quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Magnifica Obra de Jesus Cristo


Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram. (Hb 2:3)
A carta aos Hebreus nos indica, claramente, que os irmãos, aos quais, a epistola é endereçada encontravam-se profundamente desanimados. Eles já haviam sido vigorosos em sua fé, ao ponto de sofrerem por Cristo em tempos passados (Hb 10:32-33), mas agora o cansaço espiritual se apoderara de suas vidas. Alguns já não iam mais à igreja (Hb 10:25); outros pensavam em romper oficialmente com o cristianismo e regressar à religião judaica. O autor de Hebreus percebe que é preciso encorajá-los à fé o quanto antes. Mas como? Ele só encontra uma maneira: apresentar-lhes uma visão emocionante e estimuladora da magnífica obra de Jesus Cristo.
Num tempo em que a obra salvífica de Cristo se torna menos popular entre evangélicos, a Carta aos Hebreus nos faz perceber o tesouro inigualável que é a salvação em Jesus Cristo. Não existe melhor injeção de ânimo para revigorar a fé dos desanimados do que trazer à sua consciência a incomensurável grandeza e a glória da obra salvífica de Cristo. Uma visão mais acurada sobre sua obra é capaz de renovar a força dos cansados e revigorar a fé dos vacilantes.
1. A importância da obra de Cristo: O escritor de Hebreus é, indiscutivelmente, um habilidoso pastor, que tem a incrível capacidade de encorajar os desanimados na fé, sem deixar de adverti-los. Ele faz isso trazendo à memória dos crentes a importância que devem dar à obra de Cristo: Por isso, é necessário atentarmos mais ainda para as coisas que ouvimos, para que nunca nos desviemos delas (Hb 2:1). Alguém poderia perguntar: Por que devemos dar tanta importância à obra de Jesus? Bem, a resposta é muito simples: Porque nossa salvação depende dela.
Nós não podemos fazer nada para ganhar a salvação. Somos salvos pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós; como afirmou Paulo, não vem pelas obras. No entanto, o autor de Hebreus mostra-nos que, se desprezarmos ou desdenharmos da salvação que recebemos em Cristo, entrando num caminho de apostasia, corremos o risco de perdê-la: Pois se a palavra falada por meio de anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência receberam justa punição, como escaparemos se desconsiderarmos tão grande salvação? (Hb 1:2-3).
A expressão palavra falada por meio de anjos, neste texto, refere-se à lei que Deus deu aos israelitas, no Monte Sinai. [1] Essa ideia está de acordo com Estevão, quando afirmou, em seu discurso no Sinédrio (At 7:35-53), que Deus havia transmitido sua Lei através dos anjos. A lógica é a seguinte: se os desobedientes da Antiga Aliança estabelecida no Sinai sofreram terríveis consequências, quanto mais sofrerão aqueles que desprezarem a Nova Aliança feita no Calvário! A palavra negligenciar traz a ideia de desdém, de um total desprezo pela obra de Jesus Cristo e, consequentemente, por sua salvação. A consequência desse desprezo é a apostasia, e o fim desta é a condenação eterna.
A pergunta do autor de Hebreus deve ter ecoado nos corações daqueles que estavam na iminência de abandonar Cristo: Como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação? Ele não está apenas advertindo, mas, antes de tudo, apontando para a glória dessa salvação. Sua pergunta revela o desespero de alguém que não consegue entender como uma salvação tão gloriosa como essa poderia ser negligenciada. Como rejeitar o amor de Cristo? Como não se encantar por sua graça derramada no Calvário? Como não amar aquele que tanto nos amou? Essa é a tão grande salvação. Difícil entender como alguém é capaz de rejeitá-la.
2. A grandeza da obra de Cristo: Para muitos, o fato de Jesus ter se tornado homem é inconcebível. “Deus não poderia se tornar humano”, afirmam. Entretanto, “a humanidade de Cristo não foi uma desvantagem nem um sinal de inferioridade”. [2] Longe de inferiorizá-lo, ela o engrandece. Foi por sua condição humana que Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que está acima de todo o nome (Fp 2:9). Na verdade, a grandeza de sua obra reside em sua humanidade. Podemos apontar três motivos pelos quais a obra de Cristo é magnífica: Em primeiro, por causa de sua nobreza. Isso diz respeito ao fato de que Jesus não se apegou aos direitos de sua divindade. Ele não se ateve aos benefícios de sua natureza divina.
