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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Hora do Povo de Deus Celebrar

2 comentários:
Naquele dia alegre, foram oferecidos muitos sacrifícios, pois Deus os havia enchido de grande alegria. As mulheres e as crianças também se alegraram, e os sons de alegria do povo de Jerusalém podiam ser ouvidos de longe (Ne 12:43- NBV).

Como você reage, ao receber de Deus grandes vitórias, mesmo depois de passar por várias dificuldades? O certo é atentarmos para o conselho do salmista: Celebrai com júbilo ao Senhor, todos os moradores da terra (Sl 98:4a). Neemias fez isso. Após encarar e vencer os desafios concernentes à reconstrução dos muros de Jerusalém convocou o povo a celebrar a Deus por essa grande realização. O termo “celebrar”, do hebraico hãgag, tem o mesmo sentido de festejar, comemorar, realizar com solenidade. Sl 98:4 e Mt 22:2 expressam isso de maneira clara. A celebração a Deus será o foco deste estudo.

Durante os outros artigos publicados no PC@maral sobre Nemias, deparamo-nos com a tremenda experiência de um líder, cujos esforços estavam focados em terminar uma grande obra de reconstrução. Para isso, ele teve de lidar com muitos problemas difíceis de resolver: a indiferença, a oposição, a injustiça, a calúnia etc. No capítulo 12, porém, a preocupação de Neemias é outra. Todos os problemas cederam lugar à celebração. Neste capítulo, não vemos resquícios de tristeza, choro, amargura ou algo semelhante. Neemias e o povo estavam certos: “O tempo de lamento cessou; é hora de celebrar!” Mas a celebração a Deus não foi realizada de qualquer maneira. Há alguns aspectos da celebração a serem considerados:

O júbilo: O versículo 27 de Neemias 12 menciona a dedicação dos muros de Jerusalém. Nessa época, as “dedicações serviam não somente para reconhecer certas coisas como santas, mas também para colocar coisas seculares sob a proteção divina e santificá-las”. [1] O texto também relata a forma como essa dedicação foi feita: ... com alegria, louvores, canto, címbalos, alaúdes e harpas. O propósito de Neemias era realizar uma celebração agradável a Deus. Portanto, ela deveria ser marcada pelo louvor jubiloso. Não foi sem razão que os levitas de Judá foram convocados para colaborar na celebração, afinal, eles tinham muita habilidade, dentre outras coisas, com a música. O capítulo 12 do livro “enfatiza o louvor jubiloso de todo o povo. O cântico é citado oito vezes neste capítulo; as ações de graças, seis vezes; o regozijo, sete vezes; e os instrumentos musicais, três vezes.” [2] A alegria é uma marca visível da igreja de Deus. Neemias disse que a alegria do SENHOR é a vossa força (Ne 8:10). O júbilo não deve ser reprimido nos momentos de celebração a Deus, mas expresso de modo contundente. O povo entendeu isso, pois as mulheres e os meninos se alegraram, de modo que o júbilo de Jerusalém se ouviu até de longe (Ne 12:43c).

O motivo: Durante muito tempo, o povo hebreu foi alvo da zombaria e do desprezo de seus inimigos. Teve de conviver, durante muitos anos, com a triste decadência de um dos símbolos mais relevantes da sua história: Jerusalém. Esta já não tinha glória alguma; estava completamente destruída e os seus muros, derrubados. No entanto, Deus mudou o rumo dessa história. Jerusalém, que vivera mais de cem anos debaixo dos escombros, agora, estava restaurada e os seus muros, reconstruídos. O povo celebrou com grande e intenso júbilo essa conquista. [3] Neemias e o povo celebraram ao SENHOR pela vitória que lhes proporcionou. Esse motivo é expresso em Ne 12:43b: Deus os alegrara com grande alegria. Os inimigos haviam subestimado o povo de Deus e o Deus do povo (Ne 4:3), mas tiveram de reconhecer que estavam errados. Quando celebramos a Deus pelas vitórias que ele nos dá, declaramos a sua onipotência e o seu cuidado para conosco. Além disso, reconhecemos que dele dependemos. Neemias não era o único a ter essa certeza. A respeito dos seus inimigos ele disse: ... reconheceram que por intervenção de nosso Deus é que fizemos esta obra (Ne 6:16).
Todos tinham seus corações voltados para o Senhor. Hoje, não deve ser diferente. Os corações de líderes e liderados precisam estar voltados para Deus. Infelizmente, muitos erram nesse sentido, cantando aquilo que não vivem e esquecendo que o louvor é para glorificar a Deus, não a si próprios.
A pureza: Celebrar a Deus por meio do louvor é um ato de adoração. Esta, por sua vez, precisa ser pura, afinal, o Deus que a recebe é santo em sua essência. Mas a adoração jamais será pura e aceita por Deus, se o adorador estiver impuro. O povo de Israel entendia que aquela grande celebração exigia pureza. A fim de santificarem-se para este evento, Neemias tomou a seguinte atitude: Purificaram-se os sacerdotes e os levitas, que também purificaram o povo e as portas e o muro (Ne 12:30). “O modo usual de purificação consistia em banhar o corpo e lavar as roupas (Lv 15:8,10,11)”. [4] A aspersão de sangue era também utilizada para esse fim (Lv 14:4-7). A pureza não era um propósito somente dos sacerdotes ou dos levitas, mas de todo o povo. Todos tinham seus corações voltados para o Senhor. Hoje, não deve ser diferente. Os corações de líderes e liderados precisam estar voltados para Deus. Infelizmente, muitos erram nesse sentido, cantando aquilo que não vivem e esquecendo que o louvor é para glorificar a Deus, não a si próprios. Todavia, se estes perguntarem: Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? (Sl 24:3), obterão a seguinte resposta: O que é limpo de mãos e puro de coração (Sl 24:4).

A união: A reconstrução dos muros foi, sem dúvida, a grande conquista de Neemias e do povo. Mas eles não a conseguiram por acaso. Havia algo importante por trás disso: a união. Os inimigos da obra bem que tentaram esfacelar esta união genuína, por meio de calúnias proferidas contra o líder Neemias. Mas não conseguiram. Se a união fosse abalada, o trabalho seria prejudicado. Os muros eram o resultado de um trabalho conjunto. Havia união na diversidade e na adversidade. Havia união na celebração. O versículo 28 começa assim: Ajuntaram-se os filhos dos cantores. Isso porque todos “os sacerdotes e cantores, deveriam vir, de todos os lugares, para a grande celebração”. [5] A liderança era unida. Havia harmonia não somente no som dos instrumentos musicais, mas também no relacionamento entre aqueles que os tocavam. Tanto ricos quanto pobres, líderes e liderados cantavam em exaltação ao Rei dos reis. Nem as mulheres, nem as crianças ficaram de fora (Ne 12:43). As vozes eram diversas, mas o louvor era o mesmo. Havia diferença entre as pessoas, mas não indiferença. A acepção fora superada pela união. Esta forma de celebração agrada a Deus.

A ordem: Aquela celebração fora detalhadamente organizada. Quando algo é feito para Deus, deve ser feito da melhor maneira e com muita dedicação. Foi isso que Neemias fez: Eu levei os chefes de Judá para cima do muro e dividi o coro em duas fileiras compridas (Ne 12:31 – NBV). Uma grande procissão de celebração fora iniciada. Mas não se tratava de uma festa aleatória, sem sentido e sem propósito. Cada coro tinha um itinerário diferente (vv. 37-38), mas um mesmo destino: a casa de Deus (v. 40). Neemias organizou os grupos e dividiu as pessoas, de acordo com as suas devidas funções e consagrações. Uns estavam encarregados de tocar as trombetas (vv.35,41), enquanto outros tocavam outros instrumentos (36). O escriba Esdras seguia à frente deles (37). Havia o regente e os cantores que dirigiam o louvor (v.42), também havia os encarregados de cuidar das ofertas e dos dízimos (v.44). Ninguém interrompia o serviço do outro. Todos participavam da celebração ao Senhor, respeitando a hierarquia ali vigente. Tudo foi feito com ordem. Eles não se digladiaram por um cargo de aparente proeminência, porque entendiam que o propósito de cada um era o mesmo: celebrar a Deus. Que dia maravilhoso aquele! Quanta alegria! Que grande vitória! Que bela pureza! Que união genuína! Que organização exemplar! Aquela festa foi inesquecível. A celebração ao nosso Deus deve ser, sim, um evento marcante. Não foi fácil para aquele povo chegar aonde chegou. A vitória foi tremenda e a celebração, contagiante. Mas a celebração não deve acontecer apenas em tempos de bonança. Mesmo se as figueiras e as videiras forem destruídas, os frutos, extintos, e não haja mantimentos, nem animais nos pastos, devemos exultar ao Senhor (Hc 3:18,19).

APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA

1. É hora de celebrar! Faça-o com fervor - A reação de Neemias e do povo, em meio à celebração, era de alegria. E a nossa? Eles cantavam fervorosamente. E nós? Aquela celebração é um modelo para as celebrações do povo de Deus de nossos dias. A Bíblia diz que os justos exultam na presença de Deus e folgam de alegria (Sl 68:3). Precisamos celebrar com grande júbilo e fervor as nossas conquistas. A vida cristã deve parecer mais com uma festa de casamento do que com um enterro. [6] Portanto, não se intimide, mas seja um cristão fervoroso no louvor. Aceite o convite do salmista: Vinde, cantemos ao Senhor, com júbilo, celebremos o Rochedo da nossa salvação (Sl 95:1).
Dignidade está em falta, mas cabe a cada um de nós fazer a diferença
2. É hora de celebrar! Faça-o com dignidade - Deus é santo e a celebração a ele não pode ser desprovida de santidade. Os levitas, os sacerdotes e o povo tomaram uma atitude admirável: purificaram-se (Ne 12:30). É óbvio que o modo como isso era feito, naquela época, não deve ser feito hoje, ou seja, por meio da lavagem com água, aspersão de sangue etc. Porém, o princípio continua válido. Tanto os que pregam a palavra quanto os que tocam e cantam os louvores precisam comparecer diante do Senhor com mãos santas e vidas puras (Sl 24:4).

3. É hora de celebrar! Faça-o com dedicação - Os muros foram reerguidos sob exaustivo e dedicado trabalho. Não foi à toa que a duração da obra não ultrapassou os 52 dias (Ne 6:15). A celebração vitoriosa não foi diferente. Havia comprometimento de todos os participantes. Todos davam o melhor de si, no louvor cantado ou tocado. Verdade é que poucos toleram o trabalho que é feito de modo relaxado. Deus jamais irá tolerá-lo (Jr 48:10). O Deus de Neemias é nosso também. Portanto, encare o ato da celebração ao Senhor com seriedade. Dedique-se a ele, dê o seu melhor!

