quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pregando como o diabo

Por Russell D. Moore

Russell Moore
O diabo é um pregador. Do terceiro capítulo da Bíblia em diante, ele está abrindo a Palavra de Deus para as pessoas, procurando interpretá-la, aplicá-la, para oferecer um convite. A velha Serpente do Éden vai em direção à primeira mulher não como uma fumaça negra e símbolos ocultos, mas com a Palavra que ela recebeu do Deus dela – com a peculiar interpretação distorcida da serpente. Em todo o restante dos livros da Bíblia ele faz o mesmo, implicita ou explicitamente.

Em todo o Velho Testamento, ele prega a paz – assim como fazem os anjos de Belém – só que ele faz quando não há paz. Ele aponta a povo de Deus para os detalhes da adoração ordenada por Deus – sacrifícios, ofertas e dias de festa – apenas sem os preeminentes mandamentos de amor, justiça e misericórdia. Satanás até prega a Deus – sobre os próprios motivos necessários para um discipulado piedoso por parte dos servos de Deus.

No Novo Testamento, a ilusão satânica leva os escribas, fariseus, e saduceus a olhar atentamente e constantemente os textos bíblicos, mas esquecendo que eles apontam para Jesus Cristo. Eles chegam à conclusões que têm fundamentos parcialmente bíblicos – as mensagens do diabo são sempre expositivas; eles apenas evitam Jesus intencionalmente.
Assim, os escarnecedores se sentiram completamente a vontade perguntando como um homem que veio de Nazaré poderia ser o Messias, quando o Rei viria Belém. Eles se questionam como o Filho do Homem pôde ser crucificado quando a Bíblia diz que ele vive para sempre. Quando Jesus diz que aqueles que o seguem devem comer o seu corpo e beber o seu sangue, há uma pouca dúvida que o Inimigo estava lá para apontar para as multidões sobre a proibição de Levítico acerca do consumo de sangue humano. Quando a multidão inspirada por Satanás crucificou Jesus, eles fizeram isso apontando para textos bíblicos que falavam sobre a execução de blasfemadores e insurgentes (Deuteronômio 21).

Quando a Igreja primitiva extrapolou os limites de Jerusalém, Satanás está lá, com falsos ensinamentos, para pregar todos os tipos de coisas que parecem estar de acordo com a Palavra de Deus – da libertinagem ao legalismo passando por espiritualidade exacerbada e carnalidade. Ele nunca para de pregar.

Falsos ensinamentos são enfadonhos

Mas o diabo é enfadonho. Isso parece exatamente o contrário do seria verdade sobre Satanás. Pensamos no tentador – e em suas tentações – como sombriamente excitantes, tentadores, aparentemente irresistíveis.

Mas isso não é o que acontece. O falso ensinamento nas Escrituras – e nas igrejas de todos os tempos – é enfadonho. Leia as exposições dos conselheiros de Jó – e compare com a proclamação de Deus no final do livro de Jó. Leia o que Balaão foi pago para pregar comparado com o que ele anunciou através do poder do Espírito.

Pregação satânica é enfadonha porque o objetivo não é envolver as pessoas com a pregação. É deixar os “desejos da carne” em paz, para que os ouvintes possam continuar em seus cativeiros para o príncipe das potestades do ar.

Para alguns, sermões inertes são um sinônimo de piedade.

Afinal, o Apóstolo não nos adverte sobre “um discurso eloquente” (1 Coríntios 2:1)? Mas o tipo de retórica que Paulo está criticando aqui não é excitante – era a moda na época em que a retórica grega estava em todo lugar. Paulo não contrasta o discurso comprometido com o discurso inerte, mas a demonstração de habilidade humana com a “demonstração do Espírito e do Poder” (1 Coríntios 2.5). De fato, o que Paulo diz em sua mensagem é “Sabedoria de Deus, do mistério que estava oculto”(1 Co 2.7), a descoberta de um antigo mistério que revela o significado de tudo.