Cristo abandonou sua posição divina, no trono celeste. Ao assumir nossa humanidade, “foi feito um pouco menor do que os anjos”, mas, ao concluir sua obra, “foi coroado de glória e honra” (Hb 2:9). Sobre a encarnação de Jesus, Stott comenta: “Ele não permaneceu no céu; veio ao mundo. A Palavra não foi proferida do céu; ‘a Palavra tornou-se carne’. E a seguir ‘viveu entre nós’”. [3] Essa foi a atitude mais nobre que o mundo viu! Para realizar sua obra, Cristo escolheu o caminho mais difícil: a humilhação e o sofrimento humano. Se isso não é nobreza, então ainda não aprendemos seu verdadeiro significado.
Em segundo lugar, obra de Cristo é magnífica por causa de sua abrangência. O texto nos diz que Jesus experimentou a morte “em favor de todos” (v.9 AS21). A cruz “não foi um erro trágico, mas originada na graça de Deus, em sua determinação compassiva de prover a redenção. Seus benefícios são por todos”. [4] A obra de Cristo é abrangente, pois seus benefícios são estendidos a todas as pessoas. Em terceiro lugar, a obra de Cristo é magnífica por causa do seu custo. A graça não foi de graça; teve um alto custo! O versículo 10 mostra-nos que Jesus teve um longo caminho a trilhar. Ele foi forjado no fogo do sofrimento e da morte, para ser aperfeiçoado, ou seja, tornar-se apropriado para ser o autor de nossa salvação. A ideia do texto é que o sofrimento foi necessário para que Jesus pudesse ser o nosso Sumo Sacerdote perfeito e autor da nossa salvação (v. 10). [5]
Nesse texto, o termo “autor” significa, literalmente, “pioneiro”, ou “aquele que abre caminho para outros seguirem”. [6] Ele nos abriu o caminho da salvação, mas isso lhe custou a própria vida. Se Jesus não tivesse ido à frente e aberto o caminho da salvação com a sua própria vida, não haveria salvação alguma. O propósito do sofrimento de Jesus foi vicário, ou seja, “atinge seu clímax no seu efeito sobre outras pessoas”. [7] A morte de Jesus é a base sobre a qual a salvação pode ser oferecida a outras pessoas. É por causa dela que os servos de Deus que viveram antes e depois da cruz foram salvos. Todo este “sofrimento não é cruel ou irracional, indigno de um grande Deus”; [8] pelo contrário, mostra-nos sua grandeza ante o custo que decidiu pagar para nos salvar.
3. Os benefícios da obra de Cristo: No capítulo 2, além de destacar a importância e a grandeza da obra de Cristo, alguns de seus benefícios também são destacados. Entre tantos, veremos apenas quatro. O primeiro deles é a santificação dos cristãos. Jesus, em sua obra salvífica, levou “muitos filhos à glória” (v.10) e também os “santificou” (v.11). A santificação é o caminho pelo qual Cristo nos conduz rumo à glorificação. Não é apenas o ato instantâneo de nos tornar santos, mas o processo de aperfeiçoamento e santificação – que ele efetua em nós –, que durará toda a nossa vida. Owen escreveu, certa vez, que Jesus “não conduzirá ao céu senão aqueles que santificar na terra”. [9]
O segundo benefício é a vitória concedida aos crentes. Jesus Cristo tornou-se homem para que pela morte destruísse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo (v.14). Não fomos nós que vencemos o Diabo, mas Cristo. No entanto, compartilhamos da mesma vitória, pois somos beneficiados por ela. A autoridade final sobre a vida e a morte está nas mãos de Deus, mas, uma vez que Satanás é o fomentador do pecado (Jo 8:44), e o pecado leva à morte (Rm 6:23), Satanás exerce algum poder quanto a ela. [10] O nosso inimigo usa o medo da morte para controlar a vida das pessoas. Mas a cruz o desarmou! Aliás, este é o sentido do verbo “destruir”, de Hb 2:14. Com a morte de Jesus na cruz, Satanás foi desarmado. Ao receber a punição do nosso pecado, Cristo nos libertou da morte e do Diabo. Ao entregarmos a nossa vida a Cristo, não precisamos mais viver com pavor da morte.