CONCLUSÃO

Sempre haverá motivos para celebrarmos ao Senhor. O ato da celebração é constante. Tanto hoje como amanhã poderemos afirmar: é hora de celebrar! A propósito, temos feito isso? Reflitamos sobre o assunto. Como vimos, a celebração envolve louvor jubiloso, um motivo vitorioso, pureza, união e ordem. Que, nesta geração, se levantem muitos Neemias dispostos a convocar o povo à celebração que agrada a Deus. Que os cristãos contemporâneos se espelhem naquele povo e celebrem ao Rei dos reis com fervor, dignidade e dedicação.

Que Deus nos abençoe!

Bibliografia:


1. CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 3. São Paulo: Candeia, 2000. pág. 1811
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 674
3. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 188
4. DOUGLAS, D. J. (Ed.). O Novo Dicionário da Bíblia. Vol 2. São Paulo: Vida Nova, 1962. pág. 1350
5. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 189
6. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 188-9
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DEC - PCamaral

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Neemias Leva o Povo a Assumir um compromisso com Deus.

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Por causa de tudo isso, nós, o povo de Israel, estamos fazendo por escrito um acordo solene. E as nossas autoridades, os nossos levitas e os nossos sacerdotes vão assiná-lo. (Ne 9:38 – NTLH)

A primeira reforma promovida por Neemias foi estrutural. A cidade passou por uma imensa reforma física, econômica e social. Já a segunda reforma foi espiritual. [1] Esta foi a mais importante. Surgiu do desejo de conhecer a palavra de Deus. O povo começou a estudar a Bíblia e orar, e os resultados vieram: choro pelo pecado, confissão e vontade de acertar-se com Deus. Então, Israel não quis ficar só nas palavras e nem na emoção do momento: decidiu fazer uma aliança com o Senhor, assumindo e registrando compromissos.
Uma coisa é sermos impactados pela palavra e fazermos uma oração fervorosa de confissão, como pode ser visto no capítulo 9 de Neemias, que foi explanado no estudo anterior; outra, muito diferente, é sermos fiéis a Deus e nos mantermos assim, depois que dizemos: “Amém”. [2] Israel levou a sério aquela oração e estava decido mesmo a recomeçar. Os líderes e todo o povo fizeram um pacto solene de fidelidade. Essa atitude é desafiadora para nós hoje, pois vivemos numa época em que muitas pessoas não gostam de assumir compromissos. Neste estudo, que se baseia em Neemias 10, refletiremos sobre os participantes e os compromissos desta aliança de fidelidade feita com Deus.
1. Os participantes: O capítulo 9 termina assim: Em vista disso tudo, nós estamos fazendo um acordo, por escrito (...) e assinamos este contrato (Ne 9:38 – NBV). Com essa atitude, os companheiros de Neemias estavam dizendo: “Senhor, (...) que isso signifique uma promessa selada (...). Assinaremos nossos nomes a fim de provar que manteremos a promessa”. [3] Deste modo, o capítulo que estamos estudando começa com uma lista dos nomes daqueles que selaram o documento (Ne 10:1-27). Sabe quem é o primeiro da lista? Neemias é claro!
O líder deve sempre ser o exemplo, e Neemias era. Este homem não era do tipo que dizia “faça o que eu mando, mas não o que faço”. É lamentável quando o pastor quer que a igreja mude, mas ele mesmo não dá o exemplo. Também é igualmente triste pais quererem que os seus filhos assumam um compromisso que eles próprios nunca quiseram assumir. Semelhante é o caso de um líder da igreja local que exige de seus liderados comprometimento, mas ele mesmo não é comprometido. Neemias não era assim. Ele foi o primeiro a assinar e a assumir o compromisso.
Além dele, apareceram mais oitenta e quatro pessoas que puseram o seu selo na aliança feita com Deus. Ali, estavam os nomes dos sacerdotes (10:2-8), dos levitas (10:9-13), dos líderes e nobres (10:14-27). Estes assinaram em nome de todo o povo. Os cidadãos comuns, mesmo não assinando o documento, concordaram e aderiram àquela aliança (10:28). Até mesmo as mulheres e as crianças, que não podiam colocar um selo pessoal num documento oficial, comprometeram-se também. Que cena magnífica: cada uma daquelas pessoas que ouviram a leitura e a explanação da palavra estava, agora, assumindo, com emoção e consciência, o compromisso de obedecer ao que lhe fora ensinado. Essa postura dos judeus concorda com o ensino de Tiago, que disse: Sede praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos (Tg 1:23-24). O apóstolo explica a razão para isso: Pois, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, é semelhante a um homem que contempla o próprio rosto no espelho; porque ele se contempla, vai embora e logo se esquece de como era (Tg 1:23-24). Quantas vezes ouvimos a palavra, nos comprometemos com ela, mas, logo a esquecemos? É só lembrarmos as muitas promessas não cumpridas que já fizemos, a cada início de ano.
Neemias e seus amigos não queriam que isso acontecesse. Não podiam esquecer o que ouviram de Deus. Decidiram praticar e, para não esquecer, revolveram anotar num documento cada atitude a ser tomada. Fizeram um juramento, que implicaria castigo ao desobediente (Ne 10:29). Hoje, “jurar” não é a melhor forma de o cristão assumir compromissos com Deus, pois os juramentos são, em linhas gerais, baseados no medo, e o Pai celeste não deseja isso de nós: ele quer que a base de nosso relacionamento com ele seja o amor. De fato, “não somos bem sucedidos em nossa vida cristã porque fazemos promessas a Deus, mas sim porque cremos nas promessas dele e agimos em função delas”. [4] Ainda que não seja necessário jurar a Deus, é dever do cristão ser comprometido com a obediência à palavra em amor.
2. Os compromissos: Anotar, a fim de não esquecer o que devemos praticar ou melhorar é um exercício precioso. Foi isso que Neemias e os demais judeus fizeram. Diante da exposição da lei de Deus, eles perceberam claramente em que estavam falhando e decidiram fazer um pacto de mudança.
Em primeiro lugar, assumiram um compromisso com a obediência à palavra. Eles decidiram “andar na lei de Deus” e disseram: ... obedeceremos a tudo o que o Senhor, nosso Deus, nos manda; e cumpriremos todas as suas leis e mandamentos (Ne 10:29b). Eles elegeram a palavra de Deus como regra suprema e fizeram da obediência um projeto de vida. Que bela decisão!
Em segundo lugar, assumiram um compromisso com a pureza do casamento. Jerusalém estava cercada de gentios que queriam que o remanescente do povo de Deus fizesse parte de seu meio social e econômico. A melhor maneira para isso acontecer era através dos casamentos mistos. Para os judeus, as vantagens eram muitas e a tentação era enorme. Porém, não era a vontade de Deus. Essas uniões mistas com estrangeiros idólatras eram condenadas pela lei de Deus (cf. Êx 34:12-16). O motivo para a proibição desses casamentos mistos não era racial, mas espiritual e religioso. [5]
Não era uma questão de preconceito, mas de santificação do povo. Nestes casamentos, o cônjuge judeu corria um grande risco de perder a sua fé. De que forma um judeu casado com uma esposa idólatra poderia obedecer fielmente às leis cerimoniais e às leis da alimentação? Como iria educar os filhos? Em situações assim, o marido e a mulher ficavam em constante conflito e o lado judeu quase sempre cedia. Vale lembrar que casamentos mistos continuam, ainda hoje, sendo um grande problema para os filhos de Deus (1Co 7:12,13,39a; 2Co 6:14-7:1). Os jovens cristãos devem prestar atenção nisso para não sofrer no futuro.
Em terceiro lugar, assumiram um compromisso com a observância do sábado. Antes de Neemias chegar, Jerusalém era uma “cidade fantasma”, uma “terra de ninguém”, mas, após a sua reedificação, tornou-se uma “terra de oportunidades”. Devido à posição geográfica estratégica da cidade e ao talento dos judeus para os negócios, muitos viam a chance de prosperar e, de fato, alguns estavam prosperando. Outros, ali, ainda estavam buscando “seu lugar ao sol” e trabalhavam por sobrevivência. Com isso, o dia do Senhor estava sendo negligenciado. Se guardassem o sábado, teriam um dia a menos para o comércio. Então, a ganância e a falta de confiança em Deus estavam levando-os a pecar. Mas decidiram que era hora de mudar. Eles afirmaram que não comprariam nada no dia de sábado (10:31a). Seriam fiéis em seus negócios; inclusive, prometeram guardar os anos sabáticos (10:31b), isto é, de sete em sete anos, fariam a terra descansar por doze meses. Foi uma grande prova de confiança e um lindo exemplo de dependência de Deus.
Em quarto lugar, eles assumiram um compromisso com a manutenção da casa de Deus. Em Neemias 10:32-39, é repetida nove vezes a expressão “a casa do Senhor”. A ênfase é clara: eles decidiram dar a devida atenção à manutenção da obra. Por muito tempo, o povo havia negligenciado o lugar da adoração, mas agora seria diferente. Eles prometeram entregar as ofertas e os dízimos para o sustento dos levitas e dos sacerdotes e para o cuidado do templo.
Você deve ter percebido que as questões levantadas no capítulo 10 de Neemias são bastante atuais. Em nossos dias, vemos, ainda, cristãos sofrendo por causa de casamentos mistos. Vemos, também, alguns com dificuldade na guarda do sábado, tendo que escolher entre o sustento e a fé. Para outros, a questão é a fidelidade nos dízimos e nas ofertas. Poucos gostam de rever seus conceitos, de reconhecer o erro e recomeçar. Porém, a vida cristã é marcada por recomeços.  Precisamos nos consertar com Deus.
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
Não seja superficial: Neemias percebeu que a reconstrução do muro era só uma parte de um longo percurso. Deveria andar, agora, sua segunda milha. [6] Por mais grandiosa que fosse a reforma feita na cidade, ainda era superficial. Perecia que tudo estava bem, mas não estava. Havia iniquidade dentro da cidade. Outra reforma era necessária, uma reforma espiritual, profunda e radical. Neemias não ficou satisfeito com a superficialidade do “muro” e levou o povo a um grande reavivamento espiritual. E nós? Que compromisso temos assumido com Deus? Como está nossa santidade? E nossa vida de oração? Superficial? Meu irmão, não se contente só com o “muro”, não fique só na aparência. Pegue a Bíblia e, com base nela, faça um exame completo de sua conduta e de seu interior (Hb 4:12). Se for preciso, recomece; volte atrás e refaça o seu pacto com Deus.
Não fique somente nas palavras: É triste quando os compromissos assumidos com Deus ficam apenas nas palavras. Afirmamos que vamos mudar, mas não mudamos; dizemos que vamos orar mais, e não oramos. Garantimos que iremos controlar a língua e não controlamos. Neemias não queria que isso acontecesse com Israel, e fez com que todos os líderes do povo assinassem uma aliança, com princípios de condutas. Ele não ficou só nas palavras: partiu para a ação. Se você deseja que suas promessas a Deus não sejam apenas promessas, parta para a ação. Mude sua agenda e seus hábitos. Não espere para manhã. E lembre-se: Coloque em prática a palavra de Deus, e não seja apenas ouvinte (Tg 1:22 – NBV).
Não vise somente ao seu interesse: O compromisso feito por Israel era admirável. Porém, significava abrir mão de muitas coisas. O povo iria perder casamentos socialmente lucrativos; teria de fechar o comércio aos sábados, perdendo “dias úteis”, e não iria mais sonegar os impostos para a manutenção do culto. Mas quem disse que ser fiel é algo fácil? Ser fiel é escolher a porta estreita; é andar na contramão do mundo; é remar contra a maré. Quem está disposto? Há cristãos que assumem compromissos com Deus e fazem promessas e votos para alcançar bênçãos e obter proveitos desse relacionamento. Mas quem está disposto mesmo a abrir mão das “vantagens”? Quem é capaz de negar a si mesmo? Talvez não agora, mas logo você verá que vale a pena, sim, servir a Deus (Mt 25:21; Ap 2:10).
CONCLUSÃO
Este episódio da história dos judeus nos desafia, hoje, a sermos cristãos comprometidos com a palavra de Deus e a estarmos dispostos a recomeçar. Nossa tendência é caminharmos para um afrouxamento de valores, por isso, acabamos por fazer concessões e abrir mão de alguns princípios cristãos. Por isso, de tempo em tempo, precisamos voltar à palavra e nos acertar com Deus. Que estejamos dispostos a recomeçar e a assumir compromissos com Deus.

