da maldade na terra e o fato de que era continuamente mau o desígnio do coração humano aos olhos de Deus (6.5). No Salmo 51, o rei Davi faz uma sincera e implacável avaliação de sua própria pecaminosidade e de sua profunda carência de restauração. Jesus observa que as fontes da iniquidade estão nos recessos mais íntimos do indivíduo e não em fatores externos (Mc 7.21-22) e o apóstolo Paulo sentencia que os seres humanos não-regenerados estão simplesmente mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1-3). A boa teologia cristã tem procurado fazer justiça a essas afirmações inequívocas das Escrituras.

Foram essas convicções que levaram o bispo e teólogo Agostinho de Hipona a combater as ideias perfeccionistas e presunçosas de Pelágio, segundo o qual uma pessoa, caso assim decidisse, poderia viver uma vida sem pecado. Foram essas convicções que levaram João Calvino e outros reformadores a falar na “depravação total”, não no sentido de que nada existe de bom no ser humano, mas de que o pecado afetou drasticamente todos os aspectos e dimensões da personalidade. Essa noção biblicamente fundamentada da seriedade do mal que habita em cada um de nós é que levou a tradição reformada a insistir na importância da lei de Deus e da correta disciplina cristã para a saúde espiritual do povo de Deus.

Conclusão

O problema do mal no indivíduo e na sociedade não irá desaparecer fazendo-se de conta que ele não existe ou que não é tão grave. Os cristãos conscienciosos devem pressionar as autoridades civis para que, entre outros deveres, protejam os cidadãos honestos, reprimam com rigor as condutas delituosas e promovam a paz social. Por sua vez, os líderes religiosos precisam assumir o compromisso de anunciar “todo o desígnio de Deus” (At 20.27), o que inclui falar sobre a realidade do pecado e suas conseqüências, e a necessidade de conversão diária e de um viver ético. Adicionalmente, é preciso resgatar a disciplina como uma das marcas da igreja, não no intento de castigar ou marginalizar as pessoas, mas de imprimir nas consciências o desprazer de Deus pela transgressão de sua vontade e a importância de uma vida de obediência e integridade. Somente assim os evangélicos terão legitimidade para advertir e exortar nessa área tão decisiva os governantes e a sociedade em geral.

Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.
asdm@mackenzie.com.br

Fonte: Revista Ultimato compartilhado no PCamaral

Um comentário:

  1. Excelente texto, uma riqueza a qual deixou-me curiosa a cerca do livro.
    São coisas simples e verdadeiras, mas teimamos em querer tirar de nossos ombros a culpa pelo nosso pecado, aliás nem mesmo essa palavra gostamos de pronunciar, ela causa um peso que não queremos carregar e nem nos livrar dele

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