Jesus, muitas vezes, foi mal recebido – mas ele nunca cansava. Quando dele pregava, demônios gritavam, multidões ofegavam, e cultos, às vezes, terminam com tentativas de execução ao invés de apelos. Os profetas antes dele e os apóstolos depois dele eram assim também. Eles provocavam gritos de felicidade ou mandados de prisão, mas nunca incitavam bocejos.

Se pessoas perdidas não gostam de sua mensagem porque elas são hostis ao evangelho, você está no caminho certo. Mas se você está cansando o povo de Deus com a Palavra de Deus, alguma coisa está seriamente errada. Pode ser que você esteja pregando como o diabo, e nem sequer sabe disso.
Se você está cansando o povo de Deus com a Palavra, pode ser que esteja pregando como o diabo, e nem sabe disso.
Ouvir de Cristo não é enfadonho

Às vezes, pregadores aborrecem porque não entendem a natureza das Escrituras. A Bíblia, afinal, prende não somente o intelecto, mas também as afeições, a consciência, a imaginação. Por isso o cânon inclui histórias e parábolas, poesia e provérbios, cartas e visões. Sermões inertes muitas vezes traduzem a variedade cativante da Escritura em um tédio chato de um discurso acadêmico ou a chata banalidade de um manual de “como fazer”.

Então, se você se encontra traduzindo um salmo dentro da estrutura de uma epístola de Paulo antes de pregá-lo, você não está deixando a Escritura fazer o seu trabalho de fascinar o coração do povo. E você não entende o significado do texto – um significado que é mais do que um simples ajuntamento de ideias.

Nem mesmo a mais diretas e rigorosamente doutrinárias passagens da Escritura são apenas intelectuais. Os apóstolos são pregadores visuais. Paulo fala de arrancar os olhos (Gálatas 4.15) e de dar o seu corpo para ser queimado (1 Coríntios 13.3), e ele se compara a uma mãe que amamenta (1 Tessalonicenses 2.7). Tiago escreve de uma língua em chamas (Tiago 3.6) e de corações fartos como em dia de abate (Tiago 5.5).
A revelação bíblica está longe de ser enfadonha. É a mais excitante e envolvente história imaginável, e é por isso que é uma influência tão grande nos épicos, no teatro, na poesia e na música.

Pregadores que deveriam ter raiva desse tédio podem começar a ouvir o poder literário do texto. Isso significa, por exemplo, aprender a formar uma imaginação moral que pode ser inflamada pelas escrituras. Pelo bem da sua congregação, limite seu tempo de televisão e pare de navegar na Internet por horas a fio. Leia uma boa ficção e alguma poesia, e ouça o que as histórias têm a dizer – e assim, forme uma imaginação que reconhece estrutura, beleza, e coerência literária.

Confrontar o Diabo não é enfadonho

Alguns pregadores aborrecem porque entendem mal a natureza rebelde do homem. Sermões são chatos normalmente porque, no melhor dos casos, se baseiam em abstrações, o no pior deles, em clichês e chavões batidos. Ideias abstratas podem facilmente estar distantes do pecado do homem – e frases de efeito e slogans reciclados são familiares demais para intimidar. Satanás ama pregações assim, porque isso deixa a sua autoridade sobre a rebeldia humana livre de ameaças.

Isso é o que é frequentemente mal entendido sobre a pregação “coceira nos ouvidos” que o Apóstolo Paulo avisa a Timóteo (2 Timóteo 4:3). O que excita os ouvintes apóstatas é o ensino “para atender às suas próprias paixões”. Eles estão apaixonados por seu pecado, e os mitos que o suportam. Eles querem ensinamentos calmantes, monótonos e chatos – do tipo que os deixarão em paz.

Muitas vezes o pecado tem sido deixado em paz menos pelos pregadores que aprovam o pecado de púlpito do que pelos pregadores cujos sermões são tão vagos e abstratos que os ouvintes são capazes de se esquivar da força da proclamação. Como Saul que se convenceu que tinha conseguido o comando de Deus para destruir “todas” as propriedades dos Amalequitas (1 Samuel 15), todos nós estamos propensos a nos esquivarmos da natureza perspicaz da proclamação bíblica. Vagas abstrações não expõe a consciência. Não é o suficiente dizer, “Maridos, amem as suas esposas”; em vez disso, nós devemos apontar o que isso se parece, com a concreta aplicação, e o que isso não é.

