quarta-feira, 22 de setembro de 2010

José Serra é entrevistado pela equipe do Bom Dia Brasil

Candidato do PSDB respondeu às perguntas feitas por Renato Machado, Miriam Leitão e Renata Vasconcellos.

O ex-governador de São Paulo e candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, foi entrevistado nesta quarta-feira (22) pelo Bom Dia Brasil. Marina Silva (PV) e Dilma Rousseff (PT) foram ouvidas na segunda (20) e terça-feira (21). Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) será entrevistado na quinta-feira (23). A ordem das entrevistas foi definida em sorteio. Confira abaixo os vídeos e a transcrição das perguntas e respostas da entrevista.

PARTE 1


Renato Machado – Candidato, o senhor mostrou muita hesitação nessa campanha. Foi o último a se dizer candidato, foi o último a anunciar o vice, e até hoje não anunciou oficialmente o seu programa de governo. Não são muitos tropeços que podem ter repercussão negativa na campanha.

José Serra – Não creio, Renato. Porque eu era governador de São Paulo, não quis misturar governo com campanha. De fato, eu fiz o anúncio já na véspera de deixar o governo, embora tivesse tomado uma decisão minha. Mas não ia começar a me comportar como candidato e contaminando também o meu trabalho dentro do governo. Em relação a questão do vice, na verdade, houve um processo político por trás disso. Mesmo o vice que eu escolhi era uma pessoa que eu estava pensando, eu estava meditando a respeito, sem comentar para ninguém, porque coisa de vice qualquer noticiazinha que vaza já é uma dor de cabeça infinita. E por último, a questão de programa , o que eu encaminhei à Justiça Eleitoral foram textos, foram pronunciamentos meus, que se você for ler, você verá que tem todas as diretrizes de governo e agora nós estamos concluindo um trabalho amplo de debate do programa e deve estar logo, nos próximos dias, já posto inclusive para se receber comentários. É uma coisa muito vasta. Ontem eu vim lendo, vindo de Recife, em quatro horas consegui ler metade. Você pode imaginar. Por quê? Porque entra nos tópicos de cada assunto: energia elétrica, saneamento, petróleo, educação, nas diversas áreas. Não creio que esses tenham sido problemas não.

Miriam Leitão – Candidato, o senhor está prometendo um aumento do salário mínimo para R$ 600 já em 2011 e um aumento de 10% nas aposentadorias e pensões. O orçamento, que já está no Congresso, ele prevê R$ 278 bilhões de gastos com a Previdência no ano que vem. Então, isso significa, um aumento de 10%, R$ 28 bilhões. Essas promessas não são eleitoreiras, candidatos.

Serra – Olha, primeiro que não é promessa. É um anúncio, digamos. Segundo, que...

Miriam – Mas não são eleitoreiras?

Serra – Não. Por que eleitoreira?

Miriam
– Porque custa muito caro e porque o Orçamento já está no Congresso. Você conhece o Orçamento, candidato.

Serra – Eu conheço. Se é algo que nós vamos fazer, não é eleitoreiro nesse sentido. É algo que vai ser feito e eu acho que é necessário. E por outro lado, eu pesei bem a questão dos custos e como financiá-los. Por exemplo, a mensagem de lei orçamentária que foi enviada, ela subestima a receita da Previdência, enquanto ao impacto do mínimo, ela subestima. Segundo, você tem que medir o custo pela diferença entre o aumento anunciado e o aumento que efetivamente acontecerá. O custo não é com relação a este ano em relação ao próximo.

Miriam – Então, deixa eu ver se eu entendi. O senhor não vai cortar de lugar nenhum, o senhor está contando com uma receita que pode vir a aumentar.

Serra – Não, não. Vai ter também corte. Eu estou dizendo que você tem receita adicional, que está subestimada, se você pegar o PIB e a inflação, está subestimado. Você tem o aumento das contribuições dos empregados por conta do aumento do salário mínimo.

Miriam
– Mas onde que vai cortar?

Serra – Claro que é menos, porque senão você teria um círculo virtuoso total.

Miriam – Mas onde que o senhor vai cortar?