Bibliografia:
1. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 165
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 667
3. SWINDOLL, Charles R. Vamos construir juntos! São Paulo: Candeia, 2008. pág. 165
4. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 668
5. KIDNER, Derek. Esdras e Neemias: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1985. pág. 127
6. GRETZ, J. R. O prefeito de Jerusalém: Segredos de Neemias para os líderes de hoje. Florianópolis: GB Comunicação, 1997. pág. 158


DEC - PCamaral

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Não há mudança de atitude, quando não há arrependimento e confissão.

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Os que eram de ascendência israelita tinham se separado de todos os estrangeiros. Levantaram-se nos seus lugares, confessaram os seus pecados e a maldade dos seus antepassados. (Ne 9:2)
Ao sermos confrontados e iluminados pela palavra de Deus, deixamos de nos justificar e, logo, reconhecemos nossos pecados. Então, não há outra saída, senão a confissão sincera. Este é o maior sinal do arrependimento. O povo que voltou do cativeiro babilônico viveu essa maravilhosa experiência. Em Neemias 9, encontramos uma das mais belas orações de confissão de toda Bíblia. Israel fez uma retrospectiva de sua história e viu o quanto pecara, mas também viu o quanto Deus é bom. Numa atitude de contrição e quebrantamento, o povo olhou para o passado, a fim de ver onde tinha caído e de não repetir mais os mesmos erros.
O capítulo 8 de Neemias termina com o povo celebrando a Festa dos Tabernáculos. Já o capítulo 9 trata de um momento em que a festa já havia terminado, mas o povo ainda permanecia na cidade e desejava ouvir mais a palavra de Deus. Os banquetes transformaram-se em jejum e as vestes festivas trocadas por pano de saco (Ne 9:1). À medida que a palavra os convencia da culpa, os judeus sentiam cada vez mais a necessidade de se confessar a Deus. Por isso, aquele culto, que aconteceu no dia 24 daquele mês [1], foi diferente e especial: houve três horas de pregação e três horas de oração, E, levantando-se no seu lugar, leram no livro da lei do SENHOR seu Deus uma quarta parte do dia; e na outra quarta parte fizeram confissão, e adoraram ao SENHOR seu Deus. (Ne 9:3). O texto informa que os descendentes de Israel se separaram de todos os estrangeiros. Eles colocaram-se em pé, confessaram os seus pecados e a maldade dos seus antepassados (Ne 9:2– NBV). Aos reconhecer e confessar seus pecados Israel cresceu.
Reconhecendo a grandeza do Criador: Sob a liderança dos levitas, possivelmente, tendo Esdras como porta voz, [2] o povo de Deus orava com fervor. Assim como muitas outras orações da Bíblia, essa oração começou com adoração. Israel reconheceu a majestade de Deus. É impressionante a consciência que os levitas e o povo tinham a respeito da grandeza de Deus. Eles oravam dizendo: Bendito seja o teu nome glorioso! A tua grandeza está acima de toda expressão de louvor (Ne 9:5b). Essa consciência era resultado da exposição do livro da Lei. De fato, “a adoração envolve a palavra de Deus, pois a palavra de Deus revela o Deus da palavra”. [3] Eles continuaram recordando a grandeza de Deus: Só tu és Senhor; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos (Ne 9:6). Que profunda teologia! Aqui, em primeiro lugar, Israel reconhece que Deus é o Criador do universo. Em segundo lugar, declara que Deus é o mantenedor da vida. O Todo-Poderoso não apenas criou, mas sustenta todas as coisas. E, em terceiro lugar, confessa que Deus é o soberano da criação. Ele está na cabine de comando do universo. O Senhor é quem dirige a história da humanidade. É ele quem conduz a história do seu povo.
Fazendo lembrança da história de Israel: Na oração de confissão, após recordar e louvar a grandeza do Criador, os levitas recordaram a história de seu povo. Fizeram uma retrospectiva, desde o chamado de Abrão até a posse da terra prometida (Ne 9:7-15). Lembraram como Deus chamou Abrão da terra de Ur; recordaram as promessas que lhe fez e como cumpriu essas promessas; trouxeram à memória também como Deus mudou o nome e a vida de Abrão e como multiplicou a sua descendência. Não esqueceram que Deus foi sensível ao sofrimento de seu povo no Egito e lhe proveu um libertador. Recordaram os milagres que fez diante do Faraó, como demonstração de que ele é o único Deus poderoso. Não foram esquecidos também quanto aos prodígios que o Senhor realizou em benefício do povo, desde o início de sua caminhada no deserto até sua entrada em Canaã: a abertura do Mar Vermelho, a nuvem e a coluna de fogo; a provisão de água e pão, e, acima de tudo, o concerto que fizera com esse povo, no Monte Sinai, quando lhe deu a Lei. Fazendo lembrança de sua história, Israel tinha a melhor de todas as oportunidades para crescer espiritualmente. Essa é uma das vantagens que temos toda vez que revemos o nosso passado em busca de lições que nos sirvam de orientação para o presente e para o futuro.
Reconhecendo o pecado do povo: Nesta viagem ao seu passado histórico, os israelitas se depararam com uma realidade triste: constataram que não foram gratos e fiéis a Deus quanto deveriam ter sido, a despeito de todos os benefícios que receberam dele (Ne 9:16-18). Reconheceram que tinham pecado contra Deus e precisavam de arrependimento e conversão. A descoberta que fizeram foi descrita pelos levitas com as seguintes palavras: E recusaram ouvir-te, e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste; e endureceram a sua cerviz, e na sua rebelião levantaram um chefe, a fim de voltarem para a sua servidão (Ne 9:17). O reconhecimento da culpa e a consequente confissão, no entanto, só se tornaram possíveis depois que ouviram e refletiram sobre a palavra de Deus. Esta tem sido ao longo do tempo, a responsável pelos mais notáveis despertamentos espirituais. Se quisermos experimentar um verdadeiro reavivamento espiritual, precisamos começar por dar lugar à palavra de Deus em nossa igreja, em nossa família e em nossa vida. “O conhecimento das Escrituras provocou um claro entendimento da ação de Deus na História. Deus está ativo na história do seu povo e na história das nações”. [4]
Exaltando a bondade do Senhor: É impossível relatar a história do povo de Israel, sem enfatizar a bondade e o cuidado do Senhor manifestados para com esse povo (Ne 9:19-29). Em nenhum momento Deus o abandonou no deserto, onde o povo peregrinou por quarenta anos. Durante o dia, ele o fez andar à sombra de uma nuvem, e, à noite, ao clarão de uma coluna de fogo que o guiava por onde tinha de andar. Seus vestidos não envelheceram, seus sapatos não apresentaram roturas e seus pés não incharam. Subjugou reinos; multiplicou-se como as estrelas do céu; tomou posse da terra que fora prometida a seus pais; conquistou cidades fortes, e possuiu casas cheias de mantimentos, poços já escavados e olivais produzindo. Tudo isso foi conseguido não por seus próprios esforços, mas pela bondade do Senhor. A despeito disso, porém, os filhos de Israel se rebelaram contra ele e lançaram a sua Lei para trás de suas costas (Ne 9:26). Isto fez com que Deus os entregasse nas mãos dos seus inimigos, a fim de que os angustiassem. Mas, estando eles angustiados, voltavam-se para o Senhor, pedindo-lhe misericórdia, e o Senhor os ouvia, enviando-lhes libertadores: Porém, em tendo repouso, tornavam a fazer o mal (...) e convertendo-se eles, e clamando a ti, tu os ouvistes desde os céus, e segundo a tua misericórdia, os livraste muitas vezes (Ne 9:27-28).
“Deus foi bom para seu povo quando seu povo não foi bom para ele”
Recordando a misericórdia de Deus: O povo, em sua confissão lembra o quanto Deus lhe fora gracioso (Ne 9:30-38). Aos que imaginam que a graça é um favor divino que só veio a existir a partir do Novo Testamento, lembramos que essa bênção divina sempre existiu e se manifestou na história dos hebreus. Os salmos 78, 106 e 107 mostram exatamente isso. Esses salmos registram, até de maneira repetitiva, os altos e baixos da história desse povo, destacando-se, neles, a graça e a misericórdia do Senhor. Sua narrativa é muito parecida com a do livro de Neemias, em que os próprios judeus reconheciam: Tu és justo em tudo quanto tem vindo sobre nós; porque tu fielmente procedeste, e nós, perversamente (Ne 9:33). A história era clara e evidente: “Deus foi bom para seu povo quando seu povo não foi bom para ele”. [5] Sem que houvesse mérito algum em Israel, o Senhor foi longânimo e misericordioso com ele. Enviou os profetas para ensinar, conduzir e advertir, mas a nação não quis ouvir (Ne 9:30). A expressão “pela tua grande misericórdia”, que os levitas citam no versículo 31, é semelhante ao que o profeta Jeremias havia dito, algumas décadas antes, recordando a graça de Deus: Todavia, lembro-me também do que pode me dar esperança: Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis (Lm 3:21-22 - NVI). Por causa do seu pecado, Israel havia passado por muitas privações. Mas até nisso os levitas viram a graça de Deus manifesta, pois, na aflição, o povo se arrependia e clamava por socorro, e Deus sempre o socorria (Ne 9:32-37). Havia uma promessa: Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra (2 Cr 7:14). O Deus de toda misericórdia estava sempre pronto a mostrar sua graça a este povo que não o merecia. Assim, Neemias, Esdras, os levitas e todo o povo fizeram aquela belíssima oração de confissão, de maneira peculiar: recordando sua história e reconhecendo o agir de Deus nela.
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
1. Recordar nos faz crescer, quando vemos a bênção de Deus em nossa história. Toda murmuração é pecado, porque é fruto de nossa ingratidão para com Deus (1Co 10:10). O melhor remédio para o murmurador é a recordação. Quando os israelitas faziam esse exercício, percebiam o quanto eram abençoados e logo diziam: Grandes coisas fez o Senhor por nós (Sl 126:3). Voltando a seu passado, o povo tinha a oportunidade de relembrar todas as obras que o Senhor realizara em seu benefício, ao longo de sua história. Em pouco tempo, percebia o quanto havia sido ingrato com Deus. Assim, pedia perdão, louvava e glorificava o nome do Senhor. Se, como aquele povo, trouxermos à lembrança tudo o que o Senhor tem feito em nosso favor, descobriremos que são inúmeros os motivos que temos para lhe rendermos graças. Você tem feito isto?
2. Recordar nos faz crescer, quando vemos a graça de Deus em nossa história. Nem sempre recordar nos faz crescer, pois, em alguns momentos, as recordações só nos deixam mais tristes e trazem à tona traumas adormecidos. Contudo, quando olhamos para o passado e conseguimos ver a graça de Deus em nossa história, crescemos espiritualmente. Jeremias mostrou que sabia disso, quando disse: Quero trazer à memória aquilo que me dá esperança (Lm 3:21). Quando você pensa em como era sua vida, antes de conhecer o nosso Senhor, pode até perguntar a si mesmo: “O que Jesus viu em mim para me salvar?”. Na verdade, não há mérito algum em nós. Tudo que ele fez em nossa história foi por amor. É a graça do Deus misericordioso o motivo que não somos consumidos (Lm 3:22) e o seu amor por nós, a razão de ainda estarmos aqui. Então, podemos cantar aquele hino: “Oh! por que Jesus me ama? Eu não posso te explicar! Mas a ti também te chama, pois deseja te salvar!”.
3. Recordar nos faz crescer, quando vemos a direção de Deus em nossa história. O caminho percorrido por muitos cristãos, a partir do momento em que aceitam o evangelho, não poucas vezes, é cheio de percalços, cheio de obstáculos. Porém, se esses mesmos cristãos têm a convicção de que Deus está na direção de suas vidas, nada devem temer. Deus é o mesmo. Portanto, a exemplo do que ele fez com Israel, no passado, fará com aqueles que o amam e obedecem a sua palavra, no tempo presente. Os levitas recordaram a história do seu povo, em sua confissão, e notaram a direção bondosa de Deus em cada momento dessa história: corrigindo, protegendo e salvando Israel. Temos sentido a direção de Deus em nossa história? Se pararmos para analisar a nossa caminhada, certamente, veremos a mão de Deus nela e poderemos dizer como disse Samuel: Até aqui nos ajudou o Senhor (1 Sm 7:12).
CONCLUSÃO
São muitas as lições que podemos aprender com este estudo, que tem como base uma parte da história do povo de Israel. Uma delas consiste em saber que não há mudança de atitude, quando não há arrependimento e confissão. Na oração de confissão e contrição feita no capitulo 9 de Neemias, Israel faz uma retrospectiva de sua história e descobre que respondeu à bondade e misericórdia de Deus com ingratidão e rebeldia. Esse exercício de memória fez Israel crescer espiritualmente. Aquele que não recorda o erro do passado está condenado a revivê-lo. [6] Portanto, querido irmão em Cristo, sempre relembre a sua história e a história do povo de Deus, para aprimorar os acertos e não repetir os erros.

