domingo, 22 de julho de 2012

Deus Espera por Nossas Orações - O Exemplo dado por Jesus Cristo

Orai sem cessar. Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. (1 Tessalonicenses 5:17-18)

Publicado originalmente em Revista Ultimato

“Eu e o Pai somos um”, disse Jesus aos judeus no Pórtico de Salomão (Jo 10.30). Apesar da completa intimidade com o Pai, Jesus era um homem de oração? A resposta, a mais explícita possível, é da lavra daquele que escreveu a Epístola aos Hebreus: “Durante a sua vida aqui na terra, Cristo, em alta voz e com lágrimas, fez orações e súplicas a Deus, que o podia salvar da morte. E as suas orações foram atendidas porque ele era dedicado a Deus” (Hb 5.7).

Só no último dia de vida (um dia antes da Páscoa dos judeus - celebrada dia 14 de abibe), Jesus orou três vezes: no Cenáculo, no Getsêmani e no Calvário. Na sala ampla e mobiliada, ele orou pelos discípulos e por aqueles que creriam nele: "E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim;" (Jo 17:20). No Getsêmani, Jesus orou por ele mesmo: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice” (Mt 26:39). Na cruz, das sete palavras ali proferidas, três foram orações: a primeira, em favor daqueles que o crucificavam (“Pai, perdoa-lhes”); as outras duas, em favor dele mesmo (“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” e “Pai, nas tuas mãos entrego meu Espírito!”).

Além das orações feitas na cruz, o Evangelho de Lucas menciona a vida de oração de Jesus em cinco passagens:

5.16 -- Mas Jesus retirava-se para lugares solitários e orava.
6.12 -- Num daqueles dias, Jesus saiu para o monte a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.
9.18 -- Certa vez Jesus estava orando em particular, e com ele estavam os seus discípulos.
9.28 -- Aproximadamente oito dias depois de dizer essas coisas, Jesus tomou consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar.
11.1 -- Certo dia Jesus estava orando em um determinado lugar.

A esta lista, deve-se acrescentar a passagem de Marcos 1.35: “De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa e foi para um lugar deserto, onde ficou orando”. Não se diz que Jesus orava naqueles horários rígidos de oração, pela manhã, ao meio-dia e à tarde (Sl 55.17; Dn 6.10). Ele orava mais durante a noite do que durante o dia, mais nas montanhas do que em outro lugar. Uma coisa é certa: as orações do Senhor não eram rotineiras e cheias de vãs repetições.

Influenciado pela vida de oração de Jesus, um dos discípulos lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou os discípulos dele” (Lc 11.1). Foi nessa ocasião que Jesus ofereceu o modelo universal da oração dominical e discorreu sobre a perseverança na oração e sobre a boa vontade de Deus em nos ouvir e responder (Lc 11.2-13). Há uma relação das orações de Jesus com os acontecimentos anteriores ou posteriores que o envolviam, como se pode ver nos textos que as seguem ou antecedem.

Jesus ora antes de iniciar seu ministério: Imediatamente após o batismo e antes de iniciar o ministério, Jesus passa quarenta dias em jejum e oração no deserto. Para conciliar a narrativa de Mateus, segundo a qual a tentação teria acontecido depois dos quarenta dias (Mt 4.2), com as narrativas de Marcos e Lucas, segundo as quais ela teria acontecido durante os quarenta dias, conjectura-se que Jesus teria sido tentado o tempo todo e que as três tentações específicas seriam o clímax do processo.

Depois do batismo e da tentação, Jesus estava pronto para iniciar o ministério. O longo silêncio entre a apresentação no templo (Lc 2.21-40) e estes dois acontecimentos, interrompido apenas pelo encontro de Jesus, quando ele tinha 12 anos de idade, com os mestres do templo (Lc 2.42-50) durou trinta anos.