Serra – Terceiro, nós temos cortes em cargos de confiança, cabides de emprego, apertos, cortes de desperdício, renegociação de contratos, que a meu ver estão inflados, como eu fiz no governo de São Paulo, até que não tinha tanta coisa, e como eu fiz na Prefeitura da capital. Então, nós vamos efetivamente conseguir delimitar esses recursos. Eu fiz o cálculo, e naturalmente com o auxílio de assessores, antes de anunciar qualquer coisa. De modo que é factível que o Orçamento comporte essa despesa. Eu já tenho também experiência suficiente em Orçamento para saber que o Orçamento que aprova ele nunca é real. Por vários motivos. E o governo acaba sempre encaminhando para o lado que deseja. Nesse caso, eu simplesmente vou apontar as áreas de corte, as áreas de revisão e mandar para o Congresso essa proposta.

Renata Vasconcellos – Candidato, além do salário mínimo...

Serra – E é muito importante, são R$ 600 do mínimo que vai para isso e é possível fazê-lo. É um aumento em vez de 5, de 10% na Previdência e isso é perfeitamente possível.

Renata – Sobre, por exemplo, além do salário mínimo e aposentadoria, o senhor faz outra promessa ou anúncio como o senhor disse. Um 13º para o Bolsa Família como se o programa de assistência fosse uma espécie de emprego. O seu partido defendia uma porta de saída para quem era dependente do Bolsa Família. Eu gostaria de saber o que aconteceu, o senhor mudou de opinião?

Serra – Não. Primeiro, nós criamos as bolsas. Eu criei a Bolsa Alimentação no governo Fernando Henrique, o Paulo Renato criou a Bolsa Escola, metade dos beneficiados do atual Bolsa Família já eram beneficiados por ambos os programas, fora outros programas existentes. O que o governo Lula fez foi juntar e chamar Bolsa Família depois que o Fome Zero não andou, não deu certo. E no caso do Bolsa Família, uma outra proposta que eu fiz há mais tempo é de encaminhar para educação profissional os filhos das famílias da Bolsa Família, quando chegam à adolescência para poderem ter uma formação profissional.

Renata – Justamente, a ideia então é...

Serra
- Exatamente para que a renda possa se elevar. Agora, o fato é que você tem um conjunto de famílias que estão aí dependentes e que muitas vezes não tem condição mais na vida de ascensão. Pelas condições de idade, pelas condições da própria família. Nesse sentido, é um custo moderado e me parece perfeitamente razoável.

Renato – Candidato, o senhor falou aí ascensão . Sobre educação, vamos falar sobre educação, no horário eleitoral gratuito o senhor promete por dois professores em cada sala de aula, cerca de 1.750.000 novos professores. Isso também não é prometer o que não se pode cumprir?

Serra – Não, não. Não é não, Renato. Em geral, tudo que eu proponho ou eu já fiz ou eu calculo, tá certo? Isso eu fiz em São Paulo. Eu fiz na Prefeitura. O que que é o segundo professor? Você tem a professora titular, com a carreira dela e etc. E você pega uma bolsista, universitária, de pedagogia, que ganha uma bolsa para pagar a faculdade. Ou se vai em uma escola pública, fica para sua manutenção. E ela funciona como professora auxiliar e fica na sala de aula acompanhando a professora titular. E ajuda os alunos. Eu como prefeito e como governador sempre fui dar aula para a quarta série do ensino fundamental. Eu ia dar aula, dar aula com começo, meio e fim. Ensinava gráfico, tabela. Uma aula de verdade. Muda quem está fazendo barulho, uma coisa muito à vontade com os alunos. Eu tenho paixão por isso, por dar aula.

Renata
– Mas candidato, só para a gente poder entender justamente nessa questão. No governo de São Paulo o senhor prometeu reduzir o número de professores temporários, por exemplo, aqueles que não podem se dedicar.

Serra – Mas espera um pouquinho, eu não posso deixar de concluir essa resposta.

Renata – Pois não.

Serra - Então, nós pusemos, fizemos esse programa de duas professoras. O que que aconteceu? Melhorou incrivelmente a alfabetização do primeiro para o segundo ano, porque esse é um problema fundamental no ensino fundamental. É quando o aluno sai do primeiro, do segundo ano, analfabeto. Tendo uma segunda professora, reforçou muito o aprendizado. Eu ia dar aula, como estava dizendo, e às vezes eu ia lá para trás tem um aluno que tá no final, tem um, tem outro, que não entenderam. Se tem alguém junto, que fica lá rodando, ou depois da aula, inclusive, para dar uma explicação, isso ajuda muito.

Renata – Mas como acreditar na promessa... Candidato.

Serra – Fora que você treina a futura professora, e sai muito barato porque é uma bolsa, são R$ 400. Entendeu, Renata?