O terceiro benefício da obra de Cristo é a reconciliação dos pecadores. Para exemplificar esse ensino, o autor de Hebreus se utiliza de uma figura muito familiar para os judeus: o sumo sacerdote. Em sua obra de reconciliação, Jesus assume esse ministério. Como? Tornando-se semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote [...] para fazer expiação pelos pecados do povo (v.17). Jesus é um sumo sacerdote infinitamente superior. Primeiro, porque não tinha pecado; segundo, porque ofereceu não um animal, mas a si mesmo. Por isso, foi necessário que Jesus se tornasse homem. Sendo Deus-Homem, é o único capaz de representar os homens diante de Deus e Deus diante dos homens. Assim, nós podemos ser absolvidos, pois “Jesus colocou o homem e Deus juntos numa harmonia inexprimível”. [11]
O quarto benefício da obra de Cristo é o auxílio constante aos que são tentados: Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados (v.18). A prova de que Jesus se tornou homem é que também foi tentado. Mas ele nunca cedeu! O termo “socorrer” significa, literalmente, “acudir uma criança que chora” e “ajudar quando é necessário”. [12] Jesus é o único capaz de fazer isso porque venceu as tentações e, ao se tornar semelhante a nós, tornou-se capaz de nos entender. Sendo assim, quando tentado, desfrute deste benefício: recorra ao auxílio do Senhor.
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
1. Valorize a obra de Cristo.
Muitos dos cristãos que pensavam em virar as costas para Jesus e retornar ao judaísmo foram pessoas como nós: frequentes aos cultos, obedientes aos mandamentos do Senhor, religiosos. O que será que aconteceu? Eles não deram a devida importância à obra de Cristo! Quando isso acontece conosco, nosso amor e nossa devoção por ele se extinguem. Somente um coração firmado na cruz de nosso Senhor e uma mente consciente de tudo o que ele fez em sua obra redentora é capaz de se manter fiel e perseverante, mesmo em meio ao sofrimento. Por isso, lembre-se diariamente do que Jesus fez por você, em suas orações e meditações. Aliás, mais do que lembrar, valorize!
2. Desfrute da obra de Cristo.
A obra de Cristo nos traz inúmeros benefícios. O grande segredo da vida cristã consiste não apenas em conhecê-los teoricamente, mas em experimentá-los no dia a dia. Infelizmente, muitos se cansam com os anos, pois não desfrutam do que Cristo lhes oferece. Que isso não aconteça com você! Comece, hoje mesmo, a desfrutar dos benefícios da obra de Jesus; de sua vitória sobre a morte e o Diabo; da paz com Deus, pela sua reconciliação; do socorro constante que ele nos oferece na tentação e do consolo oportuno que nos dá por ser nosso irmão (Hb 2:11) e nosso amigo (Jo 15:15).
CONCLUSÃO
“Nada inflama mais o coração que novos vislumbres da verdade”, escreveu o renomado teólogo John Stott. Ele estava certo! Quando relegamos a obra de Cristo à gaveta dos temas esquecidos, corremos o sério risco de nos desviarmos do caminho da salvação. Portanto, devemos diariamente, numa atitude devocional, tirá-la dessa gaveta do esquecimento e trazê-la novamente a nossa mente e ao nosso coração. A obra de Cristo é magnífica! Ela deve ser proclamada com mais frequência, cantada com mais vigor e desfrutada com mais ardor e paixão. Eis o antídoto para todo e qualquer desânimo.

Bibliografia:
1. KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. pág. 84
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica, 2006. pág. 364
3. DUDLEY, Timothy. Cristianismo Autêntico: 968 textos selecionados das obras de John Stott. São Paulo: Vida, 2006. pág. 47
4. TAYLOR, Richard S. (et al). Comentário Bíblico Beacon: Hebreus a Apocalipse. Vol. 10. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pág. 32
5. GUTHRIE, Donald. Hebreus: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983.pág.85
6. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica, 2006. pág. 365
7. GUTHRIE, Donald. Hebreus: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983.pág.84
8. TAYLOR, Richard S. (et al). Comentário Bíblico Beacon: Hebreus a Apocalipse. Vol. 10. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pág. 32
9. WILEY, Orton H. A Excelência da nova aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2008. pág. 129
10. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica, 2006. pág. 366
11. KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. pág. 113
12. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica, 2006. pág. 366


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