Quarenta dias de jejum, oração e tentação é um período muito longo (960 horas). Jesus foi levado ou impelido para o deserto pelo Espírito Santo (Mt 4.1; Mc 1.12; Lc 4.1). Lucas acrescenta que o Senhor estava cheio do Espírito (Lc 4.1). Foi um tempo de estranhas plenitudes -- plenitude de Espírito, plenitude de jejum, plenitude de oração e plenitude de tentação. Agora, Jesus deixará a carpintaria, a mãe (certamente viúva) e os irmãos para dedicar-se integralmente ao ministério. Foi uma mudança brusca quanto ao cenário, à movimentação e à ocupação. Agora, Jesus conviverá diretamente com o ser humano, suas complicações, enfermidades, problemas, maldades e carências. Agora, Jesus atenderá pessoas em toda parte e não terá tempo suficiente para comer (Mc 6.31) nem onde reclinar a cabeça (Mt 8.20). Agora, Jesus lidará com o legalismo de alguns e com a hipocrisia de outros. Agora, curará toda sorte de doenças, expulsará demônios e ressuscitará mortos. Agora, transformará água em vinho, multiplicará pães e peixes e acalmará tempestades. Agora, perdoará pecadores e pecadoras, pregará o arrependimento e a chegada do reino dos céus nas três províncias (Judeia, Samaria e Galileia), dos dois lados do rio Jordão. Agora, escolherá algumas pessoas para estar com ele, para comer com ele, para viajar com ele, para ser testemunhas dele e para continuar a sua obra. Enfrentará a oposição, o escárnio, a perseguição, as ameaças de prisão e morte. Agora, Jesus se aproximará lentamente da cruz.

O elo entre a infância, a adolescência e a mocidade silenciosas e a manifestação pública é o deserto e tudo o que ele significa. O prelúdio de seu ministério foram os quarenta dias de oração.

Jesus ora antes de escolher os doze apóstolos: Com incrível simplicidade, o Evangelho de Lucas informa que “num daqueles dias, Jesus saiu para o monte a fim de orar, e passou a noite toda orando a Deus” (Lc 6.12). Essa é a passagem mais explícita sobre o hábito de Jesus de passar uma noite inteira em oração. Embora tenha orado no deserto (no início de seu ministério) e no Getsêmani, um lugar cheio de plantas e oliveiras (no último dia de vida), segundo os relatos bíblicos, Jesus orava mais nas montanhas.

Por que Jesus, nessa passagem, passa a noite orando, sem dúvida sozinho, como das outras vezes? Como na manhã seguinte ele escolheria os doze apóstolos e pregaria o sermão da planície (uma provável repetição resumida do Sermão do Monte), tudo indica que o momento demorado de oração era o preparo necessário para as atividades que se iniciariam.

Além de precisar de auxiliares, Jesus precisava de testemunhas oculares de seu ensino, de seu ministério, de sua morte e de sua ressurreição e também de substitutos. De pessoas que estivessem com ele desde o batismo de João até o dia em que seria elevado às alturas (At 1.22). De pessoas que dessem continuidade à pregação de arrependimento e da chegada do reino dos céus. De pessoas convictas de sua ressurreição e dispostas a anunciá-la com entusiasmo e destemor.

Aquela manhã teria uma importância histórica enorme. O corpo docente e regente da igreja primitiva seria escolhido depois da noite de oração. Um dos apóstolos, Tiago, seria morto logo depois do Pentecostes. Pedro e João fariam os primeiros discursos e enfrentariam os primeiros desafios. Dois deles, Mateus e João, escreveriam o primeiro e o último Evangelhos (na ordem do Novo Testamento). O mesmo João escreveria as três cartas que levam o seu nome e o Apocalipse. Pedro escreveria duas cartas. Dos 260 capítulos do Novo Testamento, 86 (33%) seriam escritos por aqueles simples pescadores chamados para serem apóstolos. Pelo menos dois deles, segundo a tradição, seriam notáveis missionários transculturais: Tomé organizaria uma igreja cristã na Índia e Judas, filho de Tiago, morreria como mártir na Síria.

A partir daquela manhã, Jesus começou a unir em uma família doze homens de profissões e temperamentos diferentes. Um deles, Mateus, era cobrador de impostos; outro, Simão, o zelote, era membro de um partido político contrário ao pagamento de impostos. Um deles, Pedro, era otimista e outro, Tomé, pessimista, como lembra William Hendriksen. Jesus sentiu necessidade de passar uma noite inteira em oração para escolher entre os discípulos doze para serem apóstolos. Talvez também para pregar o chamado Sermão da Planície, naquele mesmo dia e lugar: “Jesus desceu com eles e parou num lugar plano” (Lc 6.17). Apesar de não ter dormido na noite anterior!