Renata – Pois é, dois professores, o senhor até mencionou, um auxiliar. Mas como acreditar nessa promessa de dois professores em sala de aula se em São Paulo, na questão dos professores temporários, está longe da meta a que o senhor se propôs, com 46% do total, é o dobro da média nacional, também é uma meta.

Serra – Não tem nada a ver com questão de temporário.

Renata – É qualidade de ensino, não é?

Serra - Veja só. Não tem nada a ver questão de temporário com isso. É outro problema questão de temporário.

Renata – Não tem a ver com qualidade de ensino?

Serra – Não tem nada a ver com coisa de dois professores, eu insisto. Não tem nada a ver. Segundo, todos os indicadores, no caso de São Paulo, do município e do estado, melhoraram. São Paulo hoje, na média, tem a melhor educação do Brasil. Deixa muito ainda a desejar, mas os últimos exames, resultados e etc. Basta dizer que o governo federal fixou uma meta absurda para o Nordeste, eu acho, de modesta, de acanhada, de pequena. Que é que em 2021 o padrão educacional do Nordeste seja igual ao de São Paulo em 2009. O que é um absurdo, nós temos que andar com muito mais pressa. No Nordeste tem que investir, tem que se concentrar no trabalho da educação.

Renata – Nesse caso dos professores temporários o senhor está satisfeito?

Serra – Agora, a questão de temporários, nós fizemos pela primeira vez exames para temporários para selecionar segundo o preparo. Abrimos muitos concursos. Agora, você tem lugares que você não preenche. Por exemplo, no ensino médio você tem dificuldade porque não tem professores disponíveis, você tem dificuldades de outra natureza. Agora, mesmo os temporários, nós fizemos exames para selecionar aqueles que têm uma qualificação, uma preparação maior. E abrimos concursos imensos para ir preenchendo.

Renata - Então o que faltou?

Serra - O importante é ver o quanto diminuiu, entende. Diminuiu bastante nos últimos anos.

PARTE 2


Renato – Estamos de volta para a segunda parte da entrevista com o candidato à presidência José Serra, do PSDB.

Serra – Renato, posso fazer um acréscimo pequenininho.

Renato - Um minuto, o seu tempo, candidato, começa a ser contado a partir de agora.

Serra - Perfeito. Só para completar a questão de duas professoras ou dois professores por sala de aula, nas escolas particulares, caras, na maior parte das vezes, tem dois professores. Eu não vejo por que no ensino público não possa ter. Tem outra vantagem que beneficia até as faculdades de pedagogia. Por quê? Porque as alunas de pedagogia, quando vão lá meter a mão na massa, elas veem o que está faltando para elas na faculdade, entendeu? Agora, a grande limitação é só a existência de faculdades de pedagogia, e nós vamos levar isso para o Brasil inteiro. Eu tenho certeza que vai ajudar.

Renato – Ok, candidato. Vamos, então, mudar de assunto. Nós temos um assunto que diz respeito à política agora. O ex-governador Joaquim Roriz está sendo julgado pela Justiça Eleitoral e pode até ser barrado nessas eleições por causa da Lei da Ficha Suja, a Lei da Ficha Limpa ou Ficha Suja. Ele não é considerado um ficha limpa. E o seu partido está apoiando a candidatura do ex-governador Joaquim Roriz, não é um pouco embaraçoso para o seu partido, sobretudo o seu partido que defendeu tanto a Lei da Ficha Limpa?

Serra – Defendeu tanto que o meu vice, Índio da Costa, que é daqui do Rio de Janeiro, foi um dos principais parlamentares envolvidos na aprovação do projeto Ficha Limpa.

Renato - E esse, e esse apoio então...

Serra – Pois é. Agora, a questão, tem a lei. A questão está na Justiça. A Justiça é que vai resolver quem disputa e quem não disputa. Quanto às alianças, elas são sempre locais e regionais.

Miriam - Mas é que tem o passado também, não é, candidato?

Serra - Aliança não é decidida nacionalmente. O partido, em cada lugar, encaminha uma aliança. E o Roriz teve lá problemas com a Justiça, está se defendendo. E a Justiça vai dar o seu pronunciamento final.

Renata – Candidato, muitos dos seus aliados criticam a sua postura nessa campanha porque dizem que o senhor não defende, como deveria, os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso e prefere, por exemplo, por a imagem do presidente Lula, inclusive na sua propaganda de TV. O senhor tem receio de ser oposição?