Isso também significa que nós devemos reconhecer que nossa pregação é sempre subversiva. Toda palavra pregada é um subterfúgio na batalha espiritual contra o maligno. Devemos, então, ser como o Apóstolo Paulo, aprendendo a não ser “ignorantes em suas intenções” (2 Coríntios 2.11).

O Profeta Natã entende que as vagas abstrações não iriam expor a consciência do Rei Davi. Davi, afinal, sabe que adultério é errado; ele só acha que é justificado nisso, ou que não é adultério se o rei que o faz, ou milhares de outras possíveis desculpas. Natã ignora a auto-proteção de Davi fazendo-o concordar com o erro de um homem que rouba uma ovelha – e depois volta o holofote acusador para o monarca como agressor.
Jesus faz a mesma coisa. Ele mostra como seus ouvintes estão fugindo do texto – contraditando-os com a ideia de ser um irmão de um Samaritano, ou perguntando como demônios podem expulsar demônios, ou mostrando aos Saduceus que negavam a ressurreição como são ridículos quanto à ressurreição que não se enquadra sequer com a sua própria leitura de Moisés.

Os apóstolos dão continuidade a esse tipo de pregação. Pedro o amor de seus ouvintes pela aliança de Davi – e assinala que eles poderiam desenterrar o cadáver de Davi se quisessem, mostrando que as promessas pertenciam ao seu Maior Filho. Paulo mostrou aos Atenienses como eles realmente não acreditavam no que eles diziam que acreditavam sobre deuses desconhecidos e adoração a ídolos.

Rompendo as Fortalezas

A melhor maneira de despistar o maligno é antecipar como o poder dele procurará contrariar a sua pregação. É útil para mim, quando estou me preparando para pregar, pensar em todas as maneiras que o meu próprio coração tenta se esquivar da verdade do texto. Certa vez, quando estava estudando para pregar uma bem aventurança, percebi que estava tratando o texto exatamente como um liberal iria tratar uma passagem proibindo mulher no ministério pastoral: “Bem, não há como significar isso, o que parecer dizer, então…”

Quanto mais você conhece do seu povo, suas lutas e triunfos, e quanto mais você conhece da natureza humana, melhor você sabe como pregar sermões que podem romper as fortalezas e ganhar atenção. O que não garante que as pessoas vão gostar do que você vai dizer, mas isso ajuda a garantir que eles vão ouvir o que foi dito.
Da mesma forma, lembre-se que você está falando de Cristo. Há uma paixão e uma gravidade que deve vir com o fato de estar no lugar do Único ao qual foi concedida toda autoridade.

Um sermão de despejo de informação – com um PowerPoint esboçando pontos, sub-pontos, sub-sub-pontos – podem “seguramente” afastar as pessoas de Cristo. Um sermão que simplesmente reúne e regurgita o que você leu em comentários pode fazer da Palavra de Deus uma questão de cognição, não de submissão. Uma lista remendada de dicas para a vida podem fazer facilmente que seu povo ignore a Palavra, assim como eles ignoraram o plano de perder peso dos comerciais na televisão ou nas campanhas publicitárias de fio dental que eles vêem da cadeira do dentista

O diabo não se importa com sermões enfadonhos, contanto que você permita que ele pregue também. Ele não se importa que a Palavra seja ouvida, contanto que sejam os desejos que animem o povo. E ele não se importa que o evangelho avance, contanto que o povo de Deus ouça as acusações dele (e todas elas são expositivas e biblicamente baseadas!).

Mas se você agarra as pessoas com o drama do Evangelho de Cristo, se você choca eles para verem a antiga novidade da Palavra de Deus, então você terá uma insurreição demoníaca em suas mãos.

Você prega verso por verso do texto? Você faz bem. Os demônios pregam também – e eles são enfadonhos.

Traduzido por Marianna Brandão | iPródigo.com | Original aqui
Fonte: iPródigo.com compartilhado PCamaral

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