Jesus ora depois da morte de João Batista: Logo após darem sepultura ao corpo sem cabeça de João Batista (a cabeça fora tirada no cárcere, colocada em um prato, entregue a uma jovem chamada Salomé e levada para Herodias, amante de Herodes), seus discípulos foram ao encontro de Jesus e lhe contaram tudo. “Ao saber o que tinha acontecido, Jesus saiu dali num barco e foi sozinho para um lugar deserto” (Mt 14.13).

Essa volta ao deserto era para estar na presença de Deus de modo especial à vista do que havia acontecido com o filho de Isabel, parenta de Maria, e do sacerdote Zacarias. Além de parente, João Batista era o precursor de Jesus e o cumprimento da profecia de Isaías. Poucos dias antes, Jesus havia dito: “Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista” (Mt 11.11). Jesus foi atingido em cheio por esta violência cometida contra João e precisou estar a sós com Deus para orar. Daí a pequena viagem de barco atrás de algum descampado do outro lado do lago.

No entanto, o lugar não estava deserto. Uma grande multidão de sofredores o esperava na praia na esperança de ser socorrida por ele. Por estar também em sofrimento, Jesus teve compaixão deles e adiou o momento a sós com Deus. Ele gastou o dia inteiro ensinando, curando e alimentando aquelas pessoas (cerca de 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças). Ao entardecer, Jesus despediu as multidões e “insistiu com os discípulos para que entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado” (Mt 14.22).

Então Jesus subiu sozinho a um monte para orar. Não se sabe o que ele falou com Deus. Talvez não tenha pedido nada. Talvez tenha apenas chorado e derramado o coração como água perante ele (Lm 2.19). Talvez tenha dado graças, pois mesmo abatido havia conseguido confortar a multidão. Talvez tenha agradecido pela vida e ministério de João Batista. Talvez tenha lamentado a miséria humana. O fato é que o período de oração não foi curto. Jesus orou do pôr do sol à meia-noite e da meia-noite à quarta vigília da noite (entre três e seis horas da manhã).

Ao sentir-se refeito, Jesus foi ao encontro dos discípulos, que já haviam remado cerca de cinco ou seis quilômetros. Ele foi andando por sobre a superfície líquida do lago da Galileia, o que os assustou. A oração bem feita é sempre um refrigério, que acalma e recompõe o coração de quem quer que seja. É possível relaxar durante a oração e depois dela.

Jesus ora antes do episódio da mulher adúltera: Quem organizou a Bíblia em capítulos e versículos não deveria ter separado a frase que aparece no final do capítulo 7 da que vem no início do capítulo 8 de João. Elas poderiam ter ficado juntas em um dos dois textos. Trata-se da explicação: “Então cada um foi para a sua casa. Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras” (Jo 7.53–8.1, NVI). A Nova Tradução na Linguagem de Hoje coloca a frase toda no capítulo 8.

O capítulo 7 de João termina com o encontro dos guardas do templo com os chefes dos sacerdotes, alguns fariseus e Nicodemos (Jo 7. 15-52). Quando acabou a reunião, “cada um foi para sua casa” ou “cada qual para o seu lado” (BP). Porém, Jesus, que estava no templo, não foi para casa, mas para o monte das Oliveiras — um monte arredondado, de 830 metros de altura, de onde se podia ver panoramicamente o templo. Já era tarde. O capítulo 8 narra que “ao amanhecer Jesus apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reunia ao seu redor” (Jo 8.2).

O que Jesus fez no monte das Oliveiras a noite toda? Se ele não foi para casa de Maria, Marta e Lázaro, perto dali, a resposta mais viável é que o Senhor, sozinho, tenha passado a noite em oração, como estava acostumado a fazer (Lc 22.39).

Durante aquele dia, o último e mais importante dia da Festa dos Tabernáculos, Jesus teve a ousadia de levantar-se no templo e declarar em alta voz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, de seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37, 38). Naquele mesmo dia, os guardas do templo receberam ordens para o aprisionar, o que não conseguiram, “porque a sua hora ainda não havia chegado” (Jo 7.30).