Serra – Não, não. Essa coisa do Lula, foi bom você ter perguntado, porque se repete muito. Não estou dizendo que é o seu caso, mas muita gente que pergunta não viu. Passou durante três segundos na televisão, ou quatro segundos. Na verdade, estava voltado para a candidata dele, no sentido de que ela não tem uma história, não tem uma biografia sólida, consistente com uma candidatura dessa importância, com a presidência da República. Então, pegou o atual presidente da República e a mim que sou candidato e disse: ‘ambos têm história, ambos têm isso, e a Dilma não tem’. Eu estou aqui reproduzindo. Isso não significou nenhum elogio, nem nenhum ataque.

Renata – Então, por que esconder Fernando Henrique Cardoso?

Serra – Agora, com relação ao Fernando Henrique, ninguém mais do que eu tem defendido as coisas boas do governo dele por toda a parte, inclusive nas entrevistas, inclusive nos debates. Agora, virou mote e o pessoal chega... você sabe, a imprensa gosta.

Renato – Menos no horário eleitoral?

Serra - A imprensa, cuja liberdade eu defendo, gosta de duas coisas em campanha eleitoral, esse é um fenômeno mundial. Eu estava lendo, está acontecendo nos outro países etc: pesquisa e bastidor. Fulano disse que sicrano disse, que não sei o que, que não sei o que lá, entende? Então, às vezes, vão em coisas irrelevantes.

Renata – Mas essa não é uma questão de bastidor, né, é da campanha...

Serra – Agora, no que se refere ao horário eleitoral, tem uma determinada estratégia. Não tem tido depoimentos de ninguém. Teve um do Aécio, uma ou duas vezes, e não teve mais de ninguém até agora. A estratégia não é por depoimentos, porque se considera que, no meu caso, a minha história é mais conhecida. Não é preciso vir alguém para dizer que eu fiz isso ou, muitas vezes, nos outros casos, nem fizeram. Chegam lá e dizem que fizeram. No meu caso, não é necessário dizer o que eu fiz ou o que eu não fiz. Porque isso é conhecido, eu tenho uma história pública. As pessoas conhecem os genéricos, o seguro-desemprego, os fundos de desenvolvimento. Enfim, tudo o que eu fiz na prefeitura, no governo do estado, metrô, melhores estradas. Enfim, todo mundo conhece as minhas coisas.

Miriam – Candidato, eu queria aqui voltar para a economia...

Serra – Inclusive de economia, que a Miriam Leitão conhece muito. É uma pena que nem sempre ela esteja totalmente de acordo comigo, mas é uma grande conhecedora.

Miriam – Por exemplo, em um ponto que o senhor disse aqui. O senhor disse que o senhor tem feito críticas à abertura econômica dizendo que ela foi rápida demais e tem dito que o país está se desindustrializando. Candidato, o país está crescendo, crescendo 7%, as empresas estão aumentando o investimento em vez de diminuir. Essa ideia da desindustrialização, eu não estou vendo fatos da realidade que comprovem isso. Além disso, essa sua crítica à abertura econômica, isso foi há 20 anos que abertura começou. O senhor pretende revogar isso e voltar ao protecionismo? Qual é exatamente a sua ideia em relação a isso?

Serra – Eu não tenho falado disso, inclusive ultimamente. O que eu disse é que a abertura econômica que foi feita no governo Collor... O Brasil tinha uma economia fechada, 50 anos fechada. Abriu de repente, e foi no estilo da cavalaria antiga. Lembra filme do Errol Flynn, “A Carga da Brigada Ligeira” etc? Rápido e mal feito. A cavalaria antiga era assim.

Miriam – Nós temos aí tarifas de 35% até hoje, 20 anos depois...

Serra – Peraí um pouquinho. Fazia um processo rápido e mal feito, e foi o que o Collor fez. Porque toda abertura econômica, e eu defendi isso no programa de governo do Tancredo Neves que eu fui o coordenador. Está lá escrito na abertura.

Miriam – A Copag.

Serra – Na Copag, eu era o chefe do grupo e fui eu que escrevi isso inclusive sobre política industrial, dizendo que era hora da abertura e da maior competição. Agora, eles abriram, mas não cuidaram de defesa comercial, de alfândega. E até hoje tem chinês vendendo sapatos para o Brasil que vêm dois ou três em uma caixa. A adoção de preço de referência, ou seja um preço mínimo...

Miriam – O senhor vai criar barreiras ao comércio internacional?

