sábado, 19 de novembro de 2011

Como lidar com a injustiça social?

Foi grande, porém, o clamor do povo e de suas mulheres contra os judeus, seus irmãos. (Ne 5:1)
Há pouco tempo publiquei aqui o artigo A Conspiração dos Inimigos da Obra de Deus. O trabalho de reconstrução dos muros, em Jerusalém, foi duramente atacado pelos inimigos do povo de Deus. Eles debocharam, conspiraram, ameaçaram, tudo para tentar fazer a obra parar. Mas não conseguiram. O estudo de hoje, de alguma maneira, também trata de uma situação que, se não fosse resolvida, atrapalharia o trabalho de reconstrução. O ataque dos inimigos, registrado no capítulo 4, é externo e direto, mas o problema relatado no capítulo 5 do livro de Neemias é interno e muito mais perigoso. O problema a que nos referimos é a injustiça social.
Como o problema surgiu:
Aumento populacional, juros abusivos, impostos elevados, corrupção, fome, opressão para com os menos favorecidos. Parece que você está lendo notícias nos jornais de hoje, não é verdade? Não! São notícias de fatos ocorridos há quase vinte e cinco séculos. Os oprimidos clamaram a Neemias, o seu líder. Até as mulheres, que, geralmente, não se manifestavam, se envolveram no protesto. Diante dos protestos e reclamações, o líder reagiu. Suas ações trazem relevantes ensinamentos que servem como resposta à pergunta tema deste estudo: Como lidar com a injustiça social?
O povo não foi se queixar a Neemias sem razão. Havia fome naqueles dias (Ne 5:3), sendo as possíveis causas: seca e falta de produtividade na lavoura, porque a terra não fora cultivada de forma a suprir a necessidade das centenas de pessoas que invadiram a cidade, por ocasião da restauração dos muros de Jerusalém. Segundo a reclamação do povo, a fome ocasionou a seguinte situação: Para não morrermos de fome, nós tivemos de penhorar os nossos campos, as nossas plantações de uvas e as nossas casas a fim de comprar trigo (Ne 5:3–NTLH). Além da fome, havia a cobrança de impostos de todos os súditos de Artaxerxes, que controlava o mundo conhecido. Os cobradores desses impostos exigiam mais que o tributo oficial e ficavam com a diferença, uma espécie de lucro extra. Para pagar os elevados impostos, os pobres tinham que vender seus filhos e a si mesmos como escravos (Ne 5:5). [1] A culpa dessa situação lastimável se devia, em muito, aos governadores que antecederam Neemias. Eles deram sua contribuição para o aumento da injustiça social. No capítulo 5:15, são citadas três práticas que prejudicaram a nação. Primeiro: oprimiram o povo, ou seja, aumentaram impostos; segundo: ... tomaram pão e vinho, além de quarenta ciclos de prata, possivelmente, uma atitude ilegal; terceiro: seus moços dominavam sobre o povo, ou seja, promoveram líderes não pela competência, mas pela conveniência. Colocaram em cargos estratégicos parentes, amigos e pessoas que não os contrariariam, independentemente do que seria melhor para o povo. Veja que situação lastimável!
Ao tomar conhecimento da situação, Neemias teve duas reações. Em primeiro lugar, ficou aborrecido, irritado, furioso (Ne 5:6). A palavra hebraica traduzida por “furioso” traz o sentido de “estar quente, tornar-se irado, inflamar-se”. É bom que se diga que não foi um acesso de raiva pecaminoso, mas uma indignação justa, ante a opressão imposta aos seus irmãos. [2] Neemias era homem de coração sensível, ele não agia com indiferença, frente às necessidades dos seus conterrâneos; [tratamos sobre isso no artigo Não seja um cristão indiferente!]. Só o fato de estar em Jerusalém era prova suficiente disso. Em segundo lugar, depois de ficar furioso, Neemias se pôs a pensar sobre a situação. Ele não agiu baseado na precipitação. Em Ne 5:7, lemos: Depois de ter considerado comigo mesmo. O momento exigia prudência. A Nova Bíblia Viva traduz esse texto assim: Depois de pensar sobre o assunto. O termo hebraico para considerar ou pensar, conforme usado no texto significa “aconselhar a si mesmo”. [3] Embora não seja mencionado, é certo supormos que Neemias orou antes de agir. Ele procurou estar a sós com Deus para colocar diante do altíssimo suas emoções, enquanto pensava consigo mesmo sobre a melhor saída para a situação. Precisava pensar e encontrar a solução mais adequada àqueles problemas. Se ele nada fizesse, pareceria insensível aos olhos de seus liderados e sua liderança não estaria voltada também para os mais carentes.