Bibliografia
1. Era o mês de Etanim ou Tisri, o sétimo mês do calendário sagrado, e o primeiro do ano civil  - BOYER, O. S. Pequena enciclopédia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 1989. pág. 55
2. HARPER, A. F. (et all). Comentário Bíblico Beacon: Josué a Ester. Vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. pág. 526
3. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 661
4. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 163
5. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 665

DEC - PCamaral

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Reavivamento através da Escritura Sagrada

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E Esdras abriu o livro à vista de todo o povo; porque estava acima de todo o povo; e, abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé. (Ne 8:5)

Avivamento, segundo as Escrituras Sagradas, é o ato de Deus dar vida espiritual, por meio da fé em Cristo, àqueles que estão mortos em delitos e pecados (Ef 2:1). Por sua vez, reavivamento é o ato de Deus dar novas forças espirituais, por meio do Espírito Santo, aos que não mantiveram a chama da fé viva (2 Tm 1:6). No Antigo Testamento, o melhor exemplo de reavivamento espiritual encontra-se em Neemias 8. O povo de Jerusalém, depois da reconstrução dos muros e da reorganização da sociedade, encontrava-se estruturado materialmente. Contudo, estavam desestruturados espiritualmente. Por isso, humildemente, Neemias chamou Esdras para fazer a reforma mais importante. O que foi determinante do trabalho de Esdras?

Aprendemos, nos capítulos sete e onze do livro de Neemias, que o povo de Judá estava com uma boa estrutura organizacional, as pessoas estavam bem estabelecidas na capital, tinham proteção adequada e eram bem governadas. Que povo não gostaria de estar em tal situação? Casas boas, bons empregos e segurança para todos é o ideal dos governos. Para qualquer povo, essa estabilidade material rende o status de “país desenvolvido”. Mas estamos nos referindo a Judá, o povo de Deus. Logo, dinheiro, conforto, estrutura, não é tudo. O principal estava faltando em Jerusalém: um reavivamento na vida espiritual do povo de Deus. E esta foi a principal reforma de Neemias. O reaviamento veio pela palavra de Deus. O Espírito Santo a usou para reavivar o coração do povo. Vejamos como tudo aconteceu.

A exposição das Escrituras: A prosperidade material, quando adquirida com trabalho honesto, é uma bênção divina. Ainda assim, o maior desafio é usá-la para a glória de Deus. Jerusalém estava cheia de dinheiro, mas vazia espiritualmente. “As necessidades materiais da cidade haviam sido supridas, e era hora de se concentrar nas necessidades espirituais”. [1] No meio do conforto material, poucos conseguem ver que lhes falta o principal. Neemias viu, porque era homem temente a Deus; tinha o coração no Altíssimo; era um líder que via a falta na fartura, e estava ciente de que o povo tinha casa cheia, mas alma vazia. Para a reconstrução do principal, o governador Neemias convocou o escriba e sacerdote Esdras. Aprendemos, então, como é que se reconstrói a vida espiritual de um povo. Para tanto, o governador convocou as gentes, e todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da porta das águas (Ne 8:1). A Porta das Águas localizava-se “num dos centros da vida da cidade, no tipo de lugar onde a sabedoria de Deus roga mais urgentemente ser ouvida (cf. Pv 1.20-21; 8.1ss)”. [2] Era manhã em Jerusalém. Todo o povo estava ali, à espera do que viria. Neemias autorizou e Esdras saiu da obscuridade. Entrou em cena o mestre na palavra de Deus. Ele chegou com o Livro da Lei nas mãos. Tudo indica que era o Pentateuco. Começa o reavivamento.
“Antes de entrar no coração e liberar seu poder transformador, a palavra de Deus deve ser compreendida”. [3]
Do alto do púlpito de madeira, com o sol ainda “sonolento”, o professor começou a ler a Bíblia Sagrada (Ne 8:3). Junto a ele, uma equipe de estudiosos, gente que sabe explicar as Escrituras (Ne 8:4). Em baixo, na praça lotada, ouvidos atentos tanto de homens como de mulheres, e todos os que podiam ouvir com entendimento (Ne 8:2-3). Professor, estudiosos, gente capaz de entender o que ouve é o que se vê em Neemias 8:1-4. “Antes de entrar no coração e liberar seu poder transformador, a palavra de Deus deve ser compreendida”. [3] O conteúdo da Bíblia não é mágico. Só ler, não resolve. É necessário ler e entender. “Há uma profunda conexão entre o ensino fiel das Escrituras e o reavivamento”. [4] Na história de Deus com seu povo, não existe reavivamento sem Bíblia, sem Palavra, sem Escritura. Pode haver empolgação, euforia, movimentação, mas vida espiritual autêntica, só há com leitura e compreensão correta das Escrituras. Quando a pregação da palavra de Deus é feita com clareza e poder do alto, há despertamento espiritual. Adepto do reavivamento pela palavra, Esdras abriu o livro diante de todo o povo, e este podia vê-lo (Ne 8:5a – NVI). O povo ouviu e viu a Bíblia. Veja o resultado: ... quando abriu o livro, o povo todo se levantou (Ne 8:5b). Não é adoração ao Livro: é respeito à palavra. Pregador, o povo não precisa ouvir extravagâncias espirituais, mas necessita escutar o evangelho! O povo de Deus não é carente de imagens impressionantes em telões ou de computadores modernos no púlpito, mas de ver a Bíblia aberta na mão do pregador. Ore, jejue, santifique-se. Depois, suba ao púlpito. Leia e pregue a Escritura. Deixe o povo ver o Livro Santo. Vão saber que ali está a palavra de Deus. Esdras assim o fez, e, em seguida, louvou o Senhor, o grande Deus, e todo o povo ergueu as mãos e respondeu: “Amém! Amém!” Então eles adoraram o Senhor, prostrados, rosto em terra (Ne 8:6 – NVI). Se você ler e explicar a palavra, o reavivamento acontecerá.
O povo de Deus não é carente de imagens impressionantes em telões ou de computadores modernos no púlpito, mas de ver a Bíblia aberta na mão do pregador.
A prática das Escrituras: Entraram em cena os auxiliares de Esdras e os levitas. Desceram à praça, aproveitando o momento de quebrantamento espiritual. Eles ensinavam o povo na lei (Ne 8:7b). O reavivamento espiritual autêntico tem sempre como fonte as Escrituras; mas não para: segue mantido pela mesma Escritura. Assim é que, em plena adoração ao Senhor, os cooperadores de Esdras saíram lendo o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido (Ne 8:8 – NVI). Bíblia antes e durante o reavivamento. Isso mostra que não pode haver superficialidade bíblica na igreja, pois o principal lugar terreno de onde Deus governa sua igreja é o púlpito. Com a lei de Deus na mente e no coração, o povo teve uma reação surpreendente: ... todo o povo estava chorando enquanto ouvia as palavras da Lei (Ne 8:9b – NVI). Antes, estavam ocupados em ter conforto material ou ser “de primeiro mundo”. Agora, a Escritura explicada lhes trouxe convicção espiritual, entenderam que era necessário mudança nas práticas diárias! Entenderam que estavam longe de Deus. Choravam por estarem em pecado. É isso mesmo, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado (Rm 3:20). Geralmente, em todo reavivamento genuíno na história, essa mesma história se repetiu. Depois da exposição da palavra de Deus, sempre houve uma mobilização como resposta por parte do povo de Deus. [5]
O arrependimento pode nos fazer chorar, mas a fé em Deus produz alegria. Um dos segredos da alegria cristã é obedecer às Escrituras. Isso traz contentamento (Sl 112:1; 1:2).
Depois da convicção do pecado, a palavra de Deus trouxe alegria ao povo. Quem se arrepende, não permanece choroso. Por isso, Neemias, Esdras e os levitas lhes disseram: Este dia é consagrado ao Senhor Deus. Nada de tristeza e de choro! Não se entristeçam, porque a alegria do Senhor os fortalecerá (Ne 8:9-10). “É tão errado chorar quando Deus nos perdoou quanto é errado se regozijar quando o pecado nos derrotou”. [6] O arrependimento pode nos fazer chorar, mas a fé em Deus produz alegria. Um dos segredos da alegria cristã é obedecer às Escrituras. Isso traz contentamento (Sl 112:1; 1:2). Todo o povo deveria celebrar! Ninguém poderia ficar de fora, nem mesmo aqueles que não tinham nada preparado, isto é, os que passavam necessidades. Esdras, Neemias e os levitas, cuidaram para que a celebração não fosse egocêntrica. Como eles fizeram isso? Associaram a celebração à doação: Vão agora para casa e façam uma festa. Repartam a sua comida e o seu vinho com quem não tiver nada preparado (Ne 8:10a – NTLH). “Isto também deu aqueles que estavam padecendo necessidades uma oportunidade para celebrar”. [7] Os versículos finais do capítulo 8 de Neemias, os versículos 13 a 18, ensinam que a obediência à Lei, sendo movida pela alegria da salvação, não é penosa, mas prazerosa. Assim, o povo voltou à praça no dia seguinte para aprender mais da Lei. E foi outra vez reavivado pela celebração da Festa dos Tabernáculos, isto é, a gratidão pela colheita do fim do ano e a lembrança da forma de vida no deserto, após o êxodo do Egito, quando Israel habitou em cabanas, protegido por Deus. Era o reavivamento das tradições bíblicas. Foi uma semana de celebrações, uma semana de Bíblia, uma semana de mui grande alegria, terminando com uma assembleia solene e espiritual (Ne 8:17-18; cf. Nm 29:35).