Serra – Não, não, eu vou fazer defesa comercial, porque o Brasil atua com burrice nessa área. Eu vou fazer defesa comercial. Produto chinês entra pela metade do preço, e é paga por fora. E aí a mercadoria importada não paga imposto, e a produção nacional paga. Isso não tem cabimento. Todos os países civilizados, os mais escancarados do mundo, Miriam, se defendem, e nós não nos defendemos. A indústria de brinquedos abastecia 90% do mercado nacional. Hoje, ela abastece 50%. Você conversa com eles, e eles nem falam tanto no câmbio. Sabe do que eles falam? Do produto que vem subfaturado pelo peso - não me pergunte como vem o peso nisso... peso, preço, faturamento etc. Então, a indústria aqui paga imposto, e o importado paga metade do imposto, porque metade entra por fora. Há alguns anos, eu vi a China exportava para o Brasil US$ 10 bilhões de têxteis, e o Brasil importava cinco. Ou seja, os outros cinco - isso dados oficiais - entravam por fora, sem pagar imposto. E o empresário nacional têxtil prejudicado por uma concorrência desleal. Nós reconhecemos a China como economia de mercado, “nós” eu quero dizer o governo, o que é um erro, porque não é uma economia de mercado e ficamos mais amarrados ainda para nos defendermos de práticas desleais de comércio. É nesse sentido em que eu disse que a abertura foi mal feita. Você devia ter feito as duas coisas gradual e simultaneamente. Aperfeiçoado ou criado mecanismos de defesa comercial.

Miriam – Tem um outro ponto do seu pensamento recente, o senhor tem repetido sempre, é a questão cambial. O senhor acha que a moeda está super valorizada e que, portanto, isso prejudica os exportadores e facilita os importadores, inclusive da China e tal. O senhor tem falado sobre isso. Agora, como é que o senhor pretende mudar essa relação? O senhor pretende desvalorizar o real, de forma, intervindo no Banco Central?

Serra – Olha, aí tem duas coisas importantes que são consenso. Que o real está super valorizado isso todo mundo concorda. E que isso prejudica a produção doméstica todo mundo concorda. Aliás, você falou de indústria. Você vai pegar a indústria de tratores, colheitadeiras, automóveis, etc. Elas estão virando, pouco a pouco, montadoras de verdade, porque a produção, as partes intermediárias, etc., eles estão aumentando agora rapidamente as importações. Vai para o interior do Rio Grande, do Paraná, de Santa Catarina...

Miriam – Eu quero saber o que o senhor vai fazer com o câmbio.

Serra – Eu já vou chegar lá. Eu estou aqui diagnosticando o problema. Então, tem um problema, sim, de retrocesso industrial. A Embraer produzia aviões com 60% de conteúdo nacional. Hoje, já está em 30%. Daqui a pouco, vai para 20%. Agora, a questão do câmbio precisa ser corrigida junto com os juros, porque é a contrapartida dos juros. Mas eu não vou fazer nenhuma intervenção. Nós temos um regime de responsabilidade fiscal, de metas de inflação, de flexibilidade cambial, de flutuação. Nós vamos manter esse regime. Tem uma equipe entrosada - Fazenda, Planejamento, Banco Central – trabalhando junto, procurando uma relação câmbio/juros melhor do ponto de vista do emprego e da economia. Isso não vai ser feito bruscamente, esse é um processo de política econômica. Há várias condições que têm que se cumprir, inclusive no ponto de vista fiscal, embora não exclusivamente. E nós vamos fazer, Miriam, uma pesagem em outro sistema mais favorável para o Brasil crescer e obter mais empregos.

Renato – Candidato, nós chegamos ao fim da nossa entrevista, mas o senhor tem 30 segundos para suas considerações finais.

Serra - Queria agradecer a oportunidade de falar aqui para tanta gente, responder perguntas de bom nível, algumas bem esclarecedoras, e queria dizer o seguinte: eu estou dedicado nesta campanha para ser presidente da República pelo Brasil. Eu acho que o Brasil vive um período crítico de sua história. As pessoas hoje estão satisfeitas, mas é preciso que estejam satisfeitas amanhã. Então, nós temos que ter uma economia forte. Nós temos que ter avanços na segurança, na saúde, na educação e na defesa das liberdades que hoje é um assunto que se coloca de forma muito impactante, inclusive da liberdade de imprensa que é a condição para a existência da democracia. Hoje, nós temos uma chantagem sobre a imprensa brasileira. E eu queria dizer que eu sou um defensor da liberdade da nossa imprensa, inclusive da de vocês.

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- JOSSÉ SERRA
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Fonte: Bom Dia Brasil

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