Talvez Jesus tenha se preparado em oração para o episódio da manhã do dia seguinte. Ele estava ensinando o povo reunido ao seu redor quando, na presença de todos, os mestres da lei e os fariseus introduziram uma mulher surpreendida em adultério e a colocaram diante de todos. Era uma armadilha muito bem elaborada para gerar uma prova contra Jesus. Eles queriam saber a opinião dele, se a mulher deveria ser apedrejada como ordenava Moisés ou não. Aprovando o apedrejamento, os acusadores colocariam o Senhor contra César; caso contrário, contra a lei de Moisés. Dessa vez eles apanhariam Jesus e o entregariam ao Sinédrio ou ao governador romano. A princípio, Jesus não deu atenção aos seus acusadores e, abaixando-se, começou a escrever ou desenhar qualquer coisa na areia ou na poeira do chão. Como eles insistissem na fatídica pergunta, Jesus levantou-se solenemente e respondeu com uma autoridade impressionante: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra nela” (Jo 8.7). Dito isso, inclinou-se novamente e continuou o que estava fazendo. De repente, houve uma debandada geral, a começar pelos mais velhos. Todos saíram, e eram muitos; havia não só os acusadores (os mestres da lei e os fariseus), mas também o povo que estava lá para ouvi-lo (Jo 8.2). Não se menciona a presença de nenhum dos apóstolos. Os únicos a permanecer no local foram Jesus e a mulher. Então, ele se pôs de pé outra vez e perguntou à adúltera: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”. A mulher, ainda surpresa e emocionada, respondeu: “Ninguém, Senhor”. Jesus pronunciou, então, uma de suas frases mais conhecidas e citadas: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado.” (Jo 8.11).

O sucesso de Jesus foi enorme, marcante e público. E repercute até hoje, embora não poucas pessoas memorizem e propalem apenas a primeira metade das palavras dele (“Eu também não a condeno”), e não a parte final (“Agora vá e abandone sua vida de pecado”). Se Jesus passou uma noite inteira em oração apenas por causa desse incidente, valeu a pena.

Jesus ora antes da cruz: Finda a longa reunião realizada no Cenáculo em Jerusalém na noite que antecedeu a Páscoa dos judeus, após o cântico de um hino. Jesus vai com os discípulos para um lugar chamado Getsêmani, que fica a leste de Jerusalém, no monte das Oliveiras. Ao chegar ali, ele diz com toda franqueza: “Sentem-se aqui enquanto vou ali orar” (Mt 26.36). Acabou não indo só, mas levando consigo três dos mais íntimos apóstolos, Pedro, Tiago e João. A essa altura, Jesus começou a entristecer-se e a angustiar-se e se abriu com eles: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal” (Mt 26.38).

Sem dúvida, esse foi o momento mais difícil de toda a sua vida. Não sabemos se Jesus chorou, como aconteceu antes na casa de Lázaro e à entrada de Jerusalém. Porém, sabemos que naquela enorme prostração, o seu suor se tornou em “gotas de sangue que caíam no chão” (Lc 22.44). Em linguagem médica, o que aconteceu foi uma hematidrose, uma dilatação dos vasos capilares subcutâneos, que fez com que eles se rompessem. William Hendriksen, erudito de convicções reformadas e doutor pela Universidade de Princenton, explica que “quando isso ocorre nas proximidades das glândulas sudoríparas, como quase sempre acontece, o sangue e o suor se misturam na transpiração. Isso pode acontecer em grande parte do corpo. As grossas gotas ou coágulos de sangue, que tingem de vermelho as gotas de suor, escorrem ao chão”.

É difícil mencionar exatamente o que provocou em Jesus essa “tristeza mortal”. Deve-se levar em conta que ele era um ser humano como qualquer outro, mesmo tendo uma natureza divina. Ele tinha plena consciência de tudo o que aconteceria naquele dia, desde o beijo de Judas à debandada dos discípulos e da tríplice negação de Pedro à prisão, às varadas, aos açoites, à irreverência, à zombaria, à fraqueza de Pilatos, ao peso da cruz e à crucificação. Jesus tinha consciência de que sua hora havia chegado e de que ele não poderia oferecer resistência a ela. É bem provável que lhe tenham vindo à memória os lances de seu sofrimento descritos profeticamente no Salmo 22 e em Isaías 53. Entre outras coisas, nessas duas porções do Antigo Testamento, diz-se que Jesus seria objeto de zombaria, que suas mãos e pés seriam perfurados, suas roupas, sorteadas, que ele seria desprezado e rejeitado, esmagado e castigado, oprimido e afligido, levado para o matadouro e eliminado da terra dos viventes. O mais incrível e o mais dolorido é que ele seria “por Deus [mesmo] atingido e afligido” (Is 53.4), já que havia tomado sobre si as iniquidades humanas.