Não basta o povo de Deus ter belas, detalhadas e engenhosas estruturas organizacionais, se não tiver vida espiritual! O exterior se mostra belo, mas não reflete o interior. Jerusalém estava repovoada, os muros reconstruídos, mas faltava uma reforma espiritual. Conforme vimos, ela aconteceu. Se esta restauração não tivesse sido feita, Jerusalém estaria inacabada; por isso, através da palavra, o Espírito Santo deu novas forças espirituais ao povo de Judá. A Bíblia foi exposta e o povo respondeu praticando-a. As Escrituras causaram grande impacto na vida do povo. Esta, com toda certeza, foi a maior reforma implementada em Jerusalém!

APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA


Quando o povo se reúne para ouvir a Palavra de Deus é reavivado por Ele - Neemias 8:1 e 2 diz que o povo veio ouvir a Lei de Deus. Quando nos reunimos na igreja, qual o nosso interesse? Queremos resultados materiais ou ouvir a verdade? Queremos bênçãos ou o Deus das bênçãos? Nós nos juntamos para ouvir o cantor, o pregador ou a palavra de Deus? Nós nos reunimos para nos vermos ou ouvirmos o evangelho? Amados, na igreja, nada pode nos atrair mais do que a vontade de ouvir as Escrituras Sagradas. Quando nos encontramos com este propósito, o Espírito Santo começa a reavivar seu povo, isto é, dar novas forças espirituais, sem as quais não poderemos vencer as astutas ciladas do maligno; mas, reavivados, estaremos firmes na fé.

Quando o povo se reúne e prioriza a pregação da Palavra de Deus é reavivado por Ele - Neemias 8:3-12 diz que Esdras e seus auxiliares fizeram uma pregação expositiva e extensiva da lei, ou seja, todo o tempo foi gasto com o texto bíblico. No culto, a pregação tem valor importantíssimo! Mas a pregação bíblica! Abaixo o excesso de gracejos e afagos no púlpito! O compromisso de Deus não é com as nossas palavras, mas com a palavra dele. Venha a nós a pregação que produz entendimento espiritual, pois a fé bíblica não anula o raciocínio (Rm 10:14 e 15). As pessoas entendem o que você prega? Deus reaviva a igreja, quando esta não prega suas ideias, mas o evangelho de Cristo! Só assim, a palavra alcançará os corações como uma flexa afiada.

Quando o povo de Deus pratica a Sua Palavra é reavivado por Ele - Neemias 8:13 a 18 apresenta o resultado da pregação da palavra de Deus: o povo entendeu, arrependeu-se e mudou de vida. Quando saímos da igreja, que levamos em nossa mente: indiferença com o que ouvimos ou decisão de mudança? Saímos secos ou tocados pela palavra? Nossa mente tem que voltar para casa menos carnal e mais cheia de luz. Lágrimas devem ser derramadas! Choramos por nossos pecados? Amados, quando a igreja decide obedecer à palavra, Deus a mantém reavivada. Alegria e celebração marcam sua trajetória, uma vez que decidiu não mais buscar novidades, mas voltar-se para a prática dos ensinamentos das Escrituras.

CONCLUSÃO

Há pessoas que criticam os reavivamentos da Bíblia porque, depois de um tempo, o povo reavivado voltou aos mesmos erros de outrora, tendo de recomeçar. Ao invés de criticar, deveríamos agradecer a Deus por estar sempre disposto a nos dar novas forças espirituais, sobretudo, nos momentos de fraquezas, pois sabe que somos pó. Graças a Deus que, de tempos em tempos, vem com mais força aos nossos corações, nos tira do comodismo material e faz com que reconheçamos os nossos erros, nos arrependamos e voltemos para seus braços de amor, convertidos e prontos para celebrar sua salvação com regozijo.

Que Deus nos abençoe!


Bíbliografia
1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 656
2. KIDNER, Derek. Esdras e Neemias: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1985. pág. 115
3. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 62
4. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 131
5. SWINDOLL, Charles R. Vamos construir juntos! São Paulo: Candeia, 2008. pág. 141
6. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 64
7. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal (2004:676).


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domingo, 27 de novembro de 2011

Como Neemias Reorganizou Jerusalém

2 comentários:
Depois que o muro foi reconstruído e que eu coloquei as portas no lugar, foram nomeados os porteiros, os cantores e os levitas. (Ne 7:1

No último artigo sobre o tema “Neemias”, vimos que, mesmo em meio às calúnias, a reconstrução dos muros de Jerusalém chegou ao fim (Ne 6:16). Até o capítulo 6 de Neemias, o foco era a reconstrução dos muros. Todavia, do capítulo 7 em diante, muda-se o foco. A frase “depois que os muros foram reconstruídos” marca essa transição. A partir daqui, o foco do livro passa a ser os cidadãos e uma reconstrução da vida espiritual. Depois que os muros foram reconstruídos, a comunidade precisava ser reorganizada. Jerusalém ficou muito tempo despovoada. Não havia habitantes; a cidade agora tinha muros, mas quase não tinha pessoas residindo nela. Por que construir muros em volta de entulhos? Neste estudo, trataremos das medidas tomadas por Neemias para resolver esse problema.

Uma cidade não é feita só de muros e paredes, mas de pessoas. Os capítulos 7 e 11 de Neemias tratam da reorganização da cidade de Jerusalém. Assim como o capítulo 3, estes dois capítulos podem até parecer bem áridos e sem vida, afinal, como extrair princípios para a nossa vida cristã à luz dessas longas listas de nomes difíceis? Entretanto, não podemos nos esquecer do que diz a carta aos Romanos: ... tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar (15:4). Mesmo nessas listas de nomes, podemos encontrar verdades espirituais. Estes capítulos tratam da reorganização da comunidade de Jerusalém: sua reestruturação e repovoamento. Consideremos estes dois assuntos.

A REESTRUTURAÇÃO:

Depois de conduzir brilhantemente a reconstrução dos muros da cidade, Neemias, também, de forma brilhante, restaura a ordem na cidade de Jerusalém. “As pessoas sabiam o que fazer na construção do muro e depois da construção do muro”. [1] As principais medidas que visavam à reestruturação da comunidade estavam ligadas a duas áreas: a segurança e a liderança. Comecemos tratando das medidas para a proteção da cidade. O versículo 1 do capítulo 7 diz que, uma vez reconstruídos os muros, foram estabelecidos “porteiros”. Eles seriam os vigias, tanto das portas do templo quanto dos portões da cidade. Esses porteiros receberam instruções específicas sobre seu trabalho.

Neemias lhes disse: ... não se abram as portas de Jerusalém até que o sol aqueça e, enquanto os guardas ainda estão ali, que se fechem as portas e se tranquem (v. 3a). “No Oriente, o costume era abrir os portões de uma cidade ao nascer-do-sol e fechá-los ao pôr-do-sol. Ninguém era admitido na cidade antes ou depois destas horas”. [2]

Quando abertos, pela manhã, era comum a entrada de comerciantes, que vinham e montavam suas barracas de venda, além de ser, também, um convite para a entrada de inimigos. Este era um bom horário para os inimigos entrarem, pois a maioria do povo da cidade ainda estaria dormindo e desprevenido. Por essa razão, Neemias tomou algumas medidas para proteger ainda mais o povo, diminuindo o tempo em que os portões ficariam abertos, ou seja, não a partir do “nascer do sol”, mas a partir do momento em que o sol se aquecesse, garantindo, assim, que as pessoas estivessem acordadas e alertas.

De igual modo, Neemias também instituiu guardas para vigiarem a cidade durante a noite (v. 3b), “presumivelmente um grupo colocado em diversos postos espalhados pelo muro e o outro junto às casas para guardar as diversas partes da cidade”. [3] É interessante observar que Neemias continuou com a tática de deixar as pessoas trabalhando perto de suas casas (cf. 3:10, 23, 28-30). Obviamente, por saber que estava perto de casa, o guarda ficava muito mais comprometido com a vigilância. Com os porteiros e com os guardas espalhados nas mais diversas regiões da cidade, dia e noite, Jerusalém estava bem mais protegida de ataques externos. Um sistema de segurança fora estabelecido.

A segunda medida tomada, visando à reestruturação da comunidade, estava ligada à liderança da cidade de Jerusalém. Neemias não era do tipo centralizador, que faz tudo e não quer nomear novos líderes. Ele sabia que a cidade estava reconstruída, precisava de novos líderes e, em razão disso, fez nomeações. Escolheu duas pessoas preparadas para a tarefa. Duas pessoas que dariam conta do recado. Foram elas: Nomeei Hanani, meu irmão, para governar Jerusalém, e com ele Hananias, comandante da fortaleza (v. 2a). É bom sabermos que Neemias não nomeou Hanani simplesmente porque ele era seu irmão.

