sábado, 4 de agosto de 2012

Iludidos com uma pizza de palmito

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre. 
(1 João 2:15-17)
Os reinos, poderes e bens deste mundo são sedutores demais

Por Edmilson Mendes

Na minha adolescência pizza era comida de rico. Uma ou duas vezes no ano experimentávamos tal prazer. E era caseira, ir a uma pizzaria era impraticável para pobres mortais. O sabor era um só, mussarela. E éramos felizes, realizados e agradecidos.

Hoje a gente se perde na infinidade de sabores exibidos nos cardápios. Tem salgada, com borda recheada, light, doce. E, para boa parte da população, pizza tornou-se comida comum. Come-se a hora que quiser, basta ter vontade. Os sentimentos antigos de felicidade, realização e gratidão perderam a profundidade e vibração por reações mecânicas e indiferentes. Afinal, hoje pizza é só uma pizza, e no Brasil, como se sabe, tudo acaba em pizza.

Aparentemente não tem nenhuma importância, mas tem muitas implicâncias os indicadores da evolução da pizza. Saímos da mussarela e agora já podemos comer uma de palmito. É chique, sofisticado e comprova a subida social. Sim, é só um exemplo. Mas vejo muita gente desvairada e iludida pelo fato de agora poder ter acesso a pizza de palmito.

A influência do materialismo combinado com o incontrolável consumismo tem engolido a classe média evangélica brasileira. Bill Leslie, meditando sobre esta situação, chegou à seguinte conclusão: À medida que as igrejas se tornam mais ricas e bem-sucedidas, sua preferência no que se refere a hinos muda de Este mundo não é meu lar, por aqui apenas vou passar, para Este é o mundo de meu Pai.

Ou seja, este é o mundo que o Pai me deu. Então é um mundo bom, com lazer, conforto, carro, viagens, grana, bens. Para quê Cristo voltar agora? Está tudo tão bom por aqui… Percebe a síndrome da pizza de palmito? Ela é chique, saborosa, cheirosa, bela e, o melhor, eu a conquistei e a tenho na hora que quiser.

Qual o erro de se conquistar? Se legitimamente conquistado, nenhum. A questão não é sobre erro, mas sobre perigo. Os reinos, poderes e bens deste mundo são sedutores demais. Sedutores a ponto de nos levar a esquecer que existe outro mundo do qual, um dia,em Cristo Jesus, passaremos a ser cidadãos.

A história do rabino Joseph Schneerson ajuda nossa compreensão. No início do comunismo russo ele foi perseguido por sua fé. Numa das muitas intimidações que sofreu para que renunciasse ao evangelho de Cristo, depois de ser espancado numa delegacia em Leningrado, um soldado grudou um revólver em seu rosto e provocou: “Este brinquedinho fez muitos homens mudarem de ideia.” O rabino respondeu: “Esse seu brinquedinho só pode intimidar aquele tipo de homem que tem muitos deuses e apenas um mundo. Mas, tendo eu apenas um Deus e dois mundos, não me impressiono com ele.”

Destaco do testemunho do rabino o homem que tem muitos deuses e apenas um mundo. São os muitos deuses que fazem o homem se acomodar com apenas um mundo. Quais deuses? Talvez uma pizza de palmito. Achou pouco? Então amplie o leque. O carro importado, os brilhantes, o iate, a mansão à beira mar, o corpo escultural, os jogos, os vícios, a pornografia, o dinheiro fácil, o sexo fácil. Enfim, coisas que se tornam deuses num único e caído mundo, o nosso.

A última parte da fala do rabino aponta para a fé que deve amadurecer em nós: temos um único Deus e dois mundos, este e o vindouro. Sofremos aqui, lutamos aqui, nos frustramos aqui, somos afrontados e decepcionados aqui. Em Cristo, no entanto, já não somos daqui. Aguardamos novos céus e nova terra.

O soldado russo, ironicamente, tinha razão. Devemos olhar para os deuses daqui como tão somente brinquedinhos. Envelhecem, quebram e passam. Como igreja, não podemos tropeçar nos nossos próprios deslumbramentos, nos iludir com nossas ascensões a cargos, posições e poderes em nossa sociedade. Tudo isso não passa de pizza, rapidinho esfria e chega-se no último pedaço. E a cena vai se repetindo, com uma pizza atrás da outra, deixando tudo comum e repetitivo. Nada disso! Queremos um sabor que ainda não provamos, uma receita que dá água na boca mas ainda não experimentamos, queremos o outro mundo, enfim, queremos o céu.

Fonte: Guiame | compartilhado no PCamaral

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