Pouco depois de se retirar do grupo maior, em um primeiro momento (André, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu e Simão, o zelote, e outros), Jesus se retirou do grupo menor, em um segundo momento (Pedro, Tiago e João), para, em um terceiro, ficar só, um pouco mais adiante. Tinha o hábito de ficar sozinho em certos momentos. Trata-se de uma necessidade pessoal, uma estratégia que lhe era favorável.

Uma vez a sós com Deus, Jesus prostrou-se com o rosto em terra e fez a oração mais submissa de que se tem notícia: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero [na presente circunstância], mas sim como tu queres”. Essa foi a última e a pior de todas as tentações a que Jesus esteve sujeito. A vontade dele sempre foi “tirar o pecado do mundo”. Exatamente para esse momento e para essa missão — de dar a sua vida pelas ovelhas (Jo 10.11) — ele viera (Jo 12.27). A tentação foi vencida por meio da oração. O que aconteceu no Getsêmani evidencia o versículo mais conhecido da Bíblia: “Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

A tentação não foi branda nem de curta duração. Outras duas vezes e no mesmo lugar, a mais ou menos trinta metros do ponto onde estavam os discípulos, Jesus fez a mesma oração. Enquanto isso, um anjo do céu veio ao seu encontro e o fortaleceu com a vitória sobre a tentação. Jesus se recompõe e enfrenta com absoluta firmeza os sofrimentos pelos quais deveria passar daquele momento até a hora da sua morte, mais de dez horas depois.

A profanação da oração: Embora muito em voga, a profanação da oração é um problema antigo. Não há outra pessoa que trate tão energicamente o assunto quanto Tiago, na carta aos judeus convertidos e espalhados “pelo mundo inteiro”, escrita por volta do ano 70 depois de Cristo. Esses cristãos eram ambiciosos. “Queriam muitas coisas”, esforçavam-se para obtê-las a qualquer custo (“estão prontos até para matar para consegui-las”), mas continuavam “de mãos abanando”, pois não recorriam à oração. E, mesmo orando, a situação não mudava, porque os pedidos deles não visavam nada além dos próprios prazeres. As orações que faziam eram tipicamente consumistas, giravam em torno de coisas e não de valores, engrossavam o ter e não o ser. O ideal de felicidade desses cristãos era gastar, dissipar, esbanjar e consumir. Eram orações anticristãs à vista das bem-aventuranças do Sermão do Monte (Mt 5.1-12) e da única palavra de Jesus que não está nos Evangelhos, mas no discurso de Paulo aos presbíteros de Éfeso: “É mais feliz quem dá do que quem recebe” (At 20.35).

Tiago encerra a exortação chamando-os de adúlteros, pois eram semelhantes à esposa infiel que ama os inimigos do marido. E por amarem os prazeres do mundo, que Deus não ama, tornavam-se inimigos de Deus. Seria melhor que esses consumistas se submetessem ao Senhor e resistissem ao diabo, o qual, por sua vez, os deixaria em paz. Eles deveriam lavar as mãos, limpar o coração, entristecer-se por estarem em um nível tão baixo de espiritualidade e se humilhar diante do Pai. Então seriam levantados, animados e ajudados por Deus (Tg 4.1-10)! A profanação da oração é um pecado grave. Pois Deus não abriu a porta da oração para nos afastar dele e levar-nos à secularização, ao materialismo, ao consumismo e, consequentemente, à apostasia.

Os cristãos que têm coragem de orar por uma casa na cidade, na praia e nas montanhas e por um carro zero quilômetro e importado estão profanando a oração e são inimigos de Deus!

A oração é uma questão de lógica: Há pelo menos quatro passagens bíblicas que demonstram que seria estranho se Deus não se dispusesse a ouvir nossas orações. Duas delas dizem que Deus não é um “deficiente” físico — não tem mão curta, não é surdo nem mudo.

“Seria curta a minha mão, curta demais para libertar? Será que eu não teria energia para livrar?” (Is 50.2).

“Vocês estão pensando que o Senhor perdeu a força e não pode mais nos salvar? Ou pensam que ele está surdo e não nos pode ouvir?” (Is 59.1).