Foi Hanani quem viajou até a corte de Artaxerxes para avisar Neemias da situação dos judeus, num tempo de oposição contra a reconstrução de Jerusalém (Ed 4:16). Ele era um homem totalmente comprometido com a situação em que se encontrava Jerusalém. Era respeitado; tinha conquistado a confiança do povo. Quanto a Hananias, a razão de sua escolha encontra-se no final do versículo 3: ... era homem fiel e temente a Deus, mais do que a maioria dos homens. Hananias não era o tipo de pessoa que brincava de servir a Deus, mas do tipo de pessoa que o leva a sério. Com uma liderança assim, Jerusalém tinha tudo para avançar.

O REPOVOAMENTO:

A segurança e a liderança da cidade foram instituídas, mas ainda faltavam pessoas para morar em Jerusalém: A cidade era espaçosa e grande, mas havia pouca gente nela, e as casas não estavam edificadas ainda (7:4). Jerusalém precisava ser repovoada.

Alguém pode perguntar: Mas por que Jerusalém fora deixada relativamente desabitada? Precisamos nos lembrar que a cidade não tinha muros e ficara mais de cem anos nessa situação; então, até “que os muros estivessem de pé, nada poderia ser feito. Com ele no chão, Jerusalém não tinha defesa contra atacantes e invasores, e não era local para se fazer um lar (7.4)”. [4] Morar em Jerusalém, sem muros, significava correr perigo.

Ademais, como a cidade estava debilitada e o comércio fragilizado, faltava dinheiro. No interior, as pessoas estariam aparentemente mais seguras e poderiam ser mais prósperas. [5] Por isso, um dos grandes desafios de Neemias, depois da reconstrução dos muros, era trazer as pessoas de volta para Jerusalém. Como ele fez isso? Primeiramente, decidiu fazer um recenseamento (Ne 7:5). Essa decisão não partiu da sua cabeça: Deus a pôs no seu coração. O senso não era só para ver quantas pessoas havia ali, mas quem eram essas pessoas. A cidade precisava ser povoada, mas não a qualquer custo.

A cidade precisava estar habitada por servos de Deus genuínos, isto é, judeus puros. “Por causa disso alguns sacerdotes foram afastados: não puderam provar sua ascendência; certamente seus ancestrais foram casados com gentios”. [6] Para nós, essas medidas podem até parecer exageradas, mas não eram no contexto em que Neemias vivia. Nesta época, as tradições eram extremamente valorizadas e, como líder, ele tinha de defendê-las. Quando decidiu fazer o censo dos judeus, encontrou o registro das famílias dos que foram os primeiros a voltar de Judá (v. 5b), com Zorobabel. O nome destas pessoas está registrado em Neemias 7:6-73. Esse registro veio a ser a base que Neemias usou para determinar a pureza daqueles que iriam morar em Jerusalém.

No capítulo 11 de Neemias, temos registrados os nomes daqueles que repovoaram Jerusalém. Esse capítulo é uma continuação do capítulo 7, e, por isso, ambos não devem ser lidos separadamente. As poucas pessoas que moravam em Jerusalém, mencionadas no capítulo 7, eram os príncipes do povo, segundo o capítulo 11 (v. 1). O restante do povo construiu casas fora de Jerusalém, ocupava-se da vida agrícola, longe dos problemas próprios de toda cidade grande. [7] Por causa dos motivos que já mencionamos, era mais vantajoso viver fora de Jerusalém. Porém, duas coisas fizeram o povo voltar para Jerusalém, segundo o capítulo 11: Em primeiro lugar, eles lançaram sortes para trazer um de dez para que habitasse a santa cidade de Jerusalém; e as nove partes permaneceriam nas outras cidades (v. 1b).

Um homem em cada dez levaria sua família para a capital. O lançar sortes demonstrava, para os judeus, submissão à vontade de Deus (cf. Pv 16:33). Na mente deles, por este método, era o próprio Senhor quem decidiria as famílias que deveriam ir para Jerusalém. Em segundo lugar, o capítulo 11 também diz que houve um grupo que se ofereceu voluntariamente para morar em Jerusalém (v. 2). No primeiro versículo, não temos voluntários: se a sorte caísse sobre determinada família, esta teria que mudar. O termo hebraico traduzido por “voluntariamente” traz a idéia de generosidade interior, disposição. “Em outras palavras, bem no fundo, esses voluntários foram instigados, impelidos por Deus para mudar-se. E foi o que fizeram”. [8] Estes, diz o texto, foram abençoados pelo povo (v. 2).

Na continuação do capítulo 11, dos versículos 3-19, temos a lista daqueles que foram morar em Jerusalém; dos versículos 20-36, daqueles que foram habitar nas cidades de Judá e nas aldeias e povoados do interior. É interessante observarmos que Neemias não organizou apenas a capital Jerusalém, mas toda a nação. Nessas listas, podemos ver o número das pessoas que foram morar nos lugares mencionados, assim como suas ocupações. Novamente, ficamos admirados com a organização de Neemias. Através de sua liderança, a cidade de Jerusalém foi reestruturada e repovoada e a nação fortalecida. As cicatrizes deixadas pela destruição do cativeiro babilônico começavam a ser apagadas. Tudo isso foi possível porque Neemias era um líder com o coração ligado no Altíssimo (7:5).

APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA

Devemos reconhecer o valor da história em nossas comunidades.

Os judeus que retornaram do exílio haviam preservado o registro genealógico de suas respectivas famílias. Quando Deus pôs no coração de Neemias o desejo de juntar o povo para registrar as genealogias (Ne 7:5), ele não teve muito trabalho, pois encontrou o registro pronto (Ne 7:6-73). A leitura da longa lista de nomes difíceis pode ser angustiante, mas cada nome tem uma história. “Esses judeus foram os ‘elos vivos’ que ligaram o passado histórico ao futuro profético e tornaram possível a vinda de Jesus Cristo ao mundo”. [9] A igreja de hoje reconhece a importância de preservar a sua história? Não podemos viver a lastimável experiência de ser um povo sem raízes. A razão de não sabermos quem somos, em muito, está ligada ao fato de não sabermos de onde viemos. Temos uma memória, temos raízes! Um povo que conhece sua história é um povo forte.

Devemos desejar líderes exemplares em nossas comunidades.

Quando foi nomear pessoas para assumir a liderança em Jerusalém, Neemias não escolheu qualquer um: escolheu pessoas fiéis e tementes a Deus (Ne 7:3). E é assim que deve ser. Paulo, escrevendo a Timóteo, disse: E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros (2 Tm 2:2). O bastão da liderança deve ser passado, mas não a qualquer um. Em nossas comunidades, desejemos líderes exemplares. Infelizmente, vivemos num país em que a corrupção de alguns dos nossos líderes chegou a níveis intoleráveis. Aqueles que deveriam ser exemplo para a nação a envergonham; aqueles que deveriam defendê-la a pisoteiam. Não podemos aceitar que isso aconteça no meio dos filhos de Deus! Oremos por nossos líderes!

Devemos orar por pessoas dispostas em nossas comunidades.

Se há algo que chama bastante atenção no capítulo 11 de Neemias é o número de pessoas dispostas a trabalhar nas mais diferentes frentes: havia 822 pessoas que faziam o serviço no templo (v. 12); os cabeças dos levitas presidiam o serviço fora da Casa de Deus (v. 16); todos os levitas na santa cidade foram duzentos e oitenta e quatro (v. 19); havia um que estava à disposição do rei, em todos os negócios do povo (v. 24) e um que dirigia os louvores nas orações (v. 17). Como é bom poder contar com pessoas dispostas em nossas comunidades para servir nas mais diferentes funções ou ministérios, gente que trabalha em favor do povo, que não busca apenas os seus próprios interesses, mas que tem alegria em servir o próximo! Geralmente, na igreja, 20% das pessoas servem e 80% são servidas. Oremos para que Deus desperte pessoas em nossas comunidades

CONCLUSÃO

Estudar os capítulos 7 e 11 do livro de Neemias nos dá uma dimensão ainda maior da missão desse servo de Deus. Ele não coordenou apenas a reconstrução dos muros da cidade de Jerusalém, como geralmente lembramos. Nesses capítulos, observamos a habilidade de Neemias, sob a direção de Deus, para reorganizar a cidade de Jerusalém. Ele institui a liderança e a segurança na cidade, além de tomar providências para seu repovoamento. Lembramos que podemos aprender alguns princípios para que as nossas comunidades sejam fortes, também. Reconheçamos o valor da história, desejemos líderes exemplares e oremos para que Deus levante pessoas dispostas ao trabalho.

Que Deus nos abençoe!



Bibliografia

1. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 122

2. CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 3. São Paulo: Candeia, 2000. pág. 1796

3. PFEIFFER, Charles F. (Ed.). Comentário Bíblico Moody. Vl. 2. São Paulo: IBR, 1988. pág. 295

4. PACKER, I. J. Neemias: paixão pela fidelidade – sabedoria extraída do livro de Neemias. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. pág. 78

5. LOPES, Hernandes Dias. Neemias: O líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006. pág. 179

6. GRETZ, J. R. O prefeito de Jerusalém: Segredos de Neemias para os líderes de hoje. Florianópolis: GB Comunicação, 1997. pág. 112

7. CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 3. São Paulo: Candeia, 2000. pág. 1808

8. SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempos de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. pág. 164

9. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 652


Fonte: DEC - Revista de estudos na Escola Bíblica 296 - 2011 | Adaptado para o blog por PCamaral

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Mantenha-se Integro Apesar das Mentiras do Inimigo – Triunfando em meio às calúnias

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Acabou-se, pois, o muro aos vinte e cinco dias do mês de elul, em cinqüenta e dois dias. Sucedeu que, ouvindo-o todos os nossos inimigos, temeram todos os gentios nossos circunvizinhos e decaíram muito no seu próprio conceito; porque reconheceram que por intervenção de nosso Deus é que fizemos esta obra. (Ne 6:15-16)