Depois de pensar e avaliar a situação, Neemias agiu, convocando uma grande reunião (v. 7b). Será que essa reunião era mesmo necessária? Pelo que vimos até aqui, sim. O povo de Deus estava tirando vantagem dos seus próprios irmãos! Além de tudo que mencionamos anteriormente, ainda havia aqueles que, aproveitando- se da falta de recursos de seus irmãos, emprestavam dinheiro com taxas elevadas de juros e exigiam como garantia que hipotecassem suas propriedades. Ao agir assim, descumpriam as ordens de Deus: Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então, sustentá-lo-ás (Lv 25:35-40), e ainda: A teu irmão não emprestarás com juros (Dt 23:19-20). Neemias convocou uma assembleia e confrontou os espertalhões, dizendo: estão cobrando juros exorbitantes de seus irmãos, isso não é certo (v. 7); estão promovendo a escravidão permanente entre os judeus, esse é outro erro (v. 8), e estão se tornando iguais às outras nações, isso é um drama. Ele os chama à pratica correta: Não é bom o que fazeis; porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus ...? (v. 9). Precisavam voltar-se às instruções divinas. Ao proibir que cobrassem juros, Deus tinha como objetivo abençoá-los (Dt 23:20).
A procrastinação é um grave erro: o regime será iniciado na próxima segunda-feira, o novo curso será iniciado depois, o pecado será abandonado amanhã. Neemias não pensava assim. Para ele, a mudança precisa começar agora. Ele próprio havia emprestado dinheiro e cereal (v. 10), e sua prática estava de acordo com a lei (Dt 15:2). Existem ocasiões em que uma ação pode ser legalmente correta, mas moralmente inoportuna. A gravidade da pobreza do povo exigia dádivas e não empréstimos, e ele não apresenta desculpas, mas diz: E agora vamos perdoar essa dívida (v. 10 – NTLH). Ele se inclui. Em seguida, Neemias convocou os ricos opressores a decidir: Restituí-lhes hoje, vos peço, as suas terras, as suas vinhas, os seus olivais e as suas casas, como também o centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite que exigistes deles (v. 11). Eles se comprometeram (v. 12). Neemias queria que assumissem compromisso oficial diante das autoridades competentes: Então, chamei os sacerdotes e os fiz jurar que fariam segundo prometeram (v. 12). A injustiça afetava a todos; por isso, as decisões deveriam ser públicas. Qualquer pendência serviria de argumento para não se cumprirem as decisões; então, nada ficou para depois.
Diante de todas essas injustiças, Neemias se portou de maneira exemplar. Preocupou-se mais com os interesses dos outros do que com os seus. Brilhante é a sua declaração esclarecendo a diferença entre ele e seus antecessores. Suas palavras são poucas: ... porém eu não fiz assim (Ne 5:15). Neemias não foi o tipo de líder que criticava os outros e fazia igual. O líder egoísta explora os outros para que as coisas aconteçam do jeito que ele quer; coloca-se como o centro das atenções e insiste em que tudo deva acontecer do seu jeito e no seu tempo. [4] Neemias não era o tipo que se preocupava com o que é popular; sua preocupação era fazer o que era direito. Ele agia diferentemente “por causa do temor de Deus” (v. 15). Sua fé o levava a escolher o que é certo. Neemias foi servo do povo e não explorador deste. Ouviu-lhe as queixas, mobilizou-o, protegeu-o, saiu em sua defesa e lidou sabiamente com o problema. Ele quebrou o ciclo de corrupção rompendo com os costumes tradicionais (vs. 14-15), fez reforma de contenção de gastos e se colocou como o primeiro da lista (v. 16); seus moços, ao invés de explorar os outros, trabalharam. Neemias pagou com seus recursos as despesas do governo, sem cobrá-las dos cofres públicos (vs. 17-18). Agindo assim, abriu mão de direitos garantidos: ... nem por isso exigi o pão devido ao governador (v. 18).