Outra passagem pergunta se aquele que formou a orelha — o conduto auditivo externo, a cera e os pelos do ouvido, que não deixam a poeira e os insetos alcançar o ouvido médio, o tímpano e os três ossículos móveis (o martelo, a bigorna e o estribo), a trompa de Eustáquio e outros componentes da audição — não seria capaz de ouvir o que o ser humano pede: “Se foi o Senhor que formou o ouvido, será que ele não pode ouvir? Se foi o Senhor que formou o olho, será que ele não pode ver?” (Sl 94.9).

A última passagem são palavras de Jesus Cristo por ocasião do Sermão do Monte: “Por acaso algum de vocês, que é pai, será capaz de dar uma pedra ao filho, quando ele pede pão? Ou lhe dará uma cobra, quando pede um peixe? Vocês, mesmos sendo maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos. Quanto mais o Pai de vocês, que está no céu, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7.9-11).

Bastam essas quatro passagens para levar o cristão à oração!

A santificação da oração: O problema hoje não é falta de oração, mas o mau uso dela. Precisamos de uma revolução no que diz respeito à oração. Em vez de engrossar o ter, devemos engrossar o ser. Não é tão fácil orar de maneira aceitável a Deus. Há pelo menos duas passagens do Novo Testamento que confirmam isso. A primeira está no Evangelho de Lucas: “Quando Jesus acabou de orar, um dos seus discípulos pediu: Senhor, nos ensine a orar, como João [Batista] ensinou os discípulos dele” (Lc 11.1-2). A segunda está na Carta aos Romanos: “O Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar. O Espírito, porém, ora por nós com gemidos que não podem ser expressos em palavras” (Rm 8.26).

Precisamos de uma escola de oração. É necessário repudiar energicamente as orações profanas, muitas vezes até pecaminosas. Quem sabe os parágrafos seguintes possam nos ajudar. Os nomes apresentados são fictícios e servem apenas de ilustração.

Vamos orar em favor da vida em abundância

Ó Deus, além do pão de cada dia, dá-me graças que enriqueçam o meu espírito, que aumentem a minha comunhão contigo:

“vitória” sobre o meu pecado particular -- para não entristecer o Espírito Santo;
“direção” sobre o que fazer, onde fazer e quando fazer -- para eu não sair do centro da tua vontade soberana;
“domínio próprio”, que é fruto do Espírito -- para negar-me a mim mesmo diariamente, quantas vezes forem necessárias;
“acertos” nas tomadas de decisão e nas palavras a proferir -- para não ter que voltar atrás;
“humildade” verdadeira e interior -- para enfrentar a autoavaliação equivocada, mentirosa e desastrosa, e para não me colocar em um pedestal;
“equilíbrio” quanto à análise das minhas ações -- para evitar os extremos e não cair nem na complacência nem na intolerância;
“sabedoria” que provém do alto -- para discernir entre o bem e o mal, entre o doce e o amargo;
“oportunidades” criadas e abertas por ti mesmo -- para eu aproveitar melhor a ocasião que passa por mim, mas que não pára diante de mim;
o “poder do Espírito Santo”, que é sobrenatural -- para vencer “os dominadores deste mundo de trevas” e “as forças espirituais do mal nas regiões celestiais”;
a “bênção” que vem de ti e que de fato faz diferença -- para obter sucesso em tudo que faço tendo em vista a tua glória;
o “enchimento” do Espírito que habita em mim -- para anunciar o evangelho.

Vamos orar em favor de maior intimidade com Deus

Ó Deus, além de tudo que me tens dado, concede-me a graça de...
conhecer-te mais;
enxergar mais a tua glória;
crer mais;
confiar mais;
confessar mais;
amar-te mais;
chegar mais perto de ti;
adorar-te mais.

Vamos orar em favor de proteção


Ó Deus, além de me proteger dos riscos físicos -- fome, miséria, doença e morte --, põe a tua mão sobre a minha cabeça e protege-me de outros perigos:
de mim mesmo e dos outros;
das multidões e dos demônios;
do egocentrismo e da soberba;
da pressa e da vagarosidade;
da incredulidade e da apostasia;
do relaxamento devocional e moral;
do consumismo e da secularização;
do ódio e da vingança;
do ciúme e da inveja;
da dependência de drogas e do vício da pornografia.