A calúnia é uma potente arma de destruição, capaz de destruir qualquer relacionamento, por mais durável que este possa ser. Ela afeta os relacionamentos das pessoas. Quem um dia foi vítima da calúnia, sabe o quanto ela é terrível, pois se trata de acusações falsas com o intuito de manchar a honra de alguém. Por mais íntegra que uma pessoa seja, ela pode ser alvo da calúnia. Logo, não é fácil lidar com esta, mas também não é impossível. Neemias foi alvo da calúnia, mas não foi derrotado por ela.
Neemias era um líder muito honrado por seus conterrâneos. E não somente por estes, mas, também, pelo rei persa, Artaxerxes (Ne 1:4-8). Era admirado por uns e odiado por outros. Neemias tinha inimigos ferozes que estavam dispostos a ir às ultimas consequências para prejudicá-lo. É desses homens maus que o início do capítulo 6 faz menção. Sambalate, Tobias, Gésem e os demais inimigos do povo de Deus eram pessoas derrotadas que não se davam por vencidas; não sabiam perder. Para não ficarem por baixo, arquitetaram planos “sujos”, dentre os quais se destaca a calúnia.
O capítulo 6 de Neemias tinha tudo para ser tranquilo. Afinal, o muro já havia sido edificado e os inimigos de Neemias, envergonhados. No entanto, este capítulo é marcado, dentre outras coisas, por ameaças, emboscadas e calúnias. A guerra ainda não havia terminado para Neemias. Após escapar de uma emboscada mortal, esse homem de Deus se deparou com a mentira dos seus inimigos: Entre as gentes se ouviu, e Gesém diz que tu e os judeus intentais revoltar-vos; por isso, reedificas o muro, e, segundo se diz, queres ser o rei deles (Ne 6:6). A imagem de uma pessoa é um tesouro que deve ser devidamente preservado. Neemias era portador de uma índole irrepreensível. Ele tinha não apenas carisma, mas, também, caráter. Era um líder segundo o coração de Deus. Mas os líderes segundo o coração de Deus não estão imunes às acusações infundadas. Neemias que o diga! Ele e o povo judeu foram acusados injustamente de rebelião contra o império persa. Centenas de anos mais tarde, Cristo sofreria acusação semelhante (Lc 23:1-5).
Por mais integro que você seja, não estranhe se os inimigos da obra falarem falsamente a seu respeito. Quem lança a calúnia, consegue um meio de propagá-la (Sl 64:4). Nesse caso, as palavras de acusações chegaram a Neemias por meio de uma “carta aberta”, que era, por si só, um meio de afronta, insulto e intimidação, pois as cartas oficiais eram enroladas e seladas, para que somente as autoridades pudessem abri-las e lê-las. [1] A “carta aberta” foi uma maneira encontrada por Sambalate de espalhar as suas mentiras entre o povo e destruir a reputação de Neemias. Mas não é somente por meio desse veículo que uma mentira pode ser propagada. Hoje, as redes sociais e a mídia fazem isso com muita facilidade. A língua também não fica atrás. Quem a utiliza como objeto de maledicência, deve lembrar que Deus abomina a língua mentirosa (Pv 6:16,19). Deus aborrece a calúnia em quaisquer circunstâncias, seja proferida a um membro da igreja ou a um líder desta. Quem lança mão da calúnia como mecanismo de defesa ou de ataque, prestará contas àquele que julga com justiça: Ao que às ocultas calunia o próximo, a esse destruirei (Sl 101:5a).
Mas por que a calúnia é tão grave e tão repudiada por Deus? A resposta é óbvia: ela denigre a imagem alheia, produz mágoa e desmotivação nas pessoas e, pior, causa desunião e rachaduras no corpo de Cristo. Era nessa situação que os inimigos de Neemias ansiavam vê-lo, a qualquer custo. Ao espalhar a boataria, Sambalate tinha duas pretensões. Em primeiro lugar, desestabilizar a comunhão que havia entre Neemias e o povo. Todos saberiam do conteúdo da carta; logo, a possibilidade de as pessoas duvidarem das boas intenções de Neemias era grande. Em segundo lugar, desestabilizar a comunhão que havia entre Neemias e o império. A acusação de rebelião, lançada sobre esse servo de Deus era grave porque os reis persas não toleravam resistência alguma da parte de seus súditos. [2] Sambalate ainda o ameaçou: ... essa informação será levada ao rei (Ne 6:7). A vida do líder e o destino do povo estavam ameaçados! Diante disso, como proceder? O que fez Neemias, em meio às calúnias?
Neemias foi um excelente exemplo de superação. Ele poderia ter se entregado às chantagens de Sambalate, se tornado um homem depressivo e desistido da obra, mas não o fez. Ele não cedeu às pressões e à fúria daqueles que queriam derrubá-lo. Esse líder soube lidar com a calúnia de modo positivo. Ele não perdeu o foco do seu trabalho, a saber, a reconstrução do muro de Jerusalém. Superar a calúnia não é algo fácil, mas também não é impossível. Neemias tem muito a nos ensinar nesse sentido, através de suas atitudes investidas de sabedoria divina.
Então, como ele agiu diante da calúnia?
Em primeiro lugar, Neemias se firmou na sua integridade. A afirmação de Neemias é contundente: Mandei dizer lhe: De tudo o que dizes coisa nenhuma sucedeu (Ne 6:8ª). Esta resposta não é uma reação impulsiva à acusação, mas uma afirmação convicta de quem tem integridade. Neemias não tinha o que temer. Os inimigos inventaram mentiras sobre ele, mas não encontraram falhas em seu caráter. O ditado popular “quem não deve, não teme” é muito feliz nesse sentido. A integridade pessoal é uma arma eficiente contra o mal da fofoca.
Em segundo lugar, Neemias desmascarou o acusador. Ele não deixou barato e rebateu a acusação falsa com uma acusação verdadeira: Tu, do teu coração, é que o inventas (Ne 6:8b). Ele não teve medo de Sambalate e o responsabilizou pela calúnia. Mas não o fez sem base. No versículo 9, Neemias justifica as suas palavras: Porque todos eles procuram atemorizar-nos, dizendo: As suas mãos largarão a obra. Quem faz a calúnia merece ser desmascarado e envergonhado. Precisa ser repreendido para que mude de atitude. Mais cedo ou mais tarde, a verdade virá à tona. Toda informação imprecisa cairá por terra e, juntamente com ela, o seu autor.
Em terceiro lugar, Neemias orou por fortalecimento. Os recursos da terra são importantes, mas não suficientes. Por isso, ele buscou forças do céu, isto é, de Deus: Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos. Toda calúnia que envolve a obra do Senhor é um problema espiritual. Logo, é imprescindível a intervenção divina. As investidas de Satanás são astutas e destruidoras, mas quem habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e baluarte, Deus meu, em quem confio (Sl 91:1-2). Neemias encarou a prática da oração como uma necessidade urgente que o ajudaria a suportar o problema da perseguição caluniosa.
Em quarto lugar, Neemias persistiu na obra de reconstrução. No primeiro versículo do capítulo 6, ele testemunha que o muro estava edificado, mas ainda faltava colocar portas nos portais. Porém, no versículo 15, a obra está completa: Acabou-se, pois, o muro (...) em cinqüenta e dois dias. Nos textos que separam estes versículos, vemos Neemias sendo perseguido por meio de ameaças e calúnias. Contudo, ele se mantém firme em sua postura: Estou fazendo grande obra (Ne 6:4). Esse líder experiente sabia que a desmotivação fazia parte do jogo sujo de Sambalate. Por isso, continuou a trabalhar na reconstrução do muro. Foi difícil, mas a vitória, finalmente, chegou. Após enfrentar a calúnia, Neemias pôde contemplar os frutos do seu árduo trabalho. Ele poderia dizer tranquilamente: “Valeu a pena cada segundo investido nesta obra!” Mesmo ciente das aflições pelas quais passou, ele poderia, sim, afirmar isso. Todo o trabalho valeu a pena porque Neemias não agiu imprudentemente diante da calúnia; porque era integro e ninguém podia provar coisa alguma contra ele; porque rebatia a acusação com a verdade, não com mentira; porque permitia a intervenção divina na sua vida; porque não desistiu, mas continuou a agradar ao Senhor. Se assim agirmos, superaremos a calúnia.
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
É preciso cuidar da mente. O intento do caluniador é prejudicar a sua vítima. No caso de Neemias, os acusadores tinham o propósito de fazê-lo desistir da obra. Eles sabiam perfeitamente que a calúnia é uma arma poderosa que afeta, de modo negativo, a mente de quem é caluniado, fazendo com que este se torne uma pessoa amargurada, revoltada e desinteressada pelas coisas de Deus. Mas Neemias não se deixou abater porque cuidou da sua mente. Ele não permitiu que as coisas negativas lhe influenciassem e o fizessem perder a razão. Portanto, ao ser caluniado, não se deixe desestruturar emocionalmente. Não desista da obra, mas continue a perseverar em fazer a vontade de Deus!
É preciso cuidar da língua. Atente para estas palavras do salmista: Os maus e os mentirosos falam contra mim e me caluniam (Sl 109:2). A calúnia é qualquer mentira proferida contra uma pessoa. É sobre a mentira que ela está alicerçada. Mas Neemias não firmava as suas palavras em mentiras, mas em verdades. Ele não rebateu a mentira com outra mentira porque não é assim que se deve proceder. Portanto, cuide da sua língua para não pagar o mal com o mal, isto é, calúnia com calúnia. Não use a língua para levantar falso testemunho contra quem o caluniou. Caso contrário, você não estará vencendo a calúnia, mas tornando-se cúmplice dela. Siga o conselho bíblico: Se você é sábio, controle a sua língua (Pv 10:19b).
É preciso cuidar da imagem. Muitos homens e mulheres de Deus caíram porque neles se achou culpa. Este, porém, não foi o caso de Neemias. Ele sabia da importância de se manter um caráter íntegro e não deu brechas ao inimigo. Paulo, por sua vez, observa: não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado (1 Co 6:3). Se os caluniadores agem depressa para espalhar as suas mentiras vergonhosas e destroem os bons com calúnias covardes (Sl 64:4), então, procure ser cada vez mais íntegro. A integridade é um forte mecanismo de defesa contra a mentira. A calúnia não vence os irrepreensíveis, isto é, aqueles que não têm nada que se possa censurar.
CONCLUSÃO
No decorrer da história, Deus utilizou a vida de muitas pessoas em situações adversas para nos ensinar a lidar melhor com os nossos problemas. Neemias viveu milênios antes de nós; porém, a experiência dele é extremamente útil para os cristãos de hoje. A calúnia, por sua vez, era um problema, também, nos tempos antigos. Muitos se tornaram vítimas dela no passado. Neste estudo, vimos que a calúnia pode ser proferida contra o inocente, mas pode ser vencida! Como isso é possível? Através do cuidado com a nossa mente, nossa língua e nossa imagem e, acima de tudo, através da nossa confiança e dependência no Senhor. Esse conselho é eficiente para quem deseja êxito nessa área.
Que Deus nos abençoe!

Bibliografia
1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 646
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 646

DEC - PCamaral

sábado, 19 de novembro de 2011

Como lidar com a injustiça social?

