quarta-feira, 31 de março de 2010

Hipocrisia

Zé Luís


Não poucas vezes, nós não damos conta dos sentido das palavras que ouvimos e mesmo que repetimos. Quando adolescente, li a crônica de Luís Fernando Veríssimo, Defenestração, que ilustra bem nossa estranha mania de imaginar sentido à palavras que elas realmente não tem.

Após anos de igreja, me perguntaram: “Você sabe o que significa 'pródigo'?”. Respondi com uma certeza imbecil: “Aquele que retorna...” Ledo engano. A palavra “pródigo” significa “gastador”. Sendo assim, o filho que retorna era na verdade a “Parábola do filho gastador”. Sinceramente? Gostava mais da minha versão...

Hipocrisia é uma palavra de raiz grega e significa “atuar”. É atribuída a alguém que finge ter atributos que realmente não possui.

Esse é o nome que mais rotula os crentes deste mundo, embora estes mesmos crentes nem desconfiem disso (Sabe aquele comentário que irrita:”Mas esse não disse que era crente?” Máscaras sempre caem, melhor se propor ser aquilo que o Nazareno já transformou).

O Mestre veio para ensinar que Ele só se fez necessário no lugar da Lei, por não existir alguém que possa cumprir moralmente todas as Escrituras. A acusação que caia sobre os fariseus era o hábito de mostrar uma pureza moral extremada através de suas impecáveis vestes sacerdotais, belas e emocionantes orações públicas, interesse fingido pela dor alheia, o zelo irracional pelo cumprimento reto dos rituais de limpeza de copos e mãos... Tudo isso era apenas um comportamento que nada se relacionava com o que ia dentro daqueles praticantes.

“Sepulcros Caiados” classificava-os Jesus: um belo e suntuoso mausoléu, onde, em seu interior, repousava a carniça de um cadáver que se decompõe putridamente.

Essa retidão moral que ainda vejo tantos fingirem – algumas vezes me levando a gargalhada, noutras, às lágrimas – é uma das poucas coisas que o Cristo denunciava, e pelo teor de suas acusações, a que mais lhe aborrecia.

Tantos mentindo descaradamente sobre uma vida sem percalços, sem tentações, sem dores inoportunas, sem espinhos na carne, apenas justificam as acusações destes que querem muito conhecer nosso Mestre, mas não suportam imaginar que terão que fingir que são o que não são, como veem tantos fazer.

Por causa dos hipócritas, que mostram um super-modelo moral que não existe, muitos não experimentarão do milagre que há em ter esse encontro com o Filho do homem.

Aí de ti, fariseu!! - advertia o Mestre. Essa era para o dia que virá, e para o maldito resultado de seus atos hipócritas: Tantos adorando um deus que não existe, trocando-o por comportamentos mecânicos e voluntários.

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Fonte: Cristão Confuso - Publiquei para complementar o assunto de meu texto anterior no PC@maral | "Você conhece um crente assim?"

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