Vamos orar em favor da evangelização e reevangelização

Ó Deus, além do meu chamado para missões e do meu envio para o campo missionário, atende minhas súplicas missionárias: mostra a tua misericórdia e o teu imenso amor a este povo; derrama a tua graça especial sobre ele; convence-o do pecado, da justiça e do juízo; dobra sua cerviz; retira as escamas de seus olhos para que veja e abre seus ouvidos para que ouça; realiza prodígios e maravilhas para que creia; venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

O bom pastor ora pelo seu rebanho

Ó Deus, além do meu chamado para o ministério, do meu preparo e da minha ordenação, quero e preciso orar pelas ovelhas que me deste.

Eleva o nível espiritual delas. Faze-as ler a Bíblia com prazer e proveito, faze-as orar, amar como tu as amas, perdoar como tu as perdoas; provoca um despertamento na igreja onde sou pastor, santifica o teu povo, entusiasma-o, ajunta-o; dá aos meus congregados a capacidade de chorar com os que choram e de se alegrar com os que se alegram. Livra-os da insensibilidade, do isolamento, do egocentrismo; concede ao teu povo maturidade, conhecimento bíblico, vitória sobre a provação e a tentação e capacidade de renunciar a qualquer coisa que se interponha entre ti e ele; gera no meu rebanho paixão pelas almas, vocações, intercessões e ofertas missionárias; traze de volta o irmão Dionísio, que se afastou da tua grei, restaura o casamento de Josefina e Tancredo, consolida o de Zilá e Alberto, levanta da cama o irmão Guilherme, prolonga a vida do irmão Arimateia, que está entre a vida e a morte, acaba com o atrito que há entre Trifena e Trifosa; liberta Marcos da bebida, Joaninha das drogas e o diácono Sebastião da pornografia; tem misericórdia de Alencar, que caiu em pecado e cometeu um escândalo. Que ele não se desculpe, nem reparta sua culpa com outros, mas que se arrependa de seu pecado. Que tu o perdoes e o convenças do perdão mesmo antes de ele se sentir perdoado. Que ele tenha paciência para suportar as consequências naturais do pecado; tem piedade de nossas crianças, de nossos adolescentes e de nossos jovens, ajudando-os a vencer as tentações da carne e da sociedade permissiva; ajuda-me a caminhar com os idosos até que eles passem pelo vale da sombra da morte; para o bem das minhas ovelhas, permite-me tratar as mulheres casadas como mães e as moças como irmãs!

A oração e a boa vontade de Deus

Para o cristão ainda indeciso quanto ao valor da oração, seis passagens bíblicas podem ajudá-lo a mudar de ideia e dedicar-se a esta prática.

Quando o jovem Salomão foi a Gibeão para oferecer sacrifícios ao Senhor, logo após ter subido ao trono de Israel, este lhe perguntou: “O que você quer que eu lhe dê?” (1Rs 3.5). Era Deus abrindo a porta da oração. Salomão não perdeu tempo e pediu sabedoria suficiente para governar o povo de maneira justa e bem-sucedida.

A oração não foi inventada pelo ser humano. A iniciativa da oração é de Deus. É isso que Jesus ensina no Sermão do Monte: “Peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta se abrirá para vocês. Porque todos aqueles que pedem recebem; aqueles que procuram acham; e a porta será aberta para quem bate” (Mt 7.7-8).

As outras quatro passagens que mostram a boa vontade de Deus quando os crentes oram são:

Mateus 6.8 — “Antes de vocês pedirem, o Pai de vocês já sabe o que vocês precisam”.

Efésios 3.20 — “E agora, que a glória seja dada a Deus, o qual, por meio de seu poder que age em nós, pode fazer muito mais do que nós pedimos ou até pensamos”.

João 15.7 — “Se vocês ficarem unidos comigo, e as minhas palavras continuarem em vocês, vocês receberão tudo o que pedirem”.

Tiago 1.5 — “Se alguém tem falta de sabedoria, peça a Deus, e ele a dará porque é generoso e dá com bondade a todos”.

Você já fez sua oração de hoje? Você tem separado tempo para ter comunhão com Deus? Você coloca diante de Deus, em oração, a sua vida? Ainda é tempo de mudar e começar um relacionamento de compromisso e oração com Deus. Seguindo o exemplo eixado pelo Senhor Jesus!

Fonte: Revista Ultimato edição 336 Maio-Junho 2012 - Compartilhado no PCamaral

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