Pois bem, vimos, até aqui, que a injustiça social não é um problema apenas do nosso tempo. Desde a época de Neemias, o povo de Deus sofre com isso. Todavia, desde essa época, sempre houve aqueles (uma minoria, na verdade) que preferiram ser fiéis ao Senhor e andar na contra mão do seu tempo. Neemias, com a ajuda de Deus, soube lidar sabiamente com as injustiças sociais que via diante de si. Ele pensou sobre as situações, convocou uma assembleia, decidiu, orientou, chamou à atenção, enfim, não ficou parado e nem indiferente às injustiças que assolavam o povo. O que podemos fazer, diante das injustiças do nosso tempo?
APLICANDO A PALAVRA DE DEUS EM NOSSA VIDA
1. Perante a injustiça social, não fique indiferente. A injustiça social ao seu redor pode acontecer em situações aparentemente pequenas, mas Deus espera que você não fique indiferente, ante o clamor e o sofrimento dos outros. A indiferença é pecado contra o próximo e contra Deus. Jonas pecou, enquanto ficou indiferente para com o futuro dos ninivitas. Recém-nascidos são abandonados, crianças são exploradas com trabalhos escravos, adolescentes são exploradas sexualmente, famílias pobres e sem instrução são oprimidas, políticos e líderes prometem justiça, mas se vendem por dinheiro ou poder. Dá para fazer de conta que nada disso acontece?
2. Perante a injustiça social, viva de modo exemplar. Neemias foi a Jerusalém atendendo ao chamado divino. Seu desejo não era poder, sexo ou dinheiro, como muitos que se acham no topo, mas era a manifestação da glória de Deus sobre a cidade em restauração. Com ele, aprendemos que o servo de Deus pode ser diferente do seu meio. Não é pelo fato de que todos fazem algo que devamos imitá-los. Pode surgir um esquema para burlar a lei, para ganhar mais dinheiro, para uma nova promoção. Por causa do temor de Deus, o crente é diferente. Os esquemas podem ser bem elaborados e tardiamente descobertos, mas o crente sabe que Deus vê tudo.
3. Perante a injustiça social, seja um transformador. Todo cristão é um conformado ou um transformador. Os “conformados” são aqueles cujas vidas são controladas pelo meio, enquanto que os “transformadores” são aqueles cuja vida é controlada pelo interior. Um é espremido para dentro dos moldes do mundo; o outro transforma o mundo. Diante da injustiça, precisamos ser transformadores. Estes consideram a situação e refletem consigo mesmos, analisam fatos e desejam a melhor solução, e só depois de chorarem e orarem em secreto encaram o desafio em público! Podem até tremer diante dos perigos, mas não saem da trilha e não retrocedem. São valorosos porque têm uma causa pela qual vale a pena viver e morrer, e sabem que estão do lado certo. A injustiça social é o nocaute para os fracos, mas nela se descobrem os heróis. Eles são altruístas, amam as pessoas, amam a Deus, amam a verdade.
CONCLUSÃO
Neemias teve de enfrentar problemas deixados por seus antecessores: esquemas de corrupção, pessoas infiltradas no governo para garantir o esquema, auto enriquecimento. Neemias é exemplo de como superar a injustiça social: não se deixou envolver no esquema; manteve-se no temor a Deus; liderava o povo, estava junto dele, era seu defensor e trabalhava com o povo e pelo povo. Suas atitudes deixaram claro que ele estava interessado no bem-estar de seus liderados e não em sua conta bancária; estava preocupado com a segurança dos subordinados e não com suas aventuras pessoais. Façamos o mesmo!
Que Deus nos abençoe!

Bibliografia
1. SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempos de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. pág. 92
2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 639
3. SWINDOLL, Charles R. Liderança em tempos de crise: como Neemias motivou seu povo para alcançar uma visão. São Paulo: Mundo Cristão, 2004. pág. 92
4. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Vol. 2. Santo André: Geográfica: 2008. pág. 639

DEC - PCamaral

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