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Foi grande, porém, o clamor do povo e de suas mulheres contra os judeus, seus irmãos. (Ne 5:1)
Há pouco tempo publiquei aqui o artigo A Conspiração dos Inimigos da Obra de Deus. O trabalho de reconstrução dos muros, em Jerusalém, foi duramente atacado pelos inimigos do povo de Deus. Eles debocharam, conspiraram, ameaçaram, tudo para tentar fazer a obra parar. Mas não conseguiram. O estudo de hoje, de alguma maneira, também trata de uma situação que, se não fosse resolvida, atrapalharia o trabalho de reconstrução. O ataque dos inimigos, registrado no capítulo 4, é externo e direto, mas o problema relatado no capítulo 5 do livro de Neemias é interno e muito mais perigoso. O problema a que nos referimos é a injustiça social.
Como o problema surgiu:
Aumento populacional, juros abusivos, impostos elevados, corrupção, fome, opressão para com os menos favorecidos. Parece que você está lendo notícias nos jornais de hoje, não é verdade? Não! São notícias de fatos ocorridos há quase vinte e cinco séculos. Os oprimidos clamaram a Neemias, o seu líder. Até as mulheres, que, geralmente, não se manifestavam, se envolveram no protesto. Diante dos protestos e reclamações, o líder reagiu. Suas ações trazem relevantes ensinamentos que servem como resposta à pergunta tema deste estudo: Como lidar com a injustiça social?
O povo não foi se queixar a Neemias sem razão. Havia fome naqueles dias (Ne 5:3), sendo as possíveis causas: seca e falta de produtividade na lavoura, porque a terra não fora cultivada de forma a suprir a necessidade das centenas de pessoas que invadiram a cidade, por ocasião da restauração dos muros de Jerusalém. Segundo a reclamação do povo, a fome ocasionou a seguinte situação: Para não morrermos de fome, nós tivemos de penhorar os nossos campos, as nossas plantações de uvas e as nossas casas a fim de comprar trigo (Ne 5:3–NTLH). Além da fome, havia a cobrança de impostos de todos os súditos de Artaxerxes, que controlava o mundo conhecido. Os cobradores desses impostos exigiam mais que o tributo oficial e ficavam com a diferença, uma espécie de lucro extra. Para pagar os elevados impostos, os pobres tinham que vender seus filhos e a si mesmos como escravos (Ne 5:5). [1] A culpa dessa situação lastimável se devia, em muito, aos governadores que antecederam Neemias. Eles deram sua contribuição para o aumento da injustiça social. No capítulo 5:15, são citadas três práticas que prejudicaram a nação. Primeiro: oprimiram o povo, ou seja, aumentaram impostos; segundo: ... tomaram pão e vinho, além de quarenta ciclos de prata, possivelmente, uma atitude ilegal; terceiro: seus moços dominavam sobre o povo, ou seja, promoveram líderes não pela competência, mas pela conveniência. Colocaram em cargos estratégicos parentes, amigos e pessoas que não os contrariariam, independentemente do que seria melhor para o povo. Veja que situação lastimável!
Ao tomar conhecimento da situação, Neemias teve duas reações. Em primeiro lugar, ficou aborrecido, irritado, furioso (Ne 5:6). A palavra hebraica traduzida por “furioso” traz o sentido de “estar quente, tornar-se irado, inflamar-se”. É bom que se diga que não foi um acesso de raiva pecaminoso, mas uma indignação justa, ante a opressão imposta aos seus irmãos. [2] Neemias era homem de coração sensível, ele não agia com indiferença, frente às necessidades dos seus conterrâneos; [tratamos sobre isso no artigo Não seja um cristão indiferente!]. Só o fato de estar em Jerusalém era prova suficiente disso. Em segundo lugar, depois de ficar furioso, Neemias se pôs a pensar sobre a situação. Ele não agiu baseado na precipitação. Em Ne 5:7, lemos: Depois de ter considerado comigo mesmo. O momento exigia prudência. A Nova Bíblia Viva traduz esse texto assim: Depois de pensar sobre o assunto. O termo hebraico para considerar ou pensar, conforme usado no texto significa “aconselhar a si mesmo”. [3] Embora não seja mencionado, é certo supormos que Neemias orou antes de agir. Ele procurou estar a sós com Deus para colocar diante do altíssimo suas emoções, enquanto pensava consigo mesmo sobre a melhor saída para a situação. Precisava pensar e encontrar a solução mais adequada àqueles problemas. Se ele nada fizesse, pareceria insensível aos olhos de seus liderados e sua liderança não estaria voltada também para os mais carentes.
Depois de pensar e avaliar a situação, Neemias agiu, convocando uma grande reunião (v. 7b). Será que essa reunião era mesmo necessária? Pelo que vimos até aqui, sim. O povo de Deus estava tirando vantagem dos seus próprios irmãos! Além de tudo que mencionamos anteriormente, ainda havia aqueles que, aproveitando- se da falta de recursos de seus irmãos, emprestavam dinheiro com taxas elevadas de juros e exigiam como garantia que hipotecassem suas propriedades. Ao agir assim, descumpriam as ordens de Deus: Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então, sustentá-lo-ás (Lv 25:35-40), e ainda: A teu irmão não emprestarás com juros (Dt 23:19-20). Neemias convocou uma assembleia e confrontou os espertalhões, dizendo: estão cobrando juros exorbitantes de seus irmãos, isso não é certo (v. 7); estão promovendo a escravidão permanente entre os judeus, esse é outro erro (v. 8), e estão se tornando iguais às outras nações, isso é um drama. Ele os chama à pratica correta: Não é bom o que fazeis; porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus ...? (v. 9). Precisavam voltar-se às instruções divinas. Ao proibir que cobrassem juros, Deus tinha como objetivo abençoá-los (Dt 23:20).
A procrastinação é um grave erro: o regime será iniciado na próxima segunda-feira, o novo curso será iniciado depois, o pecado será abandonado amanhã. Neemias não pensava assim. Para ele, a mudança precisa começar agora. Ele próprio havia emprestado dinheiro e cereal (v. 10), e sua prática estava de acordo com a lei (Dt 15:2). Existem ocasiões em que uma ação pode ser legalmente correta, mas moralmente inoportuna. A gravidade da pobreza do povo exigia dádivas e não empréstimos, e ele não apresenta desculpas, mas diz: E agora vamos perdoar essa dívida (v. 10 – NTLH). Ele se inclui. Em seguida, Neemias convocou os ricos opressores a decidir: Restituí-lhes hoje, vos peço, as suas terras, as suas vinhas, os seus olivais e as suas casas, como também o centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite que exigistes deles (v. 11). Eles se comprometeram (v. 12). Neemias queria que assumissem compromisso oficial diante das autoridades competentes: Então, chamei os sacerdotes e os fiz jurar que fariam segundo prometeram (v. 12). A injustiça afetava a todos; por isso, as decisões deveriam ser públicas. Qualquer pendência serviria de argumento para não se cumprirem as decisões; então, nada ficou para depois.
Diante de todas essas injustiças, Neemias se portou de maneira exemplar. Preocupou-se mais com os interesses dos outros do que com os seus. Brilhante é a sua declaração esclarecendo a diferença entre ele e seus antecessores. Suas palavras são poucas: ... porém eu não fiz assim (Ne 5:15). Neemias não foi o tipo de líder que criticava os outros e fazia igual. O líder egoísta explora os outros para que as coisas aconteçam do jeito que ele quer; coloca-se como o centro das atenções e insiste em que tudo deva acontecer do seu jeito e no seu tempo. [4] Neemias não era o tipo que se preocupava com o que é popular; sua preocupação era fazer o que era direito. Ele agia diferentemente “por causa do temor de Deus” (v. 15). Sua fé o levava a escolher o que é certo. Neemias foi servo do povo e não explorador deste. Ouviu-lhe as queixas, mobilizou-o, protegeu-o, saiu em sua defesa e lidou sabiamente com o problema. Ele quebrou o ciclo de corrupção rompendo com os costumes tradicionais (vs. 14-15), fez reforma de contenção de gastos e se colocou como o primeiro da lista (v. 16); seus moços, ao invés de explorar os outros, trabalharam. Neemias pagou com seus recursos as despesas do governo, sem cobrá-las dos cofres públicos (vs. 17-18). Agindo assim, abriu mão de direitos garantidos: ... nem por isso exigi o pão devido ao governador (v. 18).
Pois bem, vimos, até aqui, que a injustiça social não é um problema apenas do nosso tempo. Desde a época de Neemias, o povo de Deus sofre com isso. Todavia, desde essa época, sempre houve aqueles (uma minoria, na verdade) que preferiram ser fiéis ao Senhor e andar na contra mão do seu tempo. Neemias, com a ajuda de Deus, soube lidar sabiamente com as injustiças sociais que via diante de si. Ele pensou sobre as situações, convocou uma assembleia, decidiu, orientou, chamou à atenção, enfim, não ficou parado e nem indiferente às injustiças que assolavam o povo. O que podemos fazer, diante das injustiças do nosso tempo?
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
1. Perante a injustiça social, não fique indiferente. A injustiça social ao seu redor pode acontecer em situações aparentemente pequenas, mas Deus espera que você não fique indiferente, ante o clamor e o sofrimento dos outros. A indiferença é pecado contra o próximo e contra Deus. Jonas pecou, enquanto ficou indiferente para com o futuro dos ninivitas. Recém-nascidos são abandonados, crianças são exploradas com trabalhos escravos, adolescentes são exploradas sexualmente, famílias pobres e sem instrução são oprimidas, políticos e líderes prometem justiça, mas se vendem por dinheiro ou poder. Dá para fazer de conta que nada disso acontece?
2. Perante a injustiça social, viva de modo exemplar. Neemias foi a Jerusalém atendendo ao chamado divino. Seu desejo não era poder, sexo ou dinheiro, como muitos que se acham no topo, mas era a manifestação da glória de Deus sobre a cidade em restauração. Com ele, aprendemos que o servo de Deus pode ser diferente do seu meio. Não é pelo fato de que todos fazem algo que devamos imitá-los. Pode surgir um esquema para burlar a lei, para ganhar mais dinheiro, para uma nova promoção. Por causa do temor de Deus, o crente é diferente. Os esquemas podem ser bem elaborados e tardiamente descobertos, mas o crente sabe que Deus vê tudo.
3. Perante a injustiça social, seja um transformador. Todo cristão é um conformado ou um transformador. Os “conformados” são aqueles cujas vidas são controladas pelo meio, enquanto que os “transformadores” são aqueles cuja vida é controlada pelo interior. Um é espremido para dentro dos moldes do mundo; o outro transforma o mundo. Diante da injustiça, precisamos ser transformadores. Estes consideram a situação e refletem consigo mesmos, analisam fatos e desejam a melhor solução, e só depois de chorarem e orarem em secreto encaram o desafio em público! Podem até tremer diante dos perigos, mas não saem da trilha e não retrocedem. São valorosos porque têm uma causa pela qual vale a pena viver e morrer, e sabem que estão do lado certo. A injustiça social é o nocaute para os fracos, mas nela se descobrem os heróis. Eles são altruístas, amam as pessoas, amam a Deus, amam a verdade.
CONCLUSÃO
Neemias teve de enfrentar problemas deixados por seus antecessores: esquemas de corrupção, pessoas infiltradas no governo para garantir o esquema, auto enriquecimento. Neemias é exemplo de como superar a injustiça social: não se deixou envolver no esquema; manteve-se no temor a Deus; liderava o povo, estava junto dele, era seu defensor e trabalhava com o povo e pelo povo. Suas atitudes deixaram claro que ele estava interessado no bem-estar de seus liderados e não em sua conta bancária; estava preocupado com a segurança dos subordinados e não com suas aventuras pessoais. Façamos o mesmo!
Que Deus nos abençoe!

Bibliografia
1. SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempos de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. pág. 92
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 639
3. SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempos de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. pág. 92